Arqueólogos e pesquisadores estão fazendo um abaixo-assinado eletrônico, que será entregue à Secretaria Estadual de Cultura pedindo que a decisão seja revista.

Bela e imponente, apesar de degradada, a Casa da Fazenda Capão do Bispo está no meio de um impasse. Após 37 anos como sede do Centro de Estudos do Instituto de Arqueologia Brasileira, o imóvel, na Avenida Dom Helder Câmara, em Del Castilho, no Rio de Janeiro, terá de ser desocupado até o fim do mês, voltando para a Secretaria Estadual de Cultura.

No casarão do fim do século XVIII funcionam laboratórios, salas de pesquisa e biblioteca e estão guardadas importantes peças encontradas em sítios arqueológicos no estado (entre cerâmica, líticos e arte rupestres), que terão que ser transferidas.

Inconformados com o repentino despejo, arqueólogos e pesquisadores estão fazendo um abaixo-assinado eletrônico, que será entregue à secretaria pedindo que a decisão seja revista. Até segunda-feira (1), o documento somava 1.008 assinaturas.

Não há justificativa para a decisão, que vai prejudicar o trabalho de uma importante instituição de pesquisa e de vários arqueólogos. Lá há milhares de achados arqueológicos que nós guardamos , protesta o arqueólogo Paulo Seta, vice-presidente do instituto, acrescentando que a instituição, em quase quatro décadas, formou centenas de arqueólogos.

Segundo Seta, a instituição apenas foi informada de que não havia mais interesse do estado em manter o acordo de ocupação do prédio, sem maiores explicações. Ele diz que o uso havia sido acertado num termo de ajustamento de conduta – assinado em 1974, renovado em 1977, e, desde então, renovado automaticamente – em que o instituto comprometeu-se a instalar ali um centro de pesquisa e a cuidar da manutenção. Já o estado, segundo o instituto, ficaria responsável pelas obras de infraestrutura.

A subsecretária estadual de Cultura, Bia Caiado, disse que o acordo de cessão do imóvel feito com o instituto foi assinado em 1974 e expirou após cinco anos. Desde então, segundo ela, nenhum outro documento foi firmado.

O instituto possui outras sedes em Belford Roxo. Eles não vão simplesmente ficar na rua. Queremos transformar o Capão do Bispo num centro cultural totalmente voltado para a população, sem nenhuma área restrita, como fizemos recentemente num espaço que inauguramos em Manguinhos , comentou Bia.

O estado de conservação do prédio é precário. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que tombou o imóvel em 1947, tanto o Inepac quanto o Instituto de Arqueologia já foram oficiados sobre a necessidade de restauração. Com características comuns às construções rurais que ocupavam a região na época, a casa, que pertenceu ao primeiro bispo do Rio, tem capela interna e varanda com colunas toscanas. De acordo com o instituto, o governo estadual pouco investiu na manutenção do prédio. Ainda segundo os arqueólogos, a intervenção mais recente foi feita na década de 90, mas sequer foi acabada.

 

História

Criado em 1961, o Instituto de Arqueologia Brasileira é presidido por Ondemar Dias, um dos mais renomados arqueólogos do País. A instituição presta serviços de arqueologia a instituições públicas e tem estado à frente das mais importantes descobertas registradas nos últimos 20 anos no Rio. Entre elas, a de uma paliçada (espécie de cerca que constituía uma fortificação), achada em 2007, no subsolo da igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Praça Quinze, primeira prova material da presença europeia no Rio antes mesmo da fundação da cidade, em 1565.

 

Fonte: O Globo

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