Por Gabrielle Paulanti*

Muitas são as nuances de grande complexidade na abordagem desse tema, principalmente porque as categorias e os discursos atuais estão em franca disputa ideológica. Confundem-se as questões de direito das cidadãs e cidadãos com as relativas à moral, estas quase sempre favorecendo e relativizando agressores e culpando vítimas. Falar sobre o tema e suscitar polêmicas é profícuo e ajuda a construir soluções coletivas, partindo do indicativo óbvio de que isso é um problema.

Entretanto, muitas vezes há o desejo de ignorar que as relações de poder, através de manipulação e coação, se instituem como opressão e assédio. É curioso que as recentes polêmicas de um professor famoso assediando mulheres estejam no auge ainda nos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. Discussões sobre feminismo, misoginia, radicalidade e legislação são fruto de vozes que reivindicaram avanços na organização social e prova de que devemos debater o assédio. Fica evidente que as formas de violência, físicas, simbólicas, materiais, emocionais, são cada vez mais complexas à luz e ao passo das novas formas de comunicação, organização e discurso.
Infelizmente, casos de assédio moral e sexual são comuns nas relações entre orientador e orientando, muito facilitado pela ausência de parâmetros regulamentares para essa parceria. Contudo, o consenso social e a naturalização desse tipo de prática é o que realmente dificulta o combate ao assédio e acaba definindo desfechos quase sempre desfavoráveis aos queixosos e queixosas.
Das senadoras às anônimas da internet, elas nos provam que as relações de gênero são questões intensamente importantes , porque não resolvidas. É necessário construir um amplo debate na sociedade e que sejam assegurados direitos e canais de expressão, que se destinem às vítimas e não a agressores. Evidentemente, pois, no caso do assédio, os agentes já estão em situação privilegiada e sobre esse privilégio se constrói a opressão. Questionar as estruturas, institucionais e de poder, não só é necessário como urgente para garantir não só igualdade de direitos como também avanços na emancipação humana.

*Gabrielle Paulanti é mestranda em Letras e diretora de Comunicação da Associação Nacional de Pós-Graduandos

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