A ANPG reproduz na íntegra a entrevista do secretário geral da SBPC, Aldo Malavasi, ao Diário de Natal. Nela, ele fala principalmente sobre o tema da reunião deste ano.

O tema desta 62ª Reunião Anual da SBPC é Ciências do Mar: herança para o futuro, que vem ao encontro da campanha da UNE, UBES e ANPG em defesa de que 50 % dos recursos do Fundo Social do Pré-Sal sejam destinados à Educação.

RN se afirma como polo de ciência
Andrielle Mendes //
[email protected] especial para o Diário de Natal

Para conhecer um pouco mais sobre o maior evento científico do país, o Diário de Natal entrevistou o secretário geral da SBPC, Aldo Malavasi. Ele conta a ideia de escolher Natal partiu dele. Na escolha, levou em consideração o fato de a cidade ser atraente e contar com uma universidade federal atuante no cenário nacional. Ele ressaltou o papel das pesquisas para o país e disse que o estado que investe em ciência e tecnologia se desenvolve mais rápido.

Já se conhecia o tema central da 62ª Reunião Anual da SBPC, quando Natal foi escolhida como sede? A escolha da cidade-sede e do tema central tem alguma relação?

Tudo é pensado junto. Eu lembro exatamente quando nós pensamos em Natal. Eu lembro até o dia e a hora. Veja que interessante. Estávamos em Tabatinga, no Oeste Amazônico, lá na fronteira com a Colômbia, quando vimos todas as dificuldades que estávamos enfrentando no Amazonas. Eu disse ‘olha pessoal, quem tem interesse em sediar o evento e tem uma estrutura fantástica é a UFRN. Eu vou ligar para Ivonildo (Ivonildo Rêgo, reitor da UFRN)’. Liguei na hora e disse ‘Ivonildo, porque você não faz uma reunião da SBPC ano que vem (2010)?’. Estávamos em março de 2009. Ele perguntou ‘tem candidatos? Eu disse: tem, mas estamos querendo Natal, porque a universidade tem uma estrutura boa’. Ele disse ‘eu vou falar com meu pessoal e te dou um retorno’. No dia seguinte, ele retornou e disse: ‘Aldo, vamos fazer’. De fato existe uma indução nossa na escolha da sede.Nós já sabemos as cidades que podem sediar o evento nos próximos dois anos. Mas o fato de existir uma universidade muito ativa no Rio Grande do Norte nos dava uma tranquilidade enorme. Então, quando nós decidimos fazer o evento aqui, começamos a pensar ‘o que interessa o Rio Grande do Norte?’. E aí conversando com o pessoal, surgiu o tema ‘o mar’. Então, vamos discutir o mar. Discutimos a ideia com a administração da UFRN e a SBPC e chegamos a este tema. Uma coisa que é rara e que não conseguíamos há muitos anos era realizar um concurso para confeccionar o cartaz da reunião. Esse cartaz foi feito aqui, através de um concurso. Aqui (na UFRN) as coisas acontecem de forma muito mais tranquila devido ao compromisso do pessoal. O pessoal é muito compromissado, o que dá muito tranquilidade.

O compromisso da UFRN lhe surpreendeu?

Não, não me surpreendeu. Eu já esperava. Por isso, nós já induzimos. Quando entrei em contato com Ivonildo, eu já sabia que o pessoal era muito dedicado. Agora eu digo uma coisa: está melhor do que eu esperava.

O senhor foi eleito secretário geral da SBPC em 2007. Que temas foram tratados nestes três anos?

Durante as Reuniões Anuais da SBPC, tentamos tratar os assuntos que mais afetam o Brasil na atualidade. Abordamos Ciência e Cultura em 2009, no Amazonas. Antes disso, tratamos da energia elétrica, em Campinas (SP). E este ano estamos tratando da questão do mar, que é uma questão, que para nós, ainda é muito relegada ao segundo plano. É muito difícil fazer pesquisa relacionada ao mar, em função das dificuldades operacionais. Algo que nos interessa muito é tentar desenvolver os estudos relacionados a este tema. Essa é uma diferença muito grande em relação às edições passadas, porque a questão da energia e a questão da Amazônia são muito estudadas no Brasil. Enquanto que a questão do mar não.

Qual o diferencial desta reunião em relação à anterior?

A última reunião foi realizada numa cidade (Manaus) que ficava muito isolada do ponto de vista do transporte. Para chegar ao Amazonas é muito difícil. As pessoas chegam lá ou de barco a partir de Belém ou de avião. A vantagem desta reunião é que Natal tem uma característica marcante, que é o apelo turístico. Por isso, nós estamos com mais de nove mil inscrições até o momento, o dobro de inscrições do ano passado. Com a realização da reunião em Natal, a gente está querendo que os participantes vejam ciência, mas também vejam a cidade. Este ano, temos o dobro de pessoas inscritas, o que é muito importante. Para mostrar um pouco mais da cidade, nós vamos fazer uma excursão com professores da universidade orientada por uma turismóloga. Mas não é só o turismo. Na verdade, os participantes da excursão vão entender o que são as dunas, a vida, a biodiversidade do ambiente que estão conhecendo. Um turismo orientado, com respeito ao meio ambiente e conhecendo a própria biodiversidade. Essas são características importantes desta reunião.

Como cientista e secretário geral da SBPC, o senhor deve ter tido oportunidade de conhecer várias regiões do país. Nasua avaliação, as pesquisas científicas tecnológicas ainda estão muito concentradas no eixo Rio-São Paulo?

Infelizmente, as pesquisas ainda estão muito concentradas no Sudeste. Só que o Nordeste, como um todo, oferece uma condição muito maior de você fazer pesquisa científica e tecnológica do que há duas décadas. E essa minha percepção é muito clara, porque eu próprio sou exemplo disso. Eu sou professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e me mudei para o Nordeste. Por quê? Porque hoje há muito mais condições aqui. Têm muito mais transportes, mais comunicações. Hoje, a internet é rápida tanto aqui quanto em São Paulo. Não há uma diferença grande em relação a isso. Então, aquilo que assustava um pouco as pessoas, não existe mais. Cito um exemplo. A UFRN é líder na área das engenharias, na área da saúde no Brasil. As universidades federais de Campina Grande, Recife, Ceará são referências nacionais. Vários professores do sul e do Sudeste vieram para o Nordeste, atraídos pelas novas condições de pesquisa que surgiram. Hoje existe uma política brasileira de apoio às regiões menos aquinhoadas com recursos, como a região Norte e Nordeste. Antigamente a gente achava que o Nordeste tinha problemas ou poucos recursos. Hoje não. É a região Norte. Nós não estamos preocupados com o desenvolvimento do Nordeste. O Nordeste está numa linha de desenvolvimento tão grande que ninguém para mais. Agora não tem como parar. O desenvolvimento do Nordeste já é absolutamente sustentável. Então cada vez mais vai ter recursos no Nordeste. Quando você vai para o Norte, a situação está um pouco mais complicada. A região Norte ainda tem um segmento de pesquisa muito pequeno. Você tem poucos recursos lá. Então a nossa preocupação, e por isso fizemos uma reunião lá e faremos outra em Boa Vista, é tentar mostrar que a Amazônia precisa de mais pesquisas. Nós precisamos fazer pesquisas sobre a Amazônia dentro da Amazônia. Então, eu diria que essa concentração de pesquisas científicas e tecnológicas no Sudeste ainda existe, infelizmente, mas a situação muda a cada ano. Você percebe nitidamente que existe uma quantidade, uma massa crítica de pesquisadores, cada vez maior na região Nordeste, o que é o ideal.

Nos últimos anos, o Rio Grande do Norte deu alguns passos no que diz respeito à realização de pesquisas científicas e tecnológicas. Hoje, por exemplo, temos o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra e o Instituto Internacional de Física. Com a implantação desses institutos, o RN entra na rota da ciência?

Na realidade, o RN já faz parte da rota. Outro dia saiu na Folha de São Paulo o número de doutores existentes no Brasil e a concentração por universidade. Em primeiro lugar, ficou a Universidade de São Paulo, a USP. Fiquei feliz porque no gráfico publicado na Folha, você vê que hoje a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) é a terceira mais produtiva do Nordeste. A primeira é a federal da Bahia. A segunda é a de Pernambuco e a terceira é a do RN. Então quando você pega esses índices de trabalhos e doutorados defendidos, vê que a UFRN cada vez mais se destaca, a ponto de aparecer num gráfico nacional. Isso é bastante significativo. Isso mostra que a UFRN está no caminho certo.

Na sua avaliação, qual o legado que a 62ª SBPC deixa para o estado? Qual o impacto de uma reunião como essa?

Eu acho que a interação dos estudantes desta universidade com mais de 300 pesquisadores de fora vai impactar de forma significativa as pesquisas que aqui são feitas.

 

Fonte: Diário de Natal.

 

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