*Por Iberê Marti

O Guarani Kaiowá, Semião Vilhalva, 24 anos, foi alvejado com tiro na cabeça, de maneira covarde, enquanto bebia água em um córrego, no tekohaÑanderuMarangatu, em Mato Grosso do Sul, no dia 29 de Agosto de 2015. Semião deixa mulher e filho. Entretanto,Semião não representa um caso esporádico, isolado, uma exceção. Ao contrário, é a regra. De acordo com a CPT (Comissão Pastoral da Terra), somente no ano de 2014, foi registrada 36 mortes de ativistas, em causas da terra ou do meio ambiente. Em tempos de instabilidade política, a tensão aumenta. Em 2015, Semião jáé a 26ª vítimaa compor a estatística,do autoritarismo e da violência dos “coronéis” do País. Até quando?

A construção do Estado brasileiro foisangrenta, 50 % dos negros morreram nos porões dos navios negreiros durante a travessia, e aproximadamente,90 % dos indígenas foram exterminados durante os últimos 500 anos. Na história recente, os indígenas foram os maiores vítimas da ditaduracivilmilitar, no “integrar para não entregar”. De acordo com dados da Comissão da Verdade, foram assassinados mais de 8 mil índios durante o período.

A morte no campo é uma constante, é a regra no Brasil. Durante o período de 1985 à 2011, de acordo com a CPT, foram registrados 1580 assassinatos na luta pela terra no Brasil. Destes, menos de 10 % de casos foi julgado, e apenas 6 % (94 casos) com condenação. É a certeza da impunidade que fomenta e alimenta a violência.

Semião, antes de ser covardemente assassinado, bebia água. Os fazendeiros (“coronéis”), após reunião no Sindicato, avisaram que iriam até o local para tomar a terra na “marra”. Este fato foi relatado pela própria polícia local. Que fica a pergunta, sabendo as autoridades competentes da intenção dos assassinos e do porte de armas (legal?), porque não tomaram providências? É a justiça, seguirá este caso a maioria e sequer será julgado? Ou o axioma continuará por estas terras, sendo o “progresso” sinônimo de morte e a “ordem” certeza de impunidade e injustiça – aos mais fracos!

Na organização do País, em um passado recente, o coronel dono da “Casa Grande”,mantinha a seu poder, olhos, boca e carne, referendando seus atos, a presença de um delegado e de um padre. No comercio de escravos, do século XVIII e XIX, os bancos financiavam as viagens; o estado regulamentava, distribuía e garantia segurança nas rotas; e o negro não tinha alma. Em Mato Grosso do Sul, há pouco tempo, acusavam o “urucum” (corante e condimento) de ser “bosta do capeta”, “coisa de índio”. (Será que o chocolate, feito de cacau, também é?).

A certeza de impunidade, aos “novos coronéis”, que é responsável pela liderança brasileira, no feio ranking de homicídios de ativistas. Que é amordaçada e escondida pela grande mídia, que negligencia tais fatos, e no máximo coloca em notas de rodapé, vida humana em condição de número. “Morreu mais um índio de morte morrida ou talvez matada”.

Como nós podemos repousartranquilos, em nossos travesseiros,conscientes da barbárie, do medo, da força bruta e da violência e da violação dos direitos e dignidade humana por qual passam, dia a dia, os povos de nossas terra – indígenas, quilombolas, camponeses? É preciso superar essas amarras e estruturas que garantem a conivência, a esta que não é uma guerra. Pois em uma guerra, esperasse que os dois lados tenham forças equivalentes. Aqui estamos convivendo é com o genocídio, morticínio. Onde a pólvora e a bala fingem duelar com o arco e a flecha. O estado democrático de direito não pode permitir que as coisas se resolvam na “lei da bala”, na lei do mais forte. Será Natimorto também o filho do neto de Semião?

Esperamos que o Estado brasileiro, o poder executivo, através do Ministério da Justiça, o Exército Brasileiro, a Polícia Federal continuem a atuar e garantir a segurança no local, para que não tenhamos que carregar a vergonha de enterrar outros. Mas que em especial, o Poder Judiciário, atue no sentido de julgar os crimes contra os direitos humanos e os assassinatos de ativistas no Brasil. (É a certeza da impunidade o principal agente dessas “assassinaturas”). Para que no futuro, tenhamos um País que se possa horar de civilizado, que permita aos seus filhos viver com dignidade, com respeito a vida, com direito a terra, trabalho e ao pão e em paz.

Neste contexto, a Ciência Brasileira –alunos de pós-graduação, graduação, professores, técnicos, pesquisadores, etc.-, tem que assumir seu papel de vanguarda, se posicionar, e não silenciar a conivência de assistir tais absurdos quieta. É preciso exigir o mínimo, para o momento, do Estado.

E o mínimo é dizer, em alto e bom som, para que todo coronel ouça, de sua respectiva “Casa Grande”:

– Perdão, Semião!

*Iberê Martí, Engenheiro Florestal, doutorando na UFLA, e diretor de Instituições Públicas na ANPG

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