Muitas mulheres, muitas lutas por um Brasil justo e desenvolvido
Desde a tenaz resistência à agenda conservadora em direitos civis, patrocinada pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a luta das mulheres por igualdade tem ganhado visibilidade cada vez maior no Brasil. Inúmeros coletivos obtiveram protagonismo político inaudito no que se convencionou chamar de “Primavera Feminista”.

As redes sociais têm ampliado significativamente o alcance do debate público e trazido à baila questões como sexualidade e direito ao corpo, antes sufocadas pela tutela conservadora. O ponto alto do engajamento ocorreu nas históricas manifestações “Ele Não” que, convocadas pela internet, ganharam dimensão nacional e canalizaram a indignação contra a candidatura de Jair Bolsonaro, no 1ºturno das eleições de 2018.

Se o momento é de maior protagonismo, inclusive com reflexos no aumento da representação feminina no Congresso, a participação das mulheres na luta política brasileira não é novidade e nem se restringe às pautas comportamentais, ainda que elas tenham muita importância.

Mulheres de luta: resistência à ditadura e movimento popular

Na luta contra a ditadura militar, muitas mulheres enfrentaram o arbítrio em jornadas incansáveis por notícias do paradeiro de seus filhos – como é o célebre caso de Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel Jones, militante político assassinado pelo governo. A luta contra a carestia, originada em Clubes de Mães e Comunidades Eclesiais de Base, no final dos anos 70, também contou com ampla participação das mulheres e impôs reveses ao regime, como o abaixo-assinado endereçado ao Presidente da República que coletou mais de 1,3 milhão de assinaturas contra o aumento no custo de vida e por outras reivindicações.

Até hoje, elas são ampla maioria nas reuniões de movimentos populares de moradia e saúde, por exemplo. Essa é uma realidade atestada por pessoas como Maria Cícera, que desde 1979 organiza movimentos por habitação e urbanização no Conjunto Promorar do Jardim São Luís, periferia da zona sul paulistana. Cícera calcula que entre 80% e 90% do público do movimento seja feminino. “A mulher tem uma visão mais longa, ela administra, está preocupada com o bem-estar dos filhos, da família. Eu via minha mãe, nos anos 1950, que se virava para complementar o rendimento. A mulher sempre mostrou o anseio de independência, mesmo nas épocas em que não podia dar nenhum passo fora de casa”, avalia.

Cícera conheceu o movimento comunitário justamente por enfrentar, na época, as dificuldades adicionais de mulher solteira. “Para alugar uma casa era exigido que o contrato fosse assinado pelo marido. Eu tive esse problema, comentava no salão e muitas também tinham. Resolvemos participar de uma ocupação. As mulheres eram maioria, mas a liderança era de homens. Quando saíram as casas, descobrimos que as mulheres “sozinhas” ficaram de fora”, conta. A reação foi enfrentar as lideranças, mesmo a contragosto de alguns tidos como “donos do pedaço”. “Aí pensamos: temos que descobrir a data da reunião e invadir. Fomos lá na reunião com o prefeito, mostramos que fomos excluídas e acabamos entrando na demanda”. Dali em diante, viram que o caminho para conquistar direitos iguais era longo e precisava de organização. “Depois vieram os problemas de creche, emprego, escola no período noturno, curso de profissionalização… e até hoje continuamos na luta”, afirma.

A mulher e os obstáculos na vida acadêmica

As mulheres representam a maioria entre estudantes de pós-graduação, segundo os números divulgados em 2018 (referentes a 2016) pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), respondendo por 165.564 das matrículas em cursos de mestrado ou doutorado – os homens totalizam 138.462.

Essa realidade constitui um avanço, mas não deve obscurecer o fato de que “assim como na sociedade em geral, na pesquisa científica e na academia as mulheres continuam sofrendo uma série de opressões”. A opinião é de Stella Ferreira Gontijo, 25 anos, mestranda em História na Universidade Federal Fluminense e Diretora de Mulheres da ANPG, para quem as questões são “desde assédio de orientador à falta de creches para quem têm filhas e filhos e até maiores dificuldades para receber bolsas ou assumir cargos de chefia nos laboratórios e conduções de pesquisas”.
A mesma linha de raciocínio é seguida pela vice-presidenta da ANPG, Manuelle Matias, 27 anos, que identifica uma espécie de funil que reduz a participação feminina de maioria na base para minoria nas posições de destaque na produção acadêmica. “Metade dos artigos científicos são escritos por mulheres (Relatório ‘Gender in the Global Research Landscape’), embora elas sejam menos citadas em relação aos homens nos artigos e estejam subrepresentadas nos mais altos espaços da comunidade científica do país. Por exemplo, é de 75% a proporção de homens agraciados com a maior bolsa de pesquisa do país, a de pesquisador nível sênior 1A do CNPQ”, argumenta Manuelle, que é doutoranda em Saúde Coletiva na UERJ.

Maternidade X Carreira: um dilema a ser enfrentado

A aprovação da licença maternidade para as pós-graduandas bolsistas (Lei 13.536/2017, de autoria da deputada Alice Portugal – PCdoB-BA), que contou com participação ativa da Associação Nacional de Pós-Graduandos para sua aprovação, foi uma das mais importantes conquistas do último período.

Mariana Moura, 38 anos, doutoranda no Instituto de Energia e Ambiente da USP, também considera essa dicotomia o gargalo a ser enfrentado. “Acredito que o próximo grande desafio será garantir o direito de ser cientista e mãe sem derrubar nossa pontuação, que conta muito para o acesso aos recursos e concursos. A UFF saiu na frente com isso”.

Matéria da revista Pesquisa Fapesp apresenta um estudo desenvolvido pelo projeto “Parent In Scienc”, no qual foram entrevistadas 1.182 pesquisadoras, entre as quais 921 mães – para 81% delas a maternidade teve impacto negativo profissionalmente. “Somos tão boas pesquisadoras quanto qualquer um, temos tanto a contribuir para o desenvolvimento do país quanto todos os cientistas, mas enquanto as cientistas tiverem que escolher entre fazer pesquisa de ponta e serem mães, perderemos muitos cérebros brilhantes”, assegura Mariana.
O ambiente político e a ameaça de retrocessos

Para Stella Gontijo o ambiente acadêmico também sofre a influência da cultura patriarcal da sociedade brasileira. “Continua a dificuldade de as mulheres ocuparem espaços da produção do conhecimento e cargos de direção dentro da universidade. Essa exclusão é sintomática da forma como a produção do conhecimento se organiza para continuar reproduzindo uma visão equivocada de ciência “neutra”, avalia.

A conjuntura política nacional enseja riscos de retrocessos, inclusive, uma vez que “direitos conquistados são vistos como concessões”, diz, lembrando o pensamento de Simone de Beauvoir. “A ministra dos Direitos Humanos e da Família vai contra todo o avanço conquistado para a vida das mulheres ao se portar como voz ativa da agenda conservadora, que quer controlar mais nossas vidas, corpos, criminalizar a sexualidade. É importante que as mulheres ocupem a política para transformá-la e não para reproduzir a lógica patriarcal”, conclui.

ANPG na vanguarda da luta pela igualdade

Se a luta por igualdade de direitos para as mulheres é histórica e remete à passagem dos séculos XIX e XX, ela continua atualíssima e mais complexa, ainda mais num país de conservadorismo tão arraigado quanto o Brasil e com grandes disparidades sociais e regionais. Para ter efetividade, precisa combinar os elementos contemporâneos e mobilizadores, como as questões de direitos civis, com pautas que unam amplos segmentos da sociedade, como a defesa da democracia, dos direitos trabalhistas e previdenciários.

“A luta pela emancipação das mulheres se conjuga com outras que afetam estruturalmente o Brasil. A igualdade passa pelo combate aos preconceitos e pela geração de mais e melhores oportunidades, o que só pode ser resolver com o país buscando um desenvolvimento que partilhe seus frutos com o povo e não os concentre em poucas mãos. A concentração de riqueza gera restrição de direitos”, reflete Flávia Calé, presidenta da ANPG.

A Associação Nacional de Pós-Graduandos tem sido um instrumento importante ao elevar muitas mulheres jovens à condição de protagonistas no debate de ciência, tecnologia e pesquisa como elementos indispensáveis a um modelo de desenvolvimento inclusivo. Desde a sua fundação, em 1986, a entidade teve pioneirismo em elevar mulheres aos postos de direção, sendo 10 as presidentas nesse período. A atual direção conta com paridade de gênero entre seus membros. “A luta das mulheres é necessariamente interligada a um projeto de nação justo e democrático. Ser vanguarda na construção desse projeto é o desafio a que estão chamadas as pós-graduandas”, conclui Flávia.

Por Fernando Borgonovi

Foto: Karla Boughof | Cuca da UNE

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