Artigo de Luciano Rezende

 

Josef K. estudou na Uniban?

 

Luciano Rezende*

 

“Alguém certamente havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum”.

 

Frase introdutória do livro “O Processo”, de Franz Kafka.

 

         Afinal, do que Josef K. é acusado na célebre trama kafkiana? É a mesma pergunta que fazemos em relação à jovem Geisy, estudante da Uniban – agora por diante conhecida com Uni(tali)ban.

 

         Esse é uma assunto que, merecedoramente, chama atenção de todos justamente por, tal como na ficção de Kafka, “difundir a sensação de que a razão pode muito pouco contra a banalização da violência irracional”.

        

         Geizy é acusada de usar um vestido curto e provocar outros estudantes. Daí sua execração pública em plena universidade e sua posterior expulsão (revogada diante da enorme repercussão mundial).

 

         Seus algozes, aqueles que a insultaram, são tratados como vítimas por terem seus instintos animalescos despertados pela Geni, ou melhor, Geisy. Por isso, todo aquele alvoroço digno de uma alcatéia ao sentir o feromônio da loba no ar.

 

         A questão do vestido que era usado por Geisy é o que menos importa nesse debate. O ponto central, merecedor de reflexão, é a gravidade da escalada da violência contra o gênero humano. Se o capitalismo prima pela competição inserindo valores cada vez mais individualistas em detrimento da solidariedade e respeito entre as pessoas, a grande mídia exacerba esse processo com uma programação “cultural” cada vez mais repleta de insultos, intolerância, arbítrio, alienação e desrespeito. É a animalização do homem na busca desenfreada pelo “Ibope”.

 

         Alguém bem intencionado pode até dizer que a sala de aula não comporta alunos ou professores com trajes, digamos, licenciosos. Mas o que dizer sobre a compatibilidade de uma universidade (ou mesmo a sociedade) com a intolerância? Mesmo se Geisy tivesse cometido algum crime, nada justificaria a revalidação do código de Hamurabi em pleno século XXI.

 

         Já a “universidade” em questão é outra aberração que merece ser melhor debatida. Verdadeiras fábricas de diplomas, em sua grande maioria, não têm o mínimo compromisso com a formação de valores humanísticos e princípios democráticos. Proliferaram-se assustadoramente pelo Brasil afora durante o governo neoliberal de FHC – que se eximiu de investir na educação pública de qualidade -, com o máximo compromisso em lucrar e a mínima obrigação em educar.

 

         Precisamos humanizar essa sociedade cada vez mais enferma pelo capitalismo. O “novo homem” de Martí precisa ser perseguido tenazmente. Jamais podemos nos conformar com cenas de bestas-feras agredindo seu semelhante e ainda por cima contando com a complacência de uma considerável parte da sociedade que julga ser correto achincalhar o próximo em razão de uma suposta agressão ao seu senso estético ou aos seus valores morais.

 

O preconceito que o vice-reitor da Uniban diz vitimar o corpo discente e docente da Uniban após o fatídico episódio não é nada perto do tormento que vive Geisy e seus familiares ao enfrentarem esse “processo” kafkiano. Uma preocupação mais digna de quem ocupa um posto tão elevado dentro de uma instituição universitária deveria ser em torno da imagem da democracia agredida ao invés da cotação de sua empresa de ensino na bolsa de valores.

 

E a todos que querem a cabeça de Geisy servida numa bandeja, relembramos Brecht, e pedimos com insistência:

“não digam nunca:

isso é natural!

diante dos acontecimentos de cada dia,

numa época em reina a confusão,

em que corre o sangue

em que o arbítrio tem força de lei

em que a humanidade se desumaniza

não digam nunca:

isso é natural!

para que nada possa ser imutável!”

 

  • Luciano Rezende é agrônomo, doutorando na Universidade Federal de Viçosa (UFV), da APG-UFV e ex-presidente da ANPG

 

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