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“Internacionalização deve ser um processo de solidariedade e integração entre nossos povos”, afirmou Ricardo Guardia Lugo, presidente da OCLAE, durante Seminário de Internacionalização

Fotos: Eduardo Paulanti

A ANPG realizou a última mesa do Seminário “A Internacionalização da Ciência Brasileira: Realidade e Desafios”, na manhã desta quinta-feira (05), durante a 9ª Bienal da UNE. A discussão, que teve como tema “Integração, internacionalização e mobilidade científica e acadêmica na educação superior”, contou com a participação de Álvaro Maglia, secretário executivo da Asociación de Universidades Grupo Montevideo (AUGM), Ricardo Guardia Lugo, presidente da Organización Continental Latinoamericana y Caribeña de Estudiantes (OCLAE), Mário Luiz Neves de Azevedo, Membro do Comitê Científico da ANPEd e Professor Associado da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e Andrea Latge, representante da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“Última mesa do nosso seminário, o objetivo desse debate é discutir o aspecto mais educacional dessa internacionalização”, introduz ao tema a presidenta da ANPG, Tamara Naiz. “A mesa pretende promover uma discussão de relevância da Internacionalização da ciência brasileira no aspecto da educação”, complementa.

Em seguida, tomou a palavra Mario Luis, que iniciou sua fala dizendo que internacionalização da educação superior é circulação de ideias, compartilhamento de culturas. “Internacionalização pode gerar integração sim”, diz. Em seguida, ele atenta para o que chama de capitalismo acadêmico. Ele citou o acordo geral sobre comércio de serviços da OMC, de 1995, que diz que o campo do serviço deve ser desregulamentado. De acordo com esse acordo, a educação deve ser pensada como um serviço transnacional, ou seja, que não é limitado pelas fronteiras. Isso contribuiu para o aumento na oferta de vagas das instituições de ensino superior privadas. “Atualmente, 74% das matrículas no Brasil são em instituições privadas”, comenta.

Segundo ele, são 4 milhões de estudantes que estão em algum país que não o seu de origem. No entanto, desse número, apenas 30.000 desses alunos são brasileiros. “Um número muito pequeno”, diz. O professor explicou ainda que os países que primeiro recebem os estudantes tupiniquins são: Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha e Espanha.

Para finalizar sua fala, ele comentou sobre os “mitos da internacionalização”. Um dos exemplos citados foi o mito de que estudantes estrangeiros no campus são os agentes desse processo. “São, mas se eles ficarem no gueto não é internacionalização, é preciso interculturalidade”, diz. Outro mito é o de que reputação e rankings são fiadores da internacionalização. “É mito, porque você constrói esses dados”, explica.

Regionalização

O uruguaio Álvaro Maglia inicia sua fala, afirmando que internacionalização não é apenas movimentar pessoas, tem que haver um objetivo político claro. “Se não tivermos esse objetivo claro, estamos entregando nosso patrimônio de conhecimento de nossa gente de graça para os países desenvolvidos”, afirma.

Nesse sentido, ele diz, interessa para nós falar de pelo menos um conceito: a regionalização. “Nós da AUGM, utilizamos esse termo para dizer que é necessário criar um projeto político regional, que significa que nossos acadêmicos e científicos possam gerar um conhecimento autônomo adequado para o contexto dos nossos países da América Latina e Caribe. Esse conhecimento tem que estar a serviço do bem-estar e desenvolvimento dos nossos povos”, afirma.

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A regionalização é uma proposta da AUGM, organização fundada em 1991, que propõe uma aliança entre as universidades latino-americanas e caribenhas, dentre as quais, 11 são brasileiras (8 federais e 3 estaduais).

“A primeira grande atividade da AUGM foi a 1ª Conferencia Regional Latino-Americana e Caribenha realizada em Havana (Cuba), em 1996, na qual participaram conselhos de reitores de todo o continente, além dos acadêmicos das universidades que compõem a AUGM. As conclusões desse evento foram importantes para definir as proposta da Conferencia Mundial da Educação Superior, em Paris, realizada pela UNESCO, em 1998. Isso contribuiu para que, nessa conferência, fosse definido que a educação superior é um bem público e social que é dever dos Estados [contradizendo o acordo da OMC, de 1995]”, explica Maglia.

Posteriormente, em Conferência Regional em Cartagena de Índias, na Colombia, 2008, foi estabelecido elementos para um plano de ação, dentre eles, a internacionalização, entendida como regionalização. Isso teria como objetivo promover um melhor desenvolvimento da academia e da ciência. “Esse primeiro plano de ação tem com tarefa a criação de um espaço de Ciência e Tecnologia regional da América Latina, com a missão de derrubar um conjunto de obstáculos políticos, que sabemos que existem”, explica.

Todas essas ações fizeram com que a UNESCO reconhecesse o protagonismo da AUGM e concedesse ao grupo uma sede em Montevideo. Essas contribuições se fundamentam a partir da melhor qualidade de formação dos profissionais acadêmicos latino-americanos, significando ter programas de pós-graduação muito fortes, com boa qualidade.

Internacionalização: solidariedade e integração

“Internacionalização deve ser um processo de solidariedade e integração entre nossos povos”, afirmou Ricardo Guardia Lugo, da OCLAE, que assumiu a fala na sequência de Maglia. O cubano afirmou ainda que é preciso uma mobilidade que responda aos interesses da América Latina e de nossos povos.

A OCLAE foi criada em 1986 para apoiar as organizações estudantis de educação superior. A entidade, desde o começo, se caracterizou como uma organização anti-imperialista, que tem um importante papel histórico na América Latina e Caribe.

“Nós, da OCLAE, consideramos que a mobilidade e a internacionalização são processos que tem grande importância. Esses não são conceitos que refutamos, mas devemos encará-los de outra forma. O processo de internacionalização tem que ser um processo de solidariedade e unidade dos países da América Latina. Defendemos um olhar regional e intra-regional de interação dessas universidades”, diz Lugo, concordando com o que havia dito Álvaro Maglia. “Por outro lado, devemos cuidar para que a mobilidade não vire um instrumento das perspectivas neoliberais”, acrescenta.

“Consideramos que a internacionalização e a mobilidade acadêmica devem servir para formar novas perspectivas, por exemplo, nas Engenharias, Humanidades, Energia. Seria maravilhoso se um estudante brasileiro estudasse no Chile e ao mesmo tempo tivesse um professor cubano que transmitisse o desenvolvimento científico da América Central. Ele depois voltaria para seu país e teria a síntese dessa rica experiência latino-americana para contribuir em sua área”, exemplifica. “Tudo que eu falei não é uma simples utopia, é possível fazer, de fato”, acrescenta.

Ele cita ainda a experiência em Cuba, e como esse exemplo deveria ir para outros países. “O enfoque das escolas da Medicina de Cuba é preventivo e comunitário, é desenvolvida para tratar os pobres. A educação em nosso continente deve ser por e para os latino-americanos. Tudo isso deve ser parte do sonho e para a luta por uma segunda independência de nossos povos”, finaliza.

Andrea Latge, representando o vice-reitor da UFF, compartilhou com os presentes as experiências que ela observa na universidade, a partir do programa na área de Física em que atua. “Temos feitos muitos acordos bilaterais, convênios… Temos conseguido trazer diversos estudantes e também nossos alunos tem tido a oportunidade de ir estudar em outros países. Acho o Ciência sem Fronteiras uma excelente iniciativa, mas ele precisa saber para onde está indo; esse processo tem que ser um ganho tanto para o aluno quanto para a universidade brasileira”, diz

Em sua curta apresentação, ela comenta ainda o fato de a internacionalização ainda ter menos oportunidades na área de Humanas, “pois a pesquisa na áreas duras, de exatas, são ciências mais universais, do que por exemplo a área de educação, de historia”, comenta.

“Defesa da Alegria”

Após as intervenções dos palestrantes, os pós-graduandos abordaram temas diversos relacionados à mesa. Gabriel Nascimento, da UnB, salientou a necessidade de se haver uma contrapartida para o estudante, para que este, ao voltar de seu intercâmbio, empregue o conhecimento adquirido para o desenvolvimento do Brasil. Já Cristiano Junta, da UFRS, questionou os critérios produtivistas da mobilidade acadêmica. Phillipe Pessoa, da USP, por outro lado, atentou para a importância de se fazer ciência dentro de uma diversidade científica, mesmo dentro das ciências duras.

Finalizando as intervenções, Tamara assume a palavra, retomando duas dimensões abordadas pelos palestrantes durante a discussão: a educação como bem público ou como um serviço. “Como um bem público, [a educação] é direito das pessoas, é dever do Estado, importante para o desenvolvimento do país”, afirma. “Educação como serviço, comércio, transforma as universidades em empresas privadas, que seguem a lógica do mercado”.

Ela encerra sua fala, com um poema do poeta uruguaio Mario Benedetti, “Defesa da Alegria”, em homenagem a Maglia, pois “a ciência deve estar a serviço da alegria de nossos povos”.

Por Natasha Ramos, do Rio de Janeiro

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