Para o secretário-geral da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (4ª CNCTI), Luiz Davidovich, desenvolvimento sustentável é mais do que preservação ambiental: envolve o meio ambiente, a sociedade e a economia. Graduado em física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1968) e doutor em física pela University of Rochester (1975), com ênfase em óptica e informação quânticas, Davidovich compara ciência e futebol, afirmando que o Brasil precisa de mais campos de ciência, como os milhares de campos de futebol espalhados pelo país, que produzem gênios dignos de exportação. O professor recebeu recentemente o prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia, uma das mais importantes premiações em C&T do país. De acordo com o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das responsabilidades do Brasil é levar a mensagem de que o país não quer apenas ser protagonista no mundo tal como é, mas também em uma sociedade diferente, que respeite os seres humanos e a natureza. Confira a entrevista concedida ao portal do CGEE(Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) na íntegra.

Qual é o intuito de se realizar uma conferência sobre ciência, tecnologia e inovação no Brasil?


O objetivo é analisar as últimas políticas de desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação no país, apresentando propostas estratégicas em CT&I para os próximos dez anos. Nesse sentido, a conferência é ambiciosa. Ela não deve propor um plano de governo, mas sim um plano de Estado, que perdure além dos governos, com uma perspectiva de longo prazo. Essas propostas foram discutidas durante as conferências regionais e os seminários preparatórios. A garantia de que teremos uma política estratégica está na possibilidade de que os atores que participarão da conferência entrem em consenso em torno de um conjunto de propostas para o desenvolvimento científico e tecnológico do país.

E como essas propostas serão aplicadas concretamente?

O que vai acontecer na prática depende muito da identificação dos grandes temas que, inclusive, já surgiram durante os seminários preparatórios. Um tema óbvio é a questão territorial, que se traduz em assuntos relativos à Amazônia, ao Pantanal e ao Cerrado, e também aos sistemas urbanos, pois eles também devem ser sustentáveis. Imaginamos que esse conjunto de propostas gere leis no Congresso Nacional. É o que temos de experiências passadas. De discussões nas conferências anteriores, surgiram a Lei de Inovação, a Lei da Biodiversidade, o Plano de Ação para Ciência, Tecnologia e Inovação (2007-2010), entre outros. As leis aparecem a partir disso. Precisamos considerar o passado, observando o que ocorreu com as outras três conferências realizadas anteriormente. O plano de ação de CT&I de 2007-2010 foi altamente subsidiado pelas conclusões da 3ª Conferência, que ocorreu em 2005. A conferência anterior, que ocorreu em 2001, resultou na criação do CGEE e também na implantação concreta dos fundos setoriais. A 1ª Conferência, em 1985, resultou em uma definição sobre a estruturação dos órgãos de apoio à pesquisa em C&T.

Qual é o público-alvo da conferência?

Acredito que o público-alvo reúne os setores da academia, empresários, trabalhadores em áreas relacionadas à C&T, organizações não governamentais e o governo. Vamos colocar juntas pessoas com formações diferentes, com objetivos diferentes, mas que debatem temas de interesse comum. O que une esses vários grupos é exatamente o desenvolvimento científico e tecnológico, com inovação, para o desenvolvimento sustentável. Queremos congregar esses atores, numa orquestra com vários instrumentos diferentes, para que daí surja um som harmônico. Este som deve ser um conjunto de propostas que alavanquem o desenvolvimento para os próximos dez anos, em comum acordo pelos participantes da conferência.

Quais são os atuais desafios da 4ª CNCTI? E as expectativas para os três dias de evento?

Todas as conferências tiveram grandes desfechos, e nosso desafio agora é pelo menos igualar esta às outras. Serão três dias de intensa discussão. Temos um programa intenso, com sessões plenárias, paralelas e temáticas, envolvendo um leque variado de temas relativos à CT&I.

O tema central da conferência é ciência, tecnologia e inovação aliado ao desenvolvimento sustentável, integrado com as tendências e desafios nacionais e internacionais da atualidade.

Sim, o grande tema da conferência é o desenvolvimento sustentável e nós entendemos como sustentabilidade aquela que envolve tanto a parte econômica quanto o meio ambiente e a parte social. É um conceito que não é abstrato ou ideologizado, como frequentemente ocorre, mas que se ancora na história e na cultura do nosso país. Percebe-se que desenvolvimento sustentável no Brasil tem significados diferentes, dependendo da região que se analisa. Na Amazônia, tem o significado muito claro de aproveitar esse grande tesouro de matéria-prima brasileira, sem destruir a floresta amazônica, permitindo que a exploração seja sustentável para futuras gerações. Isso implica utilizar alta tecnologia na exploração dessa floresta, porque dela podemos ter fármacos, cosméticos, produtos de alto valor agregado e que ainda estamos por descobrir. Em outras regiões, desenvolvimento sustentável adquire outra conotação. Sustentabilidade significa reduzir as diferenças sociais, dar oportunidades para todos, estabelecendo uma democracia que deve representar a igualdade de oportunidades. Se vamos conseguir isso ou não, depende de nós e de mais ninguém.

E como o país lida com o desenvolvimento sustentável hoje?

Se olharmos para o Brasil como um todo, há uma questão básica sobre o desenvolvimento sustentável que tem a ver com a parte social. O nosso desenvolvimento ainda está baseado em uma fração da nossa população que é típica de um país europeu, quando, na verdade, o Brasil tem 200 milhões de habitantes. O grande desafio é usar esses 200 milhões de habitantes em prol do nosso progresso. Temos milhões de cérebros pelo país afora sendo desperdiçados, cérebros de crianças nas favelas, nos mangues, que não são aproveitados num projeto de desenvolvimento científico e tecnológico do país. Precisamos ir atrás disso, para incluir uma fração maior da nossa população. Atrair as crianças por meio da educação, para fazerem ciência e se tornar engenheiros, cientistas e técnicos. Perspectivas de curto prazo já apontam a necessidade de mais e melhores profissionais dessas áreas que estão faltando. Nosso país precisa disso.

Como a falta de investimentos no setor de educação influencia no desenvolvimento científico e tecnológico do país?

Quando nós olhamos a educação superior no Brasil, apenas 13% dos jovens entre 18 e 24 anos estão matriculados em instituições de educação superior. Esse percentual deve ser comparado com 60% nos Estados Unidos e 30% na Argentina. É um percentual muito pequeno. Além disso, se analisarmos como essas matrículas estão distribuídas no ensino superior, apenas 11% delas são na área de engenharia e ciências tecnológicas. O que significa que, se fizermos a conta, apenas 1,5% dos jovens entre 18 e 24 anos está matriculado em cursos de engenharia e ciências tecnológicas. Vale dizer também que menos de 40% dos engenheiros formados no país continuam na sua área de formação. Se nós considerarmos esse fator, chegamos à conclusão de que menos de 1% dos jovens entre 18 e 24 anos tornam-se profissionais ativos nas áreas de engenharia e ciências tecnológicas. Isso é muito pouco.

E o ensino médio?

Se recuarmos e considerarmos o ensino médio, apenas 50% dos jovens entre 15 e 17 anos estão matriculados no ensino médio, o que significa que de fato não existe uma universalização desse nível de ensino. Conseguiu-se isso no ensino fundamental, mas por outro lado essa universalização tem um aspecto perverso, pois sabe-se que a qualidade do ensino fundamental no Brasil é precária. O sistema educacional do Brasil perpetua a segregação social que temos na nossa sociedade. Quando olhamos para o desempenho das crianças em países que obtêm sucesso no sistema escolar, a origem das crianças influencia muito pouco no seu desempenho, porque a escola supre essa diferença de origem. No Brasil, o desempenho das crianças está estreitamente ligado à origem, à escolaridade dos pais, principalmente à escolaridade da mãe. A escola não está fazendo o seu papel. Isso prejudica o desenvolvimento brasileiro porque marginaliza uma fração muito importante da população dessa possibilidade de participar do desenvolvimento científico e tecnológico do país. Pode-se comparar com a imagem que se faz do futebol brasileiro, que foi construído pelos milhares de campos existentes Brasil afora, e de lá saem os gênios do futebol. Nossos cientistas estão saindo de uma fração pequena da população, então precisamos de mais campos da ciência para aumentar o número de profissionais nessa área.

Então podemos dizer que o país não tem cultura científica?

Falta uma cultura científica no Brasil, realmente. E a melhor maneira de construir essa cultura é cuidando das crianças, desde o início. Fala-se muito da Coreia do Sul, de como tem progredido, que o país estava atrás do Brasil e agora está à frente, mas talvez poucos saibam que na Coreia existem cinco universidades nacionais de educação que formam professores para o ensino fundamental. Elas têm um vestibular extremamente disputado e recrutam seus estudantes entre os 5% melhores estudantes do secundário. Esses vão ser professores no ensino fundamental. O número de vagas abertas nelas corresponde ao planejamento para o número de professores necessários para quatro ou cinco anos depois, por isso quem consegue entrar nessas universidades tem emprego praticamente garantido e também a garantia de alto salário. O salário inicial de professores de ensino fundamental lá é, em média, maior do que os salários iniciais de outras profissões graduadas. Isso é essencial, pois consegue-se assim atrair os melhores estudantes, e estes vão ser bons professores.

O difícil acesso à informação de qualidade também pode contribuir para a fragilidade da cultura científica no país?

A repercussão da ciência em políticas públicas deve ser controlada pela sociedade como um todo, mas para que isso possa ocorrer, a sociedade tem que ser informada. Hoje em dia a gente vê no Brasil questões científicas que passam pelo legislativo, pelo Congresso Nacional, que vão à justiça, até o Supremo, e que são altamente não triviais, como os organismos geneticamente modificados, as células-tronco e o uso da energia nuclear. Como a sociedade vai decidir sobre isso se não estiver bem informada sobre essas questões? Para o funcionamento da democracia, precisamos que a sociedade seja informada sobre a ciência e assim tenha mais elementos para decidir. É a sociedade que tem que controlar isso e entender que a ciência pode trazer grandes benefícios ou grandes malefícios. Portanto, é fundamental que a sociedade esteja bem informada, para garantir que as descobertas da ciência sejam utilizadas para seu benefício.

Quais são as expectativas de a 4ª Conferência trazer a inovação para a mesa de discussão?

Apesar da Lei de Inovação existir desde 2004, a inovação ainda é muito reduzida nas empresas brasileiras. A cultura empresarial no país não tem arraigada a inovação, é uma cultura avessa ao risco. O que nós podemos atribuir também às décadas de alta inflação que tivemos, que faziam com que a atividade especulativa fosse mais bem remunerada que a produtiva. Essa é uma questão importante da Conferência porque, para aumentar o protagonismo internacional do país, nós precisamos da inovação em várias áreas. Precisamos aumentar o valor agregado dos produtos que exportamos, precisamos de empresas mais agressivas. Um dos grandes desafios da 4ª CNCTI é debater formas de aumentar a inovação nas empresas e fazer com que elas desenvolvam pesquisas próprias, como é o caso de outros países. Estamos formando mais de 10 mil doutores por ano e a maioria vai trabalhar em universidades para formar outros doutores. Nos países desenvolvidos, estes pós-graduados vão para as empresas. Como fazer com que empresas sediadas no Brasil façam pesquisa, desenvolvimento e inovação aqui? Se olharmos países que estão deslanchando, o índice de inovação é muito alto.

E como o senhor vê o Brasil no cenário mundial?

Temos que pensar esse papel do Brasil no mundo em vários termos. Empresários consideram isso como ter empresas mais competitivas. Cientistas pensam em publicar mais artigos ou ter um protagonismo maior na ciência mundial. O governo pode pensar em termos de ocupação de espaço e em tratados internacionais. O Brasil tem dado recados importantes para o mundo, por exemplo, em 1983. Naquela época, havia rumores de que o Brasil e a Argentina estavam com programas de desenvolvimento de armas atômicas, com perigo de se instalar uma corrida nuclear na América Latina. O presidente da Sociedade Brasileira de Física assinou, junto com o presidente da Associação de Físicos da Argentina, um documento contrário à construção de armas nucleares nestes países, propondo a abertura das instalações nucleares à inspeção mútua e considerando imoral que qualquer cientista desses dois países trabalhasse em artefatos nucleares. A partir daí, implementaram-se mecanismos de inspeção mútua das instalações nucleares que duram até hoje. Isso foi um exemplo interessante da comunidade científica para a humanidade, de como o entendimento entre cientistas pode ser importante para a paz. Temos a responsabilidade de levar ao mundo essa mensagem, de que queremos não apenas ser protagonistas no mundo tal como ele é, mas também em um mundo diferente, que respeite os seres humanos e a natureza.

 

Fonte: Portal do CGEE(Centro de Gestão e Estudos Estratégicos).

 

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