Káthia Maria Honório, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH|USP) foi a laureada na área de Ciências Químicas na edição 2010 do Prêmio L’Oréal/UNESCO “Para Mulheres da Ciência”.

O projeto proposto pela pesquisadora envolve o uso de ferramentas de quimioinformática para o planejamento de novas substâncias bioativas com potenciais aplicações para o tratamento de fibrose, aterosclerose e câncer.

Os vencedores recebem uma Bolsa-Auxílio (Grant) no valor de US$20 mil.

O programa “Para Mulheres na Ciência” foi criado pela L’Oréal Brasil em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Comissão Nacional da UNESCO (IBECC), tendo como principal objetivo ceder espaço e apoio à participação das mulheres brasileiras no cenário científico do país.

Lançado em 1998, o prêmio é considerado o primeiro dedicado às cientistas mulheres em todo o mundo. A primeira edição do prêmio no Brasil aconteceu em 2006 e já beneficiou várias jovens cientistas brasileiras.

O programa seleciona até sete pesquisadoras por ano, sendo quatro bolsas para as áreas das Ciências Biomédicas, Biológicas e da Saúde, uma para as Ciências Químicas, uma para a área de Ciências Físicas e uma para as Ciências Matemáticas.

A cerimônia de entrega do prêmio será realizada no hotel Copacabana Palace, na cidade do Rio de Janeiro, em 23 de setembro de 2010.

Leia entrevista com a docente concedida para o sítio da EACH|USP:

Como foi a inscrição para o prêmio? Você já tinha tentado outras vezes?




Káthia Maria Honório, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH|USP) foi a laureada na área de Ciências Químicas na edição 2010 do Prêmio L’Oréal/UNESCO “Para Mulheres da Ciência”. Foto: EACH USP

Eu já tinha tentado há dois anos trás e não tinha sido contemplada.
Neste ano, quando abriram as inscrições, só no último dia, na correria em que vivemos, pensei: "É hoje, eu tenho que mandar". Aí fiz o projeto, que foi até uma aluna de iniciação aqui da EACH que deu início.

Então enviei o projeto, o currículo lattes e uma carta de aceitação da instituição (EACH|USP) dizendo que apoiaria o projeto de pesquisa.
Pedi para o professor Boueri e ele assinou.

Como surgiu a ideia para a pesquisa?

Quando essa aluna de iniciação (científica) me procurou, eu comecei a pensar em algum tema para o projeto e encontrei artigos na literatura que descreviam as aplicações do TGF-beta. Como sou da área de química medicinal, sempre tenho o interesse em pesquisar alguma doença e atrelar a química e as ferramentas computacionais para estudar potencias fármacos para essa doença.

O TGF beta é uma citocina, ou seja, uma molécula sinalizadora. O próprio organismo produz e ela se encaixa em um receptor do nosso organismo e, à medida que a molécula se encaixa, dispara vários alarmes para aquela célula.

Em células normais, quando o nosso organismo produz essa substância e ela se liga no receptor e é como fornecesse uma mensagem do tipo "se reproduza agora".Se isso ocorrer em determinada etapa da nossa vida, por exemplo na fase embrionária, isso é muito importante.

Em células normais, isso é um processo extremamente natural, mas em células tumorais essa substância (TGF-beta) vai atuar como um vilão, porque ela vai potencializar a divisão de células anormais. O que acontece: essa produção vai desencadear vários processos biológicos e fisiológicos que, ao invés de ajudar, vão ocasionar metástase e vários outros processos. O que meu projeto propõe é tentar inibir essa sinalização planejando novas substâncias.

Em caso de câncer, arteriosclerose e outras doenças, esse alvo biológico é importantíssimo. Se encontrarmos substâncias químicas que inibam esse processo, essas substâncias poderão ser candidatas a novos medicamentos.

O que é o meu trabalho de pesquisa, então? É planejar substâncias que se liguem em uma determinada região do receptor para inibir esse processo.

Como é ser um cientista mulher? Existem desafios especiais por conta disso?

Com certeza. Quando eu recebi esse prêmio, fiquei muito orgulhosa porque é uma iniciativa louvável da L´oréal, da Academia Brasileira de Ciências e da UNESCO por ressaltar essa área feminina da ciência.

Temos visto uma evolução muito grande da participação feminina na Ciência.
Hoje em dia, se você for contabilizar, muitas mulheres fazem doutorado, mestrado (pós-graduação).

Só que em algumas áreas, isso ainda é um pouco deficiente, por exemplo, somente 25% das bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq está nas mãos de mulheres. A gente ainda tem que vencer muitos desafios.

E é complicado porque a mulher tem tripla jornada; temos que trabalhar com esse desafio gigantesco, arranjar tempo pra tudo.

Antigamente tinha aquele estereótipo que mulher cientista era desleixada. Hoje me dia não, vemos muitas cientistas de renome que fazem pesquisa de alto nível ainda se cuidam.

Eu acho que essas mulheres servem como grande exemplo para as novas gerações. Aliás, o intuito desse programa é incentivar a participação feminina na ciência. Eu sempre falo que eu amo o que eu faço e eu adoro ser cientista.

Como foi sua trajetória acadêmica e profissional?

Fiz minha graduação em São Carlos, na USP, começando em 1994. Fiz os quatro anos de graduação em Química e depois fiz o mestrado e doutorado lá também, na área de química teórica, com o prof. Alberico, que hoje é diretor do IQSC-USP.

Depois que eu terminei o meu doutorado, fui fazer pós-doutorado também em São Carlos, só que no Instituto de Física (IFSC-USP).

Em Junho de 2006 vim para a EACH. Desde então tento ajudar na parte de administração (comissões), ministro aulas no curso de LCN, faço minhas pesquisas e já participei de vários projetos de extensão. Já contribui também em disciplinas do Ciclo Básico e atualmente ministro as disciplinas de química do curso.

Na área de pesquisa, coordeno um projeto da FAPESP e um projeto do CNPq; tenho outros projetos em colaboração com o pessoal de outras universidades e unidades da USP. Tenho vários alunos de iniciação aqui da EACH, alguns trabalham comigo na área de química medicinal e outros com temas relacionados com ensino de química.

Tenho uma aluna de iniciação que tem bolsa da FAPESP, Tabata Suller, e recentemente um artigo científico do trabalho dessa aluna foi aceito para publicação. Tenho dois alunos de doutorado , a Daniele e o Vinícius.
Sou bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.

Como você percebeu que gostaria de ser uma pesquisadora, que gostaria de se dedicar à área de pesquisa?

Então, isso foi uma coisa difícil porque na graduação eu queria ir para a indústria, a minha ideia era ir trabalhar em indústria de tintas. Durante a graduação em São Carlos eu podia optar, no último ano, por química fundamental ou química tecnológica. Aí eu pensei: "não, vou fazer tecnológica". Para fazer tecnológica, era necessário fazer estágio e consegui estagiar em uma usina de açúcar e álcool da região.

Quando terminei a graduação, fiquei em um impasse: "faço mestrado ou vou para a indústria". Fui procurar algumas coisas, alguns professores para trabalhar na indústria. Nada dava certo, então pensei: "Quer saber? Vou fazer o mestrado e vamos ver se depois vou para a indústria".

Fui cada vez mais gostando da área acadêmica e me encontrei. O grupo no qual eu trabalhei era um grupo muito bom; meu orientador dava abertura para trabalharmos além dos nossos projetos, ajudando outras pessoas, como alunos de iniciação e outros alunos de pós-graduação.

Isso foi muito gratificante e cresci muito como pesquisadora. Posso dizer que o currículo que tenho hoje é fruto de todo trabalho, esforço e dedicação. Nessa fase, pude ampliar meus horizontes dentro da pesquisa.

Eu não tinha muita experiência como docente ainda. Na pós-graduação, no mestrado e no doutorado, você fica muito concentrado em pesquisa.
Mesmo assim, junto com mais alguns colegas do próprio grupo, criamos cursos de extensão. O nosso orientador era o responsável. Então eu tive contato um pouco com a área de docência.
Aqui na EACH cultivei esse outro lado e vi que era isso mesmo: queria a pesquisa e a docência.

Se você tivesse que dar um conselho para uma jovem pesquisadora, alguém que sonha em produzir conhecimento, qual seria?

Eu acho que tem que ter determinação, foco e dedicação. Sempre querer melhorar. Eu me lembro que no começo do mestrado, meu orientador me pediu para escrever um artigo em inglês. Tinha acabado de sair da graduação, sabia escrever pouco em inglês, somente lia artigos e livros. Ai é óbvio que bate aquele medo, aquele frio na barriga, mas eu pensei: "vou enfrentar esse desafio". A minha filosofia é essa.

Quando me dá algum medo eu penso: "agora é que eu vou". Comecei a escrever o artigo em inglês, aos trancos e barrancos; fui atrás de cursos para poder suprir essa deficiência.

Na minha opinião, essa nova geração tem que ser persistente e sempre querer melhorar. Falo sempre que quando estamos na universidade, temos que aproveitar tudo e mais um pouco, todas as oportunidades que a universidade nos dá.

 

Fonte: Universidade de São Paulo

 

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