A Associação Nacional de Pós-Graduandos vem por meio desta repudiar as declarações de Carlos Bolsonaro sobre pesquisa realizada por um estudante de pós-graduação da FURG e prestar sua solidariedade a este estudante.
Desde o dia 9 de fevereiro, o pós-graduando Diego Miranda Nunes – vinculado ao mestrado do Programa de Pós-Graduação em Geografia da FURG – tem sido alvo de perseguição e assédio moral pelas redes sociais em decorrência de uma manifestação do vereador Carlos Bolsonaro (PSL – Rio de Janeiro). Em seu twitter, Carlos publicou:
Meu Deus! Isso é uma *dissertação de mestrado! Este senhor recebeu dos cofres públicos, nos últimos 2 anos, uma bolsa de R$1.500, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Nota-se porque o Brasil está no nível de educação que está. Tire suas conclusões!
A razão para tal perseguição é a temática da pesquisa, a qual situa-se no campo dos estudos de gênero e sexualidades.  Nos últimos anos, têm sido crescentes as tentativas de criminalização e constrangimento de pós-graduandos, professores e pesquisadores que realizam seus trabalhos sob uma perspectiva crítica ao pensamento hegemônico/tradicional da sociedade.
Entendemos que a Universidade é um espaço democrático e aberto à pluralidade de ideias e que seus membros devem possuem total liberdade para exercer o ato de realizar pesquisa. A cerca dos estudos de gênero e sexualidades, há uma vasta produção científica que demonstra a importância das pesquisas na área, sobretudo devido às violências cotidianas sofridas pela população de Lésbicas Gays Bissexuais e Travesti e Trans.
Não suficiente, Carlos Bolsonaro e os demais seguidores que têm perseguido Diego estão, ao mesmo tempo, questionando os critérios de avaliação das/dos professores da FURG. Nesse aspecto, ressaltamos que as dissertações e teses são analisadas a partir de métodos científicos de análise, reconhecidos internacionalmente no universo acadêmico e avaliada pelos seus pares com membros internos e externos à Instituição do estudante, exatamente como esclarecido pela professora Susana Maria Veleda da Silva*, orientadora de Diego, em nota veiculada pela instituição.
Ademais, repudiamos também a tentativa sorrateira do vereador carioca em questionar os critérios de concessão de bolsas da CAPES por meio do tema de pesquisa. Nesse momento, o que há de se questionar não são temas de pesquisa, cerceando a liberdade de didático-cientifica proclamada em nossa Carta Magna, mas, sim, os valores das bolsas de estudo que os pós-graduandos recebem e que não são reajustadas há seis anos, tornando-se absolutamente insuficientes para cobrir as necessidades básicas de cada estudante nesse país. Há de se destacar que a pós-graduação brasileira é responsável diretamente por quase 90% da ciência produzida no país. Somos o pilar fundamental desse setor estratégico ao desenvolvimento Nacional.
A Educação no país tem passado por sucessivos cortes e contingenciamento em seu orçamento, atingindo em cheio as Universidades públicas. Diversos Estados brasileiros passam por períodos graves de sucateamento das escolas da rede pública, como o Rio Grande Sul, com parcelamento de salário dos professores e fechamento de dezenas de unidades. Portanto, evidentemente, há inúmeros problemas na educação pública brasileira, mas por certo não têm relação com a temática pesquisada pelos pesquisadores brasileiros.
Além disso, em tempo no qual notícias falsas de WhatsApp chegam com maior facilidade à população do que trabalhos científicos, os quais são produzidos com rigor metodológico, cautela da pesquisa, submetidos à revisão por pares e avaliados pelo debate razoável, os pesquisadores estão sendo criminalizados pelo seu fazer científico, tão necessário ao desenvolvimento social. É preciso reconhecer que existem campos de conhecimento que estão sob ataque, no intento de enfrentar o dito “Marxismo Cultural”, dentre eles os estudos sobre gênero e diversidade, os quais devem ser compreendidos como campos de investigação sobre a vida em sociedade e, também, desfrutar do livre pensar para seu desenvolvimento. A fala do vereador do PSL-RJ, se aliadas às notícias de possíveis mudanças nos critérios de concessão e cortes de bolsas, mostram claramente a tentativa de perseguição e intimidação à comunidade dos espaços de produção de conhecimento em universidades e institutos de pesquisa. Outrossim, devem ser compreendidas não apenas como tentativa de inibição da autonomia universitária e de cátedra, mas também como intenção de renascer as ideias obscurantistas a respeito das relações humanas de convívio social e para com a natureza.
A ANPG coloca-se ao lado de todos os estudantes de pós-graduação que, como Diego, tem sido alvo de perseguição pela realização das suas pesquisas. Não daremos nenhum passo atrás na defesa das Universidades públicas e demais instituições de financiamento público de pesquisa, e lutaremos diariamente pela sua ampliação e popularização!
 
Associação Nacional de Pós-Graduandos
São Paulo, 12 de fevereiro de 2019.
Leia na íntegra a nota de esclarecimento: https://www.furg.br/reitoria/informes-da-reitoria/nota-de-esclarecimento

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