Artigo do presidente dos Estados Unidos Barak Obama defende modelo com maior participação do Estado na educação superior do país. Apesar da postura controversa do governo estadunidense, o artigo evidencia a crise de políticas liberalizantes e enseja importante debate sobre o papel do Estado na educação.

Em que pese a postura controversa do governo norte-americano, que permanece com política guerreira sobre outros povos e nações, o artigo de Barak Obama se traduz como elemento interessante ao debate educacional, pois o modelo estadunidense de ensino superior, absolutamente privatizado, serve há muito tempo como exemplo e justificativa para a implementação de políticas privatizantes em diversos países do mundo. 

A defesa do presidente dos Estados Unidos de maior intervenção do Estado para garantir uma melhor política educacional evidencia o momento de crise de políticas liberalizantes no mundo e enseja importante debate sobre o papel do Estado na educação.

Leia a íntegra do artigo:

Nas faculdades e universidades dos Estados Unidos, estudantes dirigem-se para suas salas de aula, muitos pela primeira vez. Vocês estão participando de uma jornada que não só determinará seu futuro, mas o futuro do país.

Por Barak Obama

Sabemos, por exemplo, que, no final desta década, oito de cada dez novos empregos exigirão mão de obra qualificada ou com curso superior. E sabemos que, numa economia global, os países que hoje têm níveis superiores ao nosso no campo educacional, amanhã serão mais competitivos do que nós. No século 21, o sucesso dos Estados Unidos vai depender do ensino oferecido aos nossos alunos.

E por isso, logo depois de assumir o governo, propus uma meta ambiciosa: em 2020 os EUA novamente serão o país com o maior número de estudantes formados em faculdade em todo o mundo. E nos últimos 18 meses estamos adotando políticas que nos auxiliem a cumprir esse objetivo.

Primeiro, estamos tornando a faculdade mais acessível. Vocês, estudantes, sabem como isso é importante. Nos últimos dez anos, os custos de um curso universitário aumentaram mais rápido do que os gastos com habitação, transporte e até com a saúde. O volume de empréstimos para os estudantes aumentou quase 25% em apenas cinco anos.

Não é um assunto abstrato para nós. Michelle e eu contraímos grandes empréstimos a ser reembolsados quando nos formamos. Sei muito bem o que esse encargo implica. Ninguém nos Estados Unidos deve arcar com uma dívida tão opressiva simplesmente porque quer ter uma boa educação. E a ninguém deve ser negada a oportunidade de tirar o máximo proveito de suas vidas porque não pode pagar por isso.

É a razão pela qual estamos numa luta árdua para vencer uma batalha que há anos domina Washington, sobre como administrar os empréstimos estudantis. Com base no antigo sistema, os contribuintes pagavam aos bancos e empresas financeiras bilhões de dólares em subsídios para servirem de intermediários, um acordo muito lucrativo para eles, mas desnecessário e perdulário. E como esses interesses especiais eram tão poderosos, o desperdício de dinheiro foi mantido por décadas.

Mas, este ano, demos um basta. Como resultado, em vez de transferirmos US$ 60 bilhões em subsídios injustificados para os bancos, estamos redirecionando esse dinheiro para aperfeiçoar as "faculdades comunitárias" (uma faculdade mais barata e popular, onde a maioria dos estudantes universitários conclui as matérias curriculares antes de seguir para as grandes universidades) e torná-las mais acessíveis para quase 8 milhões de estudantes e suas famílias.

Bolsas

Estamos triplicando o investimento em incentivos fiscais para famílias de classe de média com filhos estudando. Aumentamos o valor do Pell Grants (programa de concessão de bolsas de estudo) e decidimos que ele aumentará anualmente de acordo com a inflação. O reembolso dos empréstimos ficará mais administrável para mais de um milhão de estudantes.

Os futuros tomadores de empréstimo poderão até mesmo optar por um plano de pagamento que tenha como base sua renda, de modo a não precisar separar mais do que 10% do salário por mês para esse resgate. E se você entrar para o serviço público e conseguir cumprir com seus pagamentos em dia, sua dívida remanescente será perdoada depois de dez anos. Como parte desta iniciativa, estamos simplificando os formulários de ajuda financeira, eliminando dezenas de questões desnecessárias.

Quero observar também que uma maneira de ajudar os jovens a pagar a faculdade é ajudando-os a poder ter um seguro de saúde. Pela nova lei que rege o sistema de saúde, os jovens podem ser incluídos como dependentes nos planos de saúde de seus pais até os 26 anos de idade.

Em segundo lugar, o ensino superior precisa mais do que ser acessível; ele necessita também preparar os alunos para os empregos do século 21. As faculdades comunitárias, um ativo tão depreciado neste país, estão bem colocadas para liderar esse esforço. Por isso, estamos procurando melhorar essas instituições, vinculando as competências ensinadas nas salas de aula às necessidades das empresas locais em setores da economia que vêm crescendo.

A terceira parte da nossa estratégia para o ensino superior é assegurar que mais estudantes concluam os cursos. Mais de um terço dos estudantes universitários em nosso país, e mais da metade dos nossos estudantes que pertencem às minorias, não se diplomam, mesmo depois de seis anos.

Não se trata de desperdício de dinheiro somente; é um desperdício incrível de potencial que freia o progresso do país. Não precisamos apenas abrir as portas das universidades para mais americanos; precisamos garantir que os alunos saiam delas com um diploma nas mãos.

Naturalmente, isso depende do estudante. E vocês são responsáveis por seu próprio sucesso. Mas podemos fazer mais ainda para remover as barreiras que impedem a conclusão dos estudos, especialmente no caso daqueles alunos que estudam e trabalham ou têm uma família para sustentar. Assim, sugeri ao College Access and Completion Fund (Fundo de Acesso e Término da Universidade) que desenvolva, aplique e avalie novas alternativas para aumentar o sucesso dos alunos nos cursos e a sua conclusão, particularmente no caso dos estudantes menos favorecidos.

Assim, estamos tornando a faculdade mais acessível, adaptando o ensino que vocês receberem às demandas de uma economia global e adotando medidas para elevar o número dos nossos formandos. Porque é dessa maneira que voltaremos a ser líderes na produção de jovens graduados nas universidades.

É assim que nós ajudaremos estudantes como vocês a realizar seus sonhos. E é dessa maneira que vamos assegurar que os Estados Unidos prosperem neste novo século, aproveitando a nossa maior fonte de energia: o talento do nosso povo.

Artigo escrito para o Portal da Casa Branca (www.whitehouse.gov) e publicado em "O Estado de SP" em 5 de setembro. Tradução de Terezinha Martino

Edição: Luana Bonone, diretora de Comunicação da ANPG

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