Foto: Carlos Siqueira, São Paulo 18/06/13

 

Este sentimento está expresso e ilustrado nas ruas de todo o país. Uma juventude tão disposta quanto plural toma as avenidas do Brasil apresentando uma série de pautas e encampando bandeiras em que expressam o orgulho de ser brasileiro. A responsabilidade com os rumos do país se faz passeata. E reúne milhares. E milhões. A redução do valor das passagens do transporte público nas capitais brasileiras foi a fagulha que acendeu o palheiro. 

Um palheiro que sempre esteve ali, uma vontade de participação política que nunca esteve ausente, mas era solenemente ignorada pelos instrumentos de manutenção do estado de coisas, propositadamente desprezada por uma cultura política que historicamente afasta o povo das decisões, da consecução do projeto de nação (seja ele qual for, do nacional-desenvolvimentismo que já expirentamos em suas várias facetas – progressistas e conservadoras – ao ultraliberalismo que solapou o Estado e a qualidade de vida do povo durante toda a década de 90).

 
Entretanto, embora acusado de pacífico e apático, o povo brasileiro novamente se levanta para mostrar que o gigante nunca cochilou. Encarnado na juventude, o sentimento em prol das mudanças esfrega mais uma vez sua vivacidade nas fuças daqueles que gostam de rotular nossa política de suja, nossos movimentos sociais de oportunistas, nossa juventude de alienada e nosso povo de “povinho”. 
 
Os mesmos que veem o Brasil com olhos estrangeiros e acreditam na subserviência como única saída, tendo por projeto de país, portanto, a dependência das migalhas gringas. Este é o pensamento que se proclama porta-voz da nação e se apresenta em jornais e televisões. Ocupa espaços em todos os Poderes e controla as instituições mais poderosas do país: as financeiras. Com maior ou menor grau de consciência, é contra o estado de coisas mantido por esses setores da sociedade que as ruas são tomadas.
 
Ocorre que se trata de um movimento absolutamente imprevisível e de dimensões impensáveis, assim, não se sabe ao certo o rumo dele. Caminhando pela paulista ao lado de centenas de milhares de pessoas sob chuva de papel picado, tive a certeza de que o grito que estava contido é por mais democracia, por participação. A população tem anseio de conhecer a forma como se decidem as coisas, de participar deste processo, de dizer quais são suas prioridades.
 
Se eu fosse governo, colocaria em pauta a Reforma Política. Não a mini-reforma eleitoral que está em pauta, mas uma reforma Política de verdade, para promover a ampliação dos instrumentos de participação, para promover debate político e fazer valer o termo representação (inclusive no Judiciário!). Não há momento mais propício para promover um processo de debate no sentido de ampliar a participação, com respaldo nas mobilizações. 
 
Eu pautaria também uma nova lei para os meios de comunicação, a fim de garantir que o debate público veiculado abarque a pluralidade de vozes presentes neste movimento e no conjunto da sociedade brasileira, vozes que aparecem nas páginas e telas representadas por um discurso único (e conservador). Essa pluralidade, aliás, só ganhou espaço depois que o "pensamento único" foi enterrado junto com a hegemonia política do neologismo que nos trouxe as privatizações e terceirizações – mas a cova é rasa, e a qualquer hora o defunto pode se levantar!
 
Como sou movimento social, participo. E disputo os rumos. Afinal, as mesmas forças conservadoras que mantiveram a fábula do gigante adormecido como verdade histórica, entram com pautas e mídias para tentar dar uma direção que lhe seja conveniente a este ascenso de passeatas. Entram também com violência. Cabe a nós, que sempre estivemos nas ruas, participar e debater profundamente o momento vivido, a fim de engrossar o caldo das manifestações pautando as reformas estruturais que nos permitam construir um Brasil cada vez mais democrático, com distribuição de renda, desenvolvimento científico e tecnológico, regulamentação da mídia, trabalho decente, moradia digna e saúde e educação de qualidade.
 
Cabe a nós, que estamos acostumados a apresentar pautas, ouvir e aprender com esse fenômeno e a partir dele conquistar avanços que tornem melhor a qualidade de vida do povo brasileiro.
A juventude que está hoje nas ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre, Brasília, Recife, Belém e que se espalha por quase todas as cidades do país, pode não saber exatamente qual é o próximo passo, qual é a pauta que unifica, mas de uma coisa não tem dúvida: quer mudanças mais profundas.
 
De pé, a juventude brasileira educa e aprende a respeito de cidadania como há anos não se via. A redução do valor das passagens é a comprovação de que o povo na rua promove mudanças. Principalmente de consciências.
 
Luana Bonone
Jornalista, mestranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP
Presidenta da ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos
Participante de movimentos sociais há 13 anos

 

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