O professor e pesquisador Isaac Roitman, coordenador do Grupo de Trabalho de Educação, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), acredita que a ciência é o melhor caminho para se entender o mundo. Para ele, o conhecimento científico é o capital mais importante do mundo civilizado e investir nesse conhecimento irá contribuir para que os seus resultados estejam ao alcance de todos.

“É fundamental que o ensino de ciências seja feito de modo agradável e divertido”, defende Isaac Roitman, que já exerceu atividades como professor e gestor em diversas instituições de ensino e pesquisa. Graduado em odontologia e doutor em ciências (microbiologia), fez pós-doutoramento na Pace University, em Nova Iorque, nos Estados Unidos; Hebrew University, em Jerusalém, Israel; University of Kent at Canterbury, em Canterbury, no Reino Unido; e na University of Sussex, em Brighton, também no Reino Unido.

Membro Titular da Academia Brasileira de Ciência, foi diretor de Avaliação da Capes/MEC; assessor da Presidência do CNPq e presidente da Comissão Nacional de Avaliação de Iniciação Científica (Conaic/CNPq). Também foi diretor do Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense; reitor, pró-reitor acadêmico e diretor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade de Mogi das Cruzes; e professor titular e decano de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade de Brasília, entre outras funções. Exerce, atualmente, a função de coordenador de Comunicação Institucional da UnB.

Jornal do Professor – Qual é a importância da ciência e tecnologia na escola?

Isaac Roitman – A educação científica em conjunto com a alfabetização das letras e dos números são os três pilares de uma educação de qualidade. A ciência é o melhor caminho para se entender o mundo. O conhecimento científico é o capital mais importante do mundo civilizado. A educação científica desenvolve habilidades, define conceitos e conhecimentos, estimulando a criança a observar, questionar, investigar e entender de maneira lógica os seres vivos, o meio em que vivem e os eventos do dia a dia. Além disso, estimula a curiosidade e imaginação e o entendimento do processo de construção do conhecimento. Investir no conhecimento científico contribuirá para que os seus resultados estejam ao alcance de todos. É fundamental para que a sociedade possa compreender a importância da ciência no cotidiano. Ela também representa o primeiro degrau da formação de recursos humanos para as atividades de pesquisa científica e tecnológica. É preciso considerar que o analfabetismo científico aumentará as desigualdades, marginalizando do mercado de trabalho as maiorias que hoje já são excluídas.

JP – Como despertar o interesse das crianças e jovens pela ciência e tecnologia?

IR – No Brasil, com mais de 60 milhões de estudantes, ainda falta muito que fazer para que a educação científica tenha seu merecido destaque no currículo escolar. O desafio é criar um sistema educacional que explore a curiosidade das crianças e mantenha a sua motivação para aprender através da vida. As escolas precisam se constituir em ambientes estimulantes. Experiências recentes têm estimulado o interesse das crianças e jovens pela ciência e tecnologia. Um deles é o Projeto Mão na Massa, introduzido no Brasil pela Academia Brasileira de Ciências. Esse projeto faz uso de atividades experimentais, estimulando o desenvolvimento da linguagem oral e escrita e investindo na formação de docentes. Outra experiência de sucesso está sendo conduzida em Natal, Macaíba (RN) e Serrinha (BA). As crianças frequentam uma escola de ciências nos horários opostos ao horário escolar formal. Os ambientes de aprendizagem (laboratórios, oficinas, etc.) são desenhados e equipados especialmente para despertar o interesse pela ciência nos estudantes do ensino fundamenal.

JP – Qual a melhor forma para os estudantes aprenderem conteúdos de Ciência e Tecnologia?

IR – A célebre frase de Paulo Freire: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra” aponta a importância da educação científica para as crianças que, de posse de um conjunto de conhecimentos, facilitam a realização da leitura do mundo onde vivem. A visão do mundo é construída a partir da infância, na família, e tem o seu ponto de inflexão na escola. Já há cerca de 800 anos Roger Bacon em seu Opus Maius – tratado sobre ciências –, dizia: “Sem um experimento nada pode ser conhecido adequadamente. Um argumento prova sob o ponto de vista teórico, mas não leva a necessária certeza para remover todas às dúvidas”. Diante das novas necessidades da educação em ciências no século XXI, a escola deve ser percebida como tendo um potencial riquíssimo de encontro humano, desperdiçado pela repetição secular de uma pedagogia tradicional. Através de uma nova educação científica no ensino fundamental poderemos mudar esse nível de ensino, preparando jovens que não vão aceitar um ensino médio ou superior de baixa qualidade. Nessa nova pedagogia, a experimentação deverá ser o principal instrumento de estímulo e da aprendizagem da ciência. Os recursos modernos de comunicação através de mídias digitais – vídeos, interação via TV digital e internet, etc – deverão ter um papel importante no ensino de ciências para nossos jovens.

JP – Qual a contribuição da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia na difusão e popularização da ciência no Brasil?

IR – A institucionalização da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) pode ser considerada como uma das mais importantes iniciativas desta década para a difusão e popularização da ciência no Brasil. A cada ano, essa semana consegue a adesão de um número maior de entidades. O balanço da edição de 2009 relata 24.972 atividades, desenvolvidas por 718 instituições em 472 municípios. Durante essa semana, as instituições de ensino e os institutos de pesquisas abrem as suas portas a toda a população, quebrando os muros de isolamento entre a ciência e a sociedade. A SNCT certamente estimulará atividades de divulgação científica durante todo o ano.

JP – De que forma a Academia pode contribuir para a disseminação de conhecimentos científicos entre professores do ensino básico e a população em geral?

IR – A comunidade acadêmica sempre reconheceu a importância da educação científica e muito tem feito para colaborar, no sentido de que sejam ampliadas as oportunidades para a formação e treinamento nessa área. Um exemplo que se destaca são as reuniões anuais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que introduziu há vários anos a SBPC Jovem com ampla participação de estudantes e professores do ensino básico. Outras sociedades como a Sociedade Brasileira de Física, a Sociedade Brasileira de Química e a Sociedade Brasileira de Genética introduziram atividades relacionadas ao ensino de ciências. Em adição, a Associação Brasileira para Pesquisa em Ensino de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Ensino da Biologia reúnem centenas de professores do ensino fundamental, médio e superior para discutir problemas, apresentar trabalhos e atualizar informações.

A preocupação de formação de recursos humanos em nível de pós-graduação para o ensino de ciências e matemática mostra o comprometimento da comunidade acadêmica com o ensino de ciências e matemática. Atualmente existem 58 cursos de pós-graduação de ensino de ciências e matemática com a seguinte distribuição: 26 mestrados profissionais, 23 mestrados acadêmicos e nove doutorados. A Academia tem participado ativamente de uma série de atividades importantes no ensino e na difusão da ciência e tecnologia, tais como: clubes de ciência, feiras de ciências, olimpíadas, museus e outros espaços de aprendizagem.

JP – É importante que os professores participem de cursos ou oficinas para reciclagem de conhecimentos ou aprendizado de novas técnicas para o ensino de disciplinas das áreas de ciência e tecnologia?

IR – Infelizmente, os professores de ensino básico durante a sua formação não tiveram a oportunidade de ter um preparo adequado para o ensino de ciências. É importante que, na formação dos futuros professores, os mesmos tenham um preparo tanto sob a dimensão de conteúdo como de pedagogia e metodologia contemporâneas. É fundamental que os professores que já estão atuando no ensino básico tenham a oportunidade de incorporar as informações do desenvolvimento científico e tecnológico e tenham treinamento, principalmente no que se refere às atividades de experimentação. É importante, também, estimular e proporcionar condições para que os professores participem de congressos e eventos relacionados com a ciência e tecnologia.

JP – É possível ensinar ciências de modo fácil e divertido? Que conselhos o senhor daria aos professores?

IR – É fundamental que o ensino de ciências seja feito de modo agradável e divertido. Os professores deveriam ter em mente que o ensino de ciências deva ser prazeroso. Há alguns meses o Presidente Lula visitou a escola de ciências de Natal, mencionada anteriormente. Nessa ocasião, perguntou a uma estudante de dez anos o seguinte: “Você gosta dessa escola de ciências?”. A aluna respondeu: “Isso não é escola de ciências, isso é um parque de diversões”. A resposta é auto-explicativa.

JP – O senhor poderia destacar experiências do passado que são importantes na educação científica do Brasil?

IR – Há 60 anos, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) implantou o Programa de Iniciação Científica, que permitia ao estudante universitário de graduação a vivência em um ambiente científico. Hoje esse programa tem a participação de cerca de 80 mil estudantes universitários em todo o Brasil, sendo que aproximadamente 40 mil são contemplados com bolsas. Em 2003 o CNPq lançou o Programa de Iniciação Científica Junior, nos moldes do programa já existente, que permite o treinamento científico de estudantes do ensino médio e profissional. Esse programa tem atualmente oito mil bolsistas. Recentemente, o CNPq lançou o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBIT), que conta atualmente com três mil bolsas.

Outra experiência que merece destaque é a da implantação de um projeto voltado ao ensino de ciências, pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento de Ensino de Ciência (Funbec). Além da produção de material didático para o ensino da ciência, a Funbec produzia também equipamentos médico-eletrônicos. O lucro da venda desses equipamentos era revertido para a produção de material para o ensino da ciência. Essa iniciativa floresceu na década de 70, com a introdução de laboratórios portáteis de física, química e biologia, e da coleção Cientistas com parceria da editora Abril, que consistia de 50 kits contendo a biografia do cientista, um manual de instrução e material para a realização de experimentos. Nos anos em que o projeto sobreviveu foram vendidos cerca de três milhões de kits. A partir de 1980 as atividades foram gradativamente reduzidas. O último suspiro do empreendimento foi à criação da Revista de Ensino de Ciências, hoje extinta. Recentemente, uma iniciativa tenta reabilitar o projeto que teria um novo nome: Aventuras na Ciência.

Outra iniciativa que foi implantada há mais de 20 anos e continua até o presente é o Programa de Vocações Científicas (Provoc) do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) que tem estimulado vocações na área biomédica, em centenas de jovens.

 

Fonte: Portal do Professor

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