O último dia do II Encontro de Mulheres Estudantes (EME), que aconteceu nos dias 4 e 5 de setembro, levantou importantes debates entre as pós-graduandas. As atividades começaram às 9h com quatro grupos de trabalho. Esses debates resultaram em uma Carta, aprovada por todas as participantes, que servirá como instrumento político no próximo ser debatido no próximo Congresso da ANPG, que acontece entre os dias 14 e 19 de setembro (saiba mais aqui).

 

Leia a carta completa com os encaminhamentos aqui

O encerramento do II EME aconteceu às 21h em uma mesa mediada pela vice-presidente da ANPG, Manuelle Matias. O tema do encerramento foi “Divisão sexual do trabalho e pós-graduação”. “Observamos no evento quanto é desconexa a vida privada das mulheres em reflexo com a vida pública, na qual ainda estamos sem visibilidade. Percebemos que no Brasil existe uma completa ausência de políticas múltiplas voltadas para as mulheres”, explicou a vice-presidente.
Antes do início da última mesa, a ANPG convidou Manoela Karipuna, mulher pesquisadora indígena, para falar sobre a importância do dia 5 de setembro, Dia da Mulher Indígena, e dar sua contribuição para o II EME. A pesquisadora falou sobre a importância de debater as violências que as indígenas sofrem nas universidades e reforçou a necessidade de ser responsável por escrever sua própria história e não ser objeto de estudo.
Após a importante fala da líder indígena, Natália Trindade, mestranda UERJ e convidada da mesa, contou sobre sua pesquisa em torno do gênero e trabalho doméstico sem remuneração. “Com certeza vocês já ouviram falar ou vivenciaram a sobrecarga deste trabalho e já se viram na dicotomia: ou você cuida da sua produtividade ou do trabalho doméstico não remunerado. Essa é uma realidade que foi exacerbada na pandemia, no qual as mulheres tiveram queda em sua produtividade acadêmica”. A pesquisadora também relatou que em seus estudos esse tipo de trabalho é comum nas mais diversas classes sociais.
A professora adjunta da Escola de Serviço Social da UFF Niterói e coordenadora do NEPEQ/UFF, Jacqueline Botelho, disse em sua fala que “a divisão do trabalho como é hoje, no qual a grande carga do cuidado recai sobre as mulheres, não é natural. É social e pode ser transformada”. Botelho também fez uma apresentação potente e disse que as ações políticas de cotas nas universidade não são suficientes para superar o racismo. “Por isso, não basta falar ´sou contra o racismo´. É preciso cobrar ações do estado e, por isso, o diálogo com os movimentos sociais é tão importante”.
A economista e pesquisadora na área de relações de trabalho e gênero, Marilane Teixeira, fez uma análise da divisão do trabalho com as lentes das ciências econômicas. “Os estudos de gênero dentro da economia, infelizmente, são vistos como periféricos e numa caixinha do conhecimento setorizado. Nunca são reconhecidos de maneira fundamental na produção acadêmica”.
Veja a mesa na íntegra

Grupos de trabalho: importantes debates sobre diferentes perspectivas da mulher pós-graduanda
O primeiro grupo de trabalho (GT) teve como tema “pesquisadoras e profissionais da saúde no contexto da pandemia”. As convidadas expuseram suas perspectivas como profissionais da área, além de apresentarem dados importantes para compreender e criar propostas de transformação.

Denise Anjos de Oliveira, Fisioterapeuta da Equipe de Saúde Prisional e Mestranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social UERJ, explicou como a pandemia tem afetado a vida dos profissionais de saúde. Ela, que é mãe, está no período de qualificação e em plantões e comentou sobre a complexa situação. “Cheguei a sentar no chão entre um plantão e outro para escrever minha tese”. A pós-graduanda acredita que os prazos precisam ser revistos de uma maneira mais humanizada. Também convidada do GT, Monique Pfeifer, residente no Programa de Atenção Básica de Currais Novos/RN e mestra em psicologia, apresentou a situação das mulheres residentes em saúde. “Somos estudantes em serviço na prática. Não somos nem trabalhadores e nem estudantes e vivemos nessa ambiguidade. Com a pandemia, a situação ficou mais complicada e as exigências não diminuíram”.
A enfermeira e mestre em saúde pública da FIOCRUZ, Roseane Corrêa, fez um panorama da enfermagem no Brasil. “No Brasil, 85% dessas profissionais são mulheres. São elas que estão na linha de frente na pandemia. Do montante de profissionais de enfermagem, 23% tem ensino superior e 77% são auxiliares técnicos, 53% são negros e 42% brancos”. A pesquisadora reforçou que esta é uma profissão fragilizada pois os profissionais estão perdendo seus direitos trabalhistas a cada dia e precisam arcar com o custo de seus estudos. “72% dos profissionais de enfermagem estão no Lato Sensu, mas 80% são responsáveis pelo custeio de sua educação. Isto é, o SUS absorve metade desses profissionais mas não arca com os estudos”.

O segundo grupo de trabalho trouxe para o debate os desafios do racismo institucional na pós-graduação. As convidadas debateram sobre a questão de acolhimento das mulheres negras na pós-graduação e a importância das políticas afirmativas.

Para Carla Pereira Silva, cientista social, doutoranda em Ciência Política pela UFMG e professora do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, o grande desafio é enfrentar as modalidades do racismo já constituídas. “As instituições são reprodutoras de assimetrias e discriminação e não trabalham o tripé acesso, permanência e êxito. As políticas de ações afirmativas possibilitaram o ingresso maior de mulheres e homens negros nos cursos de mestrado e doutorado, mas ainda é preciso debater o acolhimento”.
Raquel Melo de Oliveira. mestranda no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP, relembrou a importância da políticas de cotas. “Na Bahia, já tivemos 5% da população negra sem o ensino fundamental concluído. A situação mudou e a população negra foi para a universidade, mas é preciso transformá-la. Ainda é preciso repensar a estrutura desse modelo de instituição que não acolhe e nos deixa na solidão do não pertencimento”.
O GT também contou com a participação da convidada Gisseila Garcia, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Doenças Crônicas e Ocupacionais (GERMINAL) e doutoranda em Saúde Pública na UFMG. A pesquisadora, que é de Cabo Verde, contou sobre ser mulher negra, cientista e estrangeira.

O terceiro grupo de trabalho se dedicou ao ataques sofridos pelos estudos de gênero e as pesquisas que buscam diminuir a diferença de gênero na academia e na ciência & tecnologia. O debate foi aberto por Etna da Silva, pesquisadora ativista e doutoranda em Saúde Pública na UFMG, que pontuou sobre a importância de falar das mulheres negras na questão do estudo do gênero e sua construção dentro da academia. “O racismo e o machismo estão de forma interseccional e congruente e não são independentes. Essa pontuação é importante para perceber se os avanços da luta feminista são para todas ou apenas para algumas mulheres”.
Já Luciana Brito, psicóloga, doutora em Saúde Pública e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, contou sobre sua pesquisa, feita pela lente feminista e de feminismos. “São essas lentes que nos movem e nos direcionam para fazermos as perguntas em busca de uma transformação”. A pesquisadora afirmou que o gênero é um regime político que governa nossos corpos e, por isso, ele é transformável. “Ele não deve ser regido por normas biológicas e de maioria social”.
Maria Clara Maia, mestranda em Ciência Política na UFMG e militante da Marcha Mundial de Mulheres, fez um recorte histórico sobre o estudo do gênero relembrando que ele começou dentro da igreja católica e depois continuou nas universidades. “Um estudo que busca respostas positivas foi usado nos anos 90 para um controle social. Vimos isso no Brasil com o tema de escola sem partido, que confunde a população e não mostra como esse estudo é essencial”

O último GT do evento foi sobre maternidade na pós-graduação: acesso, permanência e parentalidade. O debate foi uma conversa sensível sobre um tema tão importante e pouco analisado dentro dos programas e agências de fomento.
Fernanda Staniscuaski, mãe de três filhos, docente do Instituto de Biociências e pesquisadora do Centro de Biotecnologia da UFRGS, coordenadora e fundadora do Movimento Parent in Science, contou um pouco sobre a história do movimento. “Começamos com o objetivo de buscar e construir editais de financiamento específico para mulheres que estão retornando do período de licença-maternidade. Para isso, fizemos um levantamento com as mães da pós-graduação e descobrimos muitos obstáculos”. Um dos passos do grupo foi propor a inclusão da licença-maternidade no lattes. “O CNPq respondeu positivamente, mas não colocou em prática”. A professora disse ainda que a luta é grande. “Os processos de seleção para entrada no mestrado e doutorado devem considerar a maternidade. Isso para estudantes com bolsa ou não”.
Fernanda Garrides, mãe, doutoranda da Fiocruz RJ e 1ª diretora de saúde da ANPG, levantou a questão da estrutura para as mães, desde o acesso à universidade. “É preciso estrutura física e políticas públicas para as mães. É muito perverso ter que escolher entre a carreira e a maternidade”.
Flávia Souza, doutora em Saúde Coletiva IMS/UERJ e Sanitarista ENSP/Fiocruz, reforçou o papel das mulheres negras nesta perspectiva. “A nossa agenda política prioritária precisa ser com as ações afirmativas para que mais mulheres negras entrem na pós. Atualmente, apenas 0,4% são mulheres negras docentes com doutorado e 3% mulheres negras e pardas. É um número que precisa ser ampliado”.

Plenária
Na plenária, os grupos de trabalho leram seus encaminhamentos, que ajudaram a construir uma carta, aprovada por todas as participantes. A presidente da ANPG, Flávia Calé, falou sobre a importância deste debate e os obstáculos que a entidade ainda terá que enfrentar este ano. “Teremos que enfrentar a discussão orçamentária de 2021, no qual o governo propõe mais um corte para ciência e tecnologia, o que impactaria diretamente na pós-graduação. Precisamos estar unidas para que isso não aconteça”, finalizou.

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