Vivemos recentemente um momento ímpar em nosso país, no qual a população saiu às ruas para reivindicar seus direitos e questionar modelos e espaços de decisão política instituídos. Dentre as muitas pautas apresentadas, podemos destacar a saúde como uma das questões centrais no bojo da reivindicação dos cidadãos brasileiros. No grito, o pedido de ampliação do acesso, mais estrutura, mais profissionais, um atendimento digno. A solução para estas ausências sentidas cotidianamente não reside em medidas simples, mas em ações radicais que sejam capazes de transformar nossa forma de conceber, organizar e produzir saúde.

A institucionalização do Sistema Único de Saúde certamente significou uma mudança na concepção ao introduzir os princípios doutrinários como norteadores do cuidado e procurou a partir dos princípios organizativos e seus desdobramentos influenciar a organização e produção do mesmo. Contudo, apesar desta importante guinada precisamos ter em perspectiva que uma cultura assentada num olhar completamente distinto se fazia presente e ainda se faz, de modo que muitas questões ainda não foram enfrentadas de forma forte, a exemplo, o financiamento e a formação de pessoas, fazendo com que cotidianamente precisemos reafirmar nossa crença e luta em defesa deste novo modelo, a partir das mais diversas trincheiras do movimento social.

É por este entendimento que a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) assume o debate da formação em saúde e marca sua entrada com a realização do I Seminário de Formação de Pós-Graduação em Saúde. Somos uma entidade plural, que representa pós-graduandos de diversas áreas, todavia, dentre as pautas específicas que por vezes encampamos, podemos dizer que somos familiarizados a saúde há certo tempo, uma vez que, possuímos assento no Conselho Nacional de Saúde e este espaço de construção sempre nos manteve conectados às demais entidades representativas dos usuários e profissionais e às questões efervescentes da política. Esta aproximação nos faz levantar junto com outras entidades bandeiras fundamentais para a qualidade da saúde no Brasil, especialmente as de financiamento, expressa em movimentos como o Saúde+10 e em debates como o da taxação de grandes fortunas e a da desoneração do imposto de renda para serviços de saúde.

No último período para além do engajamento da ANPG na agenda geral do movimento de saúde, temos buscado a partir do nosso segmento de representação e atuação – os pós-graduandos e o ensino superior – levantar questões que ao mesmo tempo em que possam criar em nossa entidade uma referência, possibilitem aderência e aprofundamento de nossa base de representação através do comprometimento e participação junto a uma questão que nos seja identitária e relevante. Considerando isto, destacamos o debate da formação, especialmente a formação de pós-graduação em saúde.

Avaliamos que apesar dos esforços realizados com relação à reorientação da formação e dos significativos recursos e políticas destinadas a esta agenda, atinge-se em parte a formação inicial (graduação) e a formação dos trabalhadores do SUS. Neste debate geralmente a formação de pós-graduação possui papel coadjuvante. É importante destacar também que os debates são realizados de forma dissociada e que hierarquiza as modalidades, elemento que contribui para uma desarticulação do ensino e ações políticas relacionadas.

Este seminário mostrou-nos que há um grande potencial latente não apenas no segmento dos pós-graduandos, que podem vir a contribuir conjuntamente com outros atores sociais para que a formação de pós-graduação também se conecte e se responsabilize de forma importante com a consolidação do SUS. Somando-nos a professores, gestores e estudantes de graduação o seminário se constituiu de nosso primeiro esforço de reunir essa força social para o debate em torno de alguns eixos, operacionalizados nas mesas de formação stricto sensu, formação lato sensu e as residências médicas e em saúde, a formação docente, a educação permanente e o financiamento, todas com grandes contribuições.

Foi uma grande e grata experiência a realização deste seminário, que reforça o acerto da ANPG em levantar esta pauta através de um espaço de articulação próprio, o Fórum Nacional de Pós-Graduandos em Saúde. Esperamos a partir desta iniciativa, consolidar um novo espaço de debates em nossa entidade, assim como contribuir para a construção de propostas para a resolução de lacunas no que tange as potenciais contribuições da pós-graduação e dos pós-graduandos para a consolidação do SUS. Novos desafios se descortinam para nossa entidade.

Associação Nacional de Pós-Graduandos/ Fórum Nacional de Pós-Graduandos em Saúde.

Recife, 24 de julho de 2013.

 
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