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Fernanda Moares e sua filha Sofia (a esquerda) no ST 28 – Educação democrática e ensino de história da ANPUH 2017 que contou com mais mães participantes

Às vésperas do dia internacional da mulher, no dia 06 de março a estudante Waleska Lopes, da graduação em Ciências Sociais da UFRN foi humilhada pelo seu professor de introdução a Sociologia por estar em sala com sua filha de 5 anos. Segundo o professor que, curiosamente, pesquisa gênero, a aluna devia se retirar da aula e ela só estaria autorizada a voltar a assistir aula quando arranjasse alguém para cuidar da menina. “O caso gerou algumas reportagens que foram muito compartilhadas na rede. Os áudios foram gravados pelos colegas e divulgados nas redes sociais. Se a notícia da expulsão de sala de aula já despertava o sentimento de revolta, os áudios então eram completamente inaceitáveis. Dentre muitas atrocidades, o professor falava que se a estudante não tinha uma rede de solidariedade, não devia estar estudando na universidade”, conta Fernanda Fernanda Moura, professora de História, bacharel e Licenciada em História, UERJ, especialista em Gênero e Sexualidade e mestra em Ensino de História e uma das criadoras da página Mãe na Universidade.
“O sentimento de revolta gerado entre homens e mulheres foi enorme, mas entre as mulheres mães principalmente. Todas entendíamos em maior ou menor grau as dificuldades vividas pela Waleska porque todas passamos por, pelo menos, algumas delas. Espontaneamente mães começaram a escrever seus relatos e a divulgar em suas próprias páginas ou em grupos no facebook. Vendo aquela chuva de histórias de sofrimento, superação e, acima de tudo, solidariedade à Waleska, tive a ideia de criar uma página para reunir todos esses relatos e chamei a Vanessa Cardoso que geria o grupo “Mamães na pós-graduação” pra participar. Depois encontramos a Waleska e chamamos ela também”. Fernanda explica que a ideia era criar um movimento em defesa da Waleska e em de todas as mães que passam pela mesma dificuldade de precisar/querer estudar e não ter com quem deixar seus filhos, mas também conscientizar a sociedade e os professores das dificuldades de ser mãe estudante, estimular outras mães que desejam voltar a estudar e, quem sabe, organizar um movimento para que se cumpra a lei e que as mães tenham seu direito a estudar garantido na pratica.
Até agora, a página recebeu mais de 200 histórias. Nos primeiros dois dias de existência da página foram agendadas postagens para duas semanas sendo uma postagem a cada duas horas de 9h as 21h diariamente. “Entretanto, algo que desde o início nos chamou muito a atenção é que quase não recebemos relatos de mães negras. Foram pouquíssimos até agora. Acreditamos que essa seja só mais uma face dos processos de exclusão pelos quais as mães negras, mais que as brancas, passam. A exclusão da academia”, observou Fernanda.
Como acabar com o preconceito?
Fernanda recorre a uma frase dita pelo professor Alípio que estava nos áudios divulgados:
“Encontre uma rede de solidariedade para cuidar da criança. Não consegue essa rede de solidariedade? Repense sua vida. Não tem que estar fazendo Ciências Sociais, não tem que estar estudando na universidade. Você só faz isso se tiver condições. Agora não vai impor à instituição coisas que não são assimiladas pela instituição (…) ‘ah, eu sou pobre, não tenho’. Problema seu, a universidade não tem problema com isso, se vire”.
Segundo a criadora da página, essa fala tem muitos problemas. “Vou começar com a questão de que se não ter com quem deixar os filhos é um impedimento legal para as mães estudarem. Não. Não é. A nossa constituição garante o acesso aos níveis mais elevados do ensino segundo a capacidade de cada um. Waleska passou no processo seletivo para o ingresso na universidade. Logo, ela mostrou-se perfeitamente capaz. A constituição também diz que a oferta de ensino noturno regular deve ser adequado às condições do educando. A condição de Waleska é a de mãe. Para que o ensino a ela seja adequado ela precisa que haja creche na universidade. O que, aliás, é uma luta de longa data das feministas e de qualquer pessoa que deseje que alcancemos a igualdade de gênero na nossa sociedade. Então sim. É problema da universidade. É problema também do governo, e é problema da sociedade como um todo. Qualquer país deve garantir os direitos da mãe e da criança, principalmente, um país em que a maternidade é compulsória como o Brasil, onde o congresso tenta acabar com o direito ao aborto até nos casos de risco para a saúde da mãe e em casos de estupro. Se o Estado faz com que a maternidade seja compulsória, ele precisa fornecer meios para as mulheres que se tornam mães darem continuidade a suas vidas. Uma mãe não deveria precisar de uma rede de solidariedade para cuidar de uma criança. Isso é tratar como privada uma questão que é pública. Essa é a função do Estado. Não é a minha opinião. É o que diz a lei. Não podemos naturalizar a situação precária em que vivemos pelo fato do Estado não cumprir com suas obrigações básicas como garantir o acesso à saúde, a educação, ao transporte, a moradia etc”.
Para conhecer a página acesse aqui: https://www.facebook.com/maesnauniversidade/
#VaiTerMãenaUniversidadeSim

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