O Brasil atravessa a mais prolongada crise de sua história, o que tem produzido custos econômicos e sociais terríveis. Desde 2015, o país acumula retração no PIB de cerca de 5%, o desemprego não cede e atinge mais de 13 milhões de pessoas, a participação da indústria de transformação no PIB – que já foi de 21,6% na década de 80 – hoje atinge índices que remontam a 1947, pouco acima de 11%.

Nesse cenário desolador, o agronegócio aparece como um dos poucos setores dinâmicos da produção nacional, sendo que em 2017 chegou a 23,5% na composição do PIB, aponta a CNA. Segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), o setor foi o segundo que mais gerou postos de trabalho no 1º semestre de 2019, com saldo de 75.380 vagas.

E não é de hoje que o campo traz boas notícias econômicas ao país. Entre 1975 e 2010, o índice de produtividade agrícola brasileiro cresceu 3,7 vezes, o dobro do verificado nos EUA, segundo o jornal Valor Econômico.

As estimativas para os próximos anos também são positivas. Os números do estudo “Projeções do Agronegócio Brasil 2018/19 a 2028/29”, elaborado pela Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, apontam para um salto das atuais 237 milhões de toneladas de grãos para 300 milhões, um incremento de 27% na produção. As mesmas expectativas se refletem na produção de carnes, que deve crescer de 26 para 33 milhões de toneladas ao ano.

Estudos de Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, publicados em 2017 pelo Ministério da Agricultura brasileiro, atestavam que o Brasil liderava o ranking dos países com alto índice de produtividade da agropecuária, com crescimento de 4,28% ao ano entre 2006 e 2010. Entre 1975 e 2015, a taxa média de crescimento da produtividade foi da ordem de 3,58%.

Na ocasião da divulgação desses dados, José Garcia Gasques, então coordenador-geral de Estudos e Análises da Secretaria de Política Agrícola do Ministério, afirmou que o incremento da produtividade, ligado ao uso de novas tecnologias, foi o principal responsável pelo salto do agronegócio nacional. “No Brasil, essa variável é responsável por cerca de 90% do crescimento da produção, enquanto 10% se deve aos insumos”, disse ao site do ministério.

Não é exagero afirmar que grande parte do sucesso do campo brasileiro tem relação ao uso intensivo de ciência e tecnologia voltada à agricultura, sendo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) o maior exemplo de excelência nessa área. O Balanço Social da empresa em 2018 estima que o setor agropecuário brasileiro tenha se valido “de 113 tecnologias e de cerca de 200 cultivares [espécies de plantas melhoradas pela ação do homem]” por ela desenvolvidos.

Criada em 26 de abril de 1973, a Embrapa voltou-se para enfrentar as questões próprias da agricultura em um país com as características do Brasil, buscando desenvolver tecnologias para superar os entraves da agropecuária no país. Desde então, suas técnicas possibilitaram que o cerrado brasileiro – área que foi se integrar efetivamente ao projeto de desenvolvimento nacional a partir dos anos 50 – se tornasse o maior celeiro de grãos do país; a produção de carne bovina e suína foi multiplicada por quatro e a de aves em 22 vezes.

No biênio 2008/2010 foi lançado o chamado “PAC Embrapa”, em referência ao Plano de Aceleração do Crescimento, então principal marca do governo federal, que buscou ampliar a atuação da empresa para diversos países, em especial da América Latina e África, em consonância com a política externa praticada no período. Além disso, aumentaram e diversificaram suas parcerias com a iniciativa privada. Nesse período, a empresa deu um salto orçamentário para superar 1,4 bilhão e reforçou seu quadro de pessoal, conforme revela o artigo “PAC da Embrapa”, publicado na Revista da Fapesp.

Atualmente, mesmo com retração orçamentária os aportes do governo para este ano são da ordem de 3,6 bilhões de reais. Críticos apontam que, embora os valores pareçam vultosos, cerca de 84% do montante é vinculado ao pagamento de pessoal, restando pouco para novos investimentos. A empresa rebate alegando que também possui fontes extras de suas parcerias nacionais e internacionais, além de defender o gasto com pessoal e custeio como sendo parte do investimento em pesquisa, uma vez que os profissionais, a manutenção e a compra de insumos são essenciais a ela.

Hoje, segundo a nota publicada em fevereiro de 2019, “nos quadros da Embrapa, o país conta com mais de 1.200 especialistas, 1.000 mestres, 2.100 doutores e 320 pós-doutores, trabalhando pelo fortalecimento e a expansão da produção agrícola”. A empresa também estima que, em números referentes a 2017, para cada real nela investido, R$11,06 retornaram à sociedade.

Como se vê, se hoje o Brasil é um grande exportador, se o agronegócio é fundamental para a balança comercial do país, muito se deve ao planejamento estratégico, conduzido pelo Estado nacional, que teve êxito em elevar a agropecuária a níveis de excelência internacional.

Isso só pode ser realizado com decisão política e investimento público em educação para formar profissionais de comprovada capacidade técnica, em geral nas universidades públicas, e investimentos continuados em ciência, tecnologia e inovação através da Embrapa.

Fernando Borgonovi

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