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Fotos por Eduardo Paulanti

Na manhã desta quarta-feira (03), a ANPG realizou a mesa “Impactos sociais e econômicos da cooperações e do desenvolvimento científico e tecnológico no cenário internacional”, dando prosseguimento ao terceiro dia de debate do seminário “A Internacionalização da Ciência Brasileira: Realidade e Desafios”, durante a 9ª Bienal da UNE.

A mesa contou com a participação de Jerson Lima Silva, da Academia Brasileira de Ciência (ABC) e diretor científico da FAPERJ; Manuel Marcos Maciel Formiga, professor da UnB e chefe de assessoria de assuntos internacionais do MCTI; Ildeu de Castro, doutor em Física, professor da UFRJ e conselheiro da SBPC; e Omar Andrés Gomes Orduz, representante da Asociación Colombiana de Estudiantes Universitários (ACEU).

A presidenta da ANPG, Tamara Naiz, mediadora da mesa, deu início ao debate, destacando os principais assuntos que seriam abordados durante a discussão: cooperação científica e tecnológica, desenvolvimento de tecnologia, transferência de tecnologia, patentes, concentração e popularização do conhecimento, o papel da tecnologia na promoção do bem estar e inovação social.

Em seguida, Jerson Silva tomou a palavra para discutir o papel das FAPs (Fundações de Amparo à Pesquisa) no processo de internacionalização, e o indicativo de crescimento nas publicações científicas ocorrido nos últimos anos. “Há uma correlação entre como a pós-graduação cresceu, principalmente, a partir da década de 90 com o crescimento das publicações”, aponta.

Segundo ele, o Brasil está na 14ª posição no ranking de publicações científicas. “No entanto, quando se olha para a qualidade dos papers publicados (esta pode ser medida pela quantidade de citações por artigo), o Brasil ainda está muito atrás, na 24ª posição”, comenta.

O diretor científico da FAPERJ disse ainda que “se por um lado conseguimos produzir muitos trabalhos em periódicos, por outro, a nossa produção de patentes internacionais ainda é um número muito pequeno”. Ele atenta ainda para o fato de que, apesar do crescimento da Economia nos últimos anos, se não deixarmos de ser uma economia baseada, apenas, em commodities, vamos estagnar.

“Como uma agência de fomento pode tentar contribuir para isso?”, Jerson questiona introduzindo a parte de sua fala em que ele se atem a falar da FAPERJ, usando-a como exemplos para falar também de outras FAPs.

A missão da FAPERJ, segundo o diretor científico da Fundação, é implementar e valorizar o sistema científico e tecnológico estadual, apoiando atividades em todas as áreas do conhecimento e setores de atividades profissionais, pesquisadores e empreendedores. Além disso, promover a interligação entre Ciência, Tecnologia e Inovação e a sociedade.“ Se a gente não apoiar a ciência básica a gente vai continuar copiando coisas que estão sendo feitas em países desenvolvidos”, diz.

Jerson também falou sobre como a FAPERJ atua, através de concessão de bolsas, e comentou as ações de internacionalização da agência: Doutorado sanduiche e doutorado sanduiche reverso (que traz pesquisadores de outros países); Pesquisador visitante; Ciência sem Fronteiras (em parceria com a CAPES e CNPq); e Cooperação com agências, institutos e universidades de outros países. “A FAPERJ atua tanto lado a lado com a academia, mas também ao lado das empresas, com ações para difusão e popularização da Ciência,Tecnologia e Inovação, por meio da publicação de diversos livros”, finaliza Jerson.

Armadilha da Renda Média e Cooperação Internacional

O professor Marcos Formiga introduziu sua fala, abordando uma pesquisa que ele participou há dois anos, a partir da qual foi possível estabelecer as seguintes manchetes: Hoje o mundo está mais rico, mais saudável, mais educado e mais pacífico. Vive-se mais e mais conectado. Por outro lado, segundo ele, hoje, é possível observar o aumento do preço dos alimentos, a diminuição das reservas de água, o aumento dos níveis de corrupção e crime organizado, a fragilidade do meio ambiente como suporte de vida, o aumento do endividamento dos países e insegurança econômica, agravamento das mudanças climáticas e ampliação do fosso entre ricos e pobres. “Como vocês podem ver, o Brasil apresenta vários desses problemas”, comenta.

Mas, “como o Brasil é visto de fora?”, questiona o professor que atenta para o fato de a indústria brasileira estar vivendo um momento muito difícil, um processo de desindustrialização, menos operária, que deixa de ser uma grande estrutura para se configurar em estruturas menores e complementares. “Essa é a terceira revolução industrial, chamada de manufatura digitalizada/aditiva”, explica ele.

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Segundo Formiga, o Brasil caiu na armadilha da renda média, ou seja, a pobreza está sendo superada, mas o país continua preso (não avança mais) por incapacidade institucional. “Nas últimas cinco décadas, o Brasil consolidou-se membro dos países de renda média (4000 a 125000 mil dólares por habitante)”, explica. “Agora é preciso achar novas fontes de ganhos de produtividade por meio de tecnologia e criação de novos empregos”, complementa.

Como saída para essa “armadilha”, ele aponta alguns exemplos: deixar de imitar e passar a inovar, abertura comercial, infra-estrutura tecnológica, educação superior, inovação e empreendedorismo e instituições sólidas. E completou que “não é possível desenvolver Ciência e Tecnologia hoje sem a tríplice universidade, governo e empresa”.

O professor da UnB ainda atenta para o fato de a globalização econômica ter vindo antes da globalização da ciência e da tecnologia. “Estamos vivendo, com todos esses paradoxos, a economia da abundância, baseada no conhecimento, que se renova constantemente, não se esgota e se multiplica”, diz.

No entanto, o Brasil ainda ocupa o 2º lugar dos países emergentes, segundo estudo realizado com mais de 100 países, quando se leva em consideração os estágios para se atingir a economia digital. “Ainda é preciso avançar”, enfatiza o professor.

Segundo ele, a cooperação internacional torna a Universidade menos provinciana, menos auto centrada e menos deslumbrada com o sucesso local. “É preciso promover a mobilidade, diversificação e intercâmbio para que se faça comparabilidade”, diz.

O professor ainda destaca que é muito frágil a nossa cooperação com países latino-americanos, o que, segundo ele, mostra que não sabemos nos relacionar com nossos países vizinhos. “O Brasil investe pouco em cooperação, mais de 30% do orçamento para cooperação são para pagar gastos com organismos internacionais”, finaliza.

Diversidade da pesquisa

O doutor em Física, Ildeu de Castro, homenageado da Mostra de Ciência e Tecnologia da 9ª Biena da UNE, tomou a palavra, afirmando que é necessário qualificar melhor a internacionalização e analizar os impactos que isso tem no país.

“Temos que nos basear no que deu certo em outros países e ver o que pode ser adaptado à nossa realidade. O primeiro aspecto que gostaria de chamar a atenção é a importância na formação de pessoas. É preciso melhorar a educação básica e ampliar a educação superior, inclusive cooperando com outros países”, diz Ildeu, lembrando, sem seguida, que a ciência sempre foi uma atividade muito internacionalizada.

Ele também desmistificou a ideia de que a Ciência é algo neutro. “Não podemos ser ingênuos. A ciência e a tecnologia podem ser usadas tanto para a melhoria da vida das pessoas quanto para promover a desigualdade social. Pela nossa afinidade política, nós queremos uma ciência que emancipe as pessoas”, diz.

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Ele argumenta que “o Brasil é um país muito misturado, e isso deveria facilitar a cooperação. Mas, a cooperação com países de língua portuguesa, como Moçambique, poderia ser muito maior. A cooperação internacional tem que se expandir, inclusive nos países, ditos de 3º mundo”. argumenta.

Além da necessidade de se haver mais cooperação com o exterior, é importante lembrar da cooperação de universidades do eixo Rio-São Paulo com instituições de ensino superior de estados como o Amazonas, onde há uma riqueza científica imensa e pouco explorada. “Estamos vivendo um momento em que a comunidade científica deve fazer mais pressão para que haja mais recursos e mais participação social nas politicas publicas”, diz Ildeu.

O professor-doutor terminou sua fala, citando um exemplo de um artigo que ele leu recentemente. “Fizeram uma pesquisa grande com vários países sobre qual o fator que contribuía mais para o desenvolvimento cientifico e tecnológico. Concluíram que esse fator é a diversidade da pesquisa. Afinal, você não tem como saber de onde pode sair a inovação científica”, encerra.

Projeto epistemológico cultural e científico independente

O colombiano Omar Orduz trouxe ao debate a necessidade de se discutir o desenvolvimento da educação. Ele disse que o modelo da educação atual responde ao modelo econômico vigente. “A educação virou um serviço de consumo que está respondendo a interesses privados e capital multinacional. Por exemplo, 0,34% do PIB está destinado para educação superior na Colômbia, muito pouco.” Essa realidade o faz questionar: se essa é a porcentagem para a educação superior, qual será o investimento destinado para a pesquisa? E informa que todos os cursos de pós-graduação na Colômbia são privados, com valores que chegam a 3.500 dólares por semestre.

“Essa situação é o reflexo da desigualdade que também existe na Colômbia: apenas poucos têm condições financeiras para acessar a pós-graduação. Por conta disso, está havendo uma fuga de intelectuais da Colômbia que buscam melhores condições para realizarem suas pesquisas”, diz.

O estudante diz que o debate da internacionalização não é apenas o da produção científica, como estava sendo discutido pelos outros palestrantes, mas a difícil situação que vivem os pesquisadores latino-americanos em seus países de origem e que buscam melhores condições em países ditos desenvolvidos.

Outra questão nesse contexto a se levar em consideração, diz Omar, é a desigualdade entre países ricos e emergentes no que diz respeito à infraestrutura de pesquisa, que é precária nos ditos países subdesenvolvidos. “Por exemplo, na Colômbia, nós utilizamos equipamentos que datam da Primeira Guerra Mundial, muito obsoletos. Se não existir um investimento real na pesquisa, não vai existir condições favoráveis para competir no âmbito da internacionalização”, diz.

Outra questão levantada pelo colombiano foi: Em que medida, o número de publicações e das citações nos artigos científicos estão contribuindo para superar as questões sociais, a situação de desigualdade e de pobreza no país?

“É possível que seja importante o avanço das produções científicas, mas este não é o único indicador que pode dar a entender que os nossos países estão desenvolvendo a ciência e tecnologia. Se o Brasil tem bastante produção científica, isso não necessariamente quer dizer que pode estar refletindo sobre sua tecnologia e pesquisa”, diz.

“Essas pesquisas científicas, acredito, devem estudar profundamente os processos de integração entre os povos latino-americanos que está acontecendo agora. Esse é o maior desafio”, acrescenta.

Ele ainda diz que é preciso gerar uma proposta científica, para que possamos abandonar o colonialismo científico da Europa. “Os países latino-americanos têm que se unir para acabar com o colonialismo científico, cultural e tecnológico. Colômbia e o Brasil tem uma diferença abismal na produção cientifica, é preciso fazer uma integração entres os países”, diz.

Segundo ele, os países latino-americanos já têm uma tradição libertária. Essa tradição deve servir para um projeto epistemológico cultural e científico independente. “Essas questões que estou colocando aqui, em meu país, ainda são pouco debatidos. A razão fundamental da academia são os estudantes. E como estudantes, temos que trabalhar na tarefa de se criar um modelo próprio de universidade e defender esta instituição como cenário de utopias, mas possíveis”, finaliza.

O seminário “A Internacionalização da Ciência Brasileira” se encerra amanhã (05), às 10h, com o a mesa “Integração, internacionalização e mobilidade científica e acadêmica na educação superior”, no campus ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial), da UERJ, na rua Evaristo da Veiga, 95, Lapa, Rio de Janeiro.

Por Natasha Ramos, do Rio de Janeiro

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