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A pós-graduação é um período intenso para os estudantes. São anos de dedicação a uma pesquisa, com rigorosa análise e concorrência acadêmica acirrada. A pressão dentro da Universidade, de algumas famílias e até do mercado de trabalho levam alguns pós-graduandos a viverem verdadeiras situações-limite. Não é a toa que distúrbios como depressão e ansiedade estão cada vez mais recorrentes na pós-graduação e chamam a atenção de pesquisadores e de Universidades do mundo inteiro para o tema.
Em abril deste ano, a Revista Nature publicou um estudo no qual aponta que estudantes de pós-graduação têm seis vezes mais chance de enfrentar depressão e ansiedade (leia aqui). Ainda de acordo com a pesquisa apresentada na publicação, em que foram entrevistados mais de 2.200 estudantes de 26 países, sendo 90% deles alunos de doutorado, e o restante de mestrado, mostra que 41% e 39% dos entrevistados apresentaram sinais de ansiedade e depressão, respectivamente, de nível moderado ou grave. Na população em geral, em média, esses índices são ambos de 6%.
Além desta pesquisa, a Revista da Fapesp de dezembro de 2017 trouxe um estudo publicado em 2001 na Educational Psychology, do Reino Unido, que verificou que 53% dos pesquisadores das universidades britânicas sofriam de algum distúrbio mental, enquanto na Austrália a taxa foi considerada até quatro vezes maior no meio acadêmico em comparação com a população de modo geral.
Para a Diretora de Saúde da ANPG, Yasmin Melo, é possível reconhecer a depressão além das pesquisas. “Na nossa própria vivência com os amigos e amigas durante a pós-graduação, podemos observar um grande número de estudantes com transtornos de ansiedade e depressão. Acredito que os principais fatores disso acontecer são a grande exigência, além da conta do aluno, durante o processo de aprendizagem, os prazos curtíssimos para entrega de produções, a máquina de publicar artigos em revistas com os melhores qualis possíveis, o descaso dos orientadores com seus discentes… enfim, uma rotina absurdamente intensa”, explica.
Melo também reforça que a competição predatória em que as instituições e orientadores colocam os alunos é um fator ainda mais agravante. “Estamos o tempo inteiro em competição por bolsas de estudos, vagas de estágio, participação em grupos de pesquisa e intercâmbio, por exemplo”.
O papel do orientador

Todo pós-graduando tem um orientador, um professor que irá ajudá-lo na conclusão de curso, dissertação ou tese e que representa uma figura central na vida do estudante. Por isso, ele pode desempenhar um papel fundamental na hora de reconhecer algum problema nos distúrbios de seu aluno e ajudá-lo.
De acordo com Eduardo Benedicto, coordenador do Centro de Orientação Psicológica da USP de Ribeirão Preto, em entrevista para a Folha de São Paulo, é preciso levar em conta as especificidades de cada caso. “Não se trata de transformar a figura do orientador em um terapeuta, mas me parece fundamental que ele tenha sensibilidade às características de cada aluno”, diz Benedicto.
Para a Diretora de Saúde da ANPG, seria importante que os orientadores estivessem atentos às dificuldades de seus alunos. “Na maioria das vezes o orientador acaba se distanciando do pós-graduando, por isso, é importante ele orientar de fato e acompanhar mais de perto. Valorizar o cuidado com o seu orientando, é olhar um a um, é colocar prazos possíveis para o pós-graduando”, diz.
Assédio na pós-graduação
Humilhações em reuniões e aulas, omissão na resposta sobre a orientação, abandono de responsabilidades com o orientado, pedido para realização de tarefas não relacionada à pesquisa, corte de bolsas e reprovação não justificadas ou com justificativas falsas ou não acadêmicas. A lista do assédio na pós-graduação é enorme e essas atitudes podem levar os alunos a quadros de depressão entre outros disturbios. “Naturalmente, o pós-graduando é um ser humano, que ao sofrer assédio, pode ser impactado emocionalmente, o que reflete em sua vida e consequentemente no seu trabalho. Esse impacto não foi ainda mensurado a nível nacional. Sabe-se porém, por levantamento realizado pelas Universidades de Kentucky e de Ghent (2017) com cerca de 3.659 doutorandos, que 39% apresentam um perfil de depressão moderada ou grave, a frente dos 6% da população geral”, explica a diretora da ANPG, Helena Augusta.
Helena que também faz parte da APG da UnB que fez uma pesquisa com os pós-graduando da Universidade de Brasília e dos 637 participantes, de adesão espontânea, cerca de 10% afirmaram que pensam em suicídio entre todos os dias a uma vez por semana. Você pode conferir a pesquisa na íntegra aqui
Para tentar combater o Assédio na pós-graduação, a ANPG lançou em julho a campanha Com Assédio não se Brinca (Veja aqui) e criou o serviço de Ouvidoria para atender casos que precisem de auxílio. Você pode entrar em contato com a ouvidoria pelo e-mail: [email protected]
Ações dentro das Universidades
No ano passado, 2017, após um estudante de doutorado da USP (Universidade de São Paulo) cometer suicídio, a depressão na pós-graduaçãon começou a chamar a atenção da mídia. Na época, ao jornal Folha de S.Paulo, a coordenadora do Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante da Unicamp, em Campinas (SP), disse que ainda não havia a percepção dentro das universidades de que a incidência de depressão e ansiedade entre pós-graduandos tenham uma ligação com o “ensino e a vida acadêmica”. “Em geral, considera-se que é um problema do aluno”, disse Tânia de Mello.
De acordo com números obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo na época, entre 2012 e 2017, cinco estudantes da Unifesp e UFABC cometeram suicídio e outros 22 na Ufscar tentaram tirar a própria vida.
Atentas aos números, algumas Universidades passaram a ter um “olhar especial” para essa questão. Em março deste ano, a Associação de Pós grdauandos da USP de Ribeirão Preto, SP, deu um passo importante no tratamento de doenças pisicológicas que atingem os estudantes da pós-graduação e conseguiu criar um atendimento dentro do campus.
“Nós da APG do Campus USP RP reconhecemos a necessidade de criar um atendimento para os pós-graduandos. Isso ficou evidente depois de dois casos de suícidio – um em São Paulo e outro aqui dentro da Universidade. A partir disso, fizemos uma mesa-redonda para discutir o que pode ser feito e os sinais de depressão. Com isso, começamos a mapear as demandas pisicológicas dentro do Campus e conseguimos uma ótima visibilidade dentro da própria USP. Após esses debates, a professora Dra. Laura Vilela e Souza, líder do grupo de pesquisa do CNPq DIALOG, teve a iniciativa de fazer um projeto de atendimento aos alunos”, conta Pâmella da Silva Beggiora, diretora de relações acadêmicas da APG/USP-RP.
Para a diretora da ANPG e da APG da UnB, Helena Augusta, o ideal também seria debater uma padronização dos programas de pós-graduação em relação a este assunto. “Deveriamos discutir sobre uma regulamentação padronizada que priorizasse a saúde mental do estudante nas decisões referentes à sua vida acadêmica, efetivamente levando em consideração seu estado de saúde mental com bom senso”.
E dentro da sua Universidade é oferido algum suporte? Conte para gente pelo e-mail [email protected].
Pós-graduando unidos
Na batalha em favor da vida é preciso que todos fiquem atentos. “Como pós-graduandos, podemos aderir à cultura de observarmos uns aos outros, com empatia, e nos acolhermos, favorecendo a formação de vínculos saudáveis, e valorizar também atividades que promovam a saúde física e mental – o que deveria ser valorizado sobretudo pelas autoridades do pós-graduando”, afirma Helena.
Confira algumas dicas para ajudar seu colega
Seja Disponível
Ofereça seu tempo para encontrar e sair com a pessoa que está se sentindo depressiva
Ouça
Apenas falar já pode ajudar a diminuir o sofrimento. Pratique a escuta atenciosa.
Não proponha soluções
Evite as frases de autoajuda e de exagerado otimismo, nem minimize os sentimentos da outra pessoa
Esqueça as regras
Não aponte estratégias e planos perfeitos para a cura da depressão
Estimule a procura por ajuda profissional
Aconselhe e encoraje a pessoa a buscar tratamento. Se for o caso, tente ajudá-la a tirar os preconceitos de se consultar com psicólogos e psiquiatras
Avise pessoas próximas
Caso a pessoa com depressão sinalize que pensa em suicídio, que não quer mais viver, entre em contato com pessoas da família.
Fonte: Fernando Fernandes, psiquiatra e pesquisador do Programa de Transtornos do Humor do Instituto de Psiquiatria da USP, Guido Boabaid May, psiquiatra e CEO da GnTech e Guilherme Polanczyk, doutor em psiquiatria e professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

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