Para traçar a imagem do país construída pela música, o sociólogo Daniel Martins, da UFMG, selecionou 165 composições dentre as cerca de cinco mil músicas mais tocadas lançadas no período escolhido. Na triagem, foram descartadas as músicas cantadas por artistas brasileiros em idioma que não fosse o português, as composições estrangeiras e as que versavam sobre o amor romântico, devido à vastidão de composições que se dedicam a esse assunto.

As canções restantes se dividiam em nove temáticas. O pesquisador então escolheu para a análise os temas mais recorrentes: religiosidade, política, gênero e sexualidade, questões étnico-raciais e assuntos urbanos. Apesar de ter descartado alguns temas, como mobilidade social e meio ambiente, o sociólogo ressalta a importância de todos os assuntos abordados nas composições para se compreender o Brasil.

A análise mostra que algumas questões figuram há décadas na música brasileira, como a vida nas favelas e o preconceito religioso, de gênero e racial. “Isso acontece porque esses são problemas que ainda hoje não têm solução”, justifica Martins.

Caixa de surpresas

O estudo também revela mudanças inesperadas de comportamento. Um exemplo é que o número de canções que falam da emancipação feminina de forma positiva cresceu, embora o Brasil seja considerado um país machista. Segundo o sociólogo, no início as músicas eram extremamente machistas. “Com o passar do tempo, a construção da imagem de uma mulher mais forte se torna constante e positiva e se iguala à imagem masculina”, diz Martins. “Foi a única temática com avanços significativos”, completa.

Outra conclusão surpreendente da análise diz respeito à representatividade das diferentes religiões nas músicas. Apesar da estimativa de que 89% da população brasileira sejam cristãos – entre católicos e evangélicos –, o cristianismo não tem tanto destaque.

Segundo Martins, as crenças afro-brasileiras são mais citadas, principalmente pelos artistas da MPB e do samba, gêneros que estão entre os mais difundidos pelas rádios. Mas ele frisa que umbanda, candomblé e outras religiões de matriz africana são mais bem aceitas na música do que no cotidiano. Já os cantores católicos e evangélicos ficam restritos a alguns nichos, o que dificulta o aparecimento de suas canções entre as mais tocadas no país.

O pesquisador ressalta que seu trabalho mostra a validade da música como objeto de estudo sociológico, embora este seja um caminho não convencional no meio acadêmico. Frente à escassez da literatura sobre sociologia musical no Brasil, Martins buscou na antropologia, na comunicação e na história as bases teóricas para sua pesquisa. “A música se mostrou um instrumento rico e pouco explorado que nos permite interpretar pedaços da nossa brasilidade”, avalia. E completa: “Quando você lê nas entrelinhas, você vê um Brasil profundo.” 

Raquel Oliveira
Ciência Hoje On-line

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