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Mário Ramos Ribeiro é doutor em economia pela Universidade de São Paulo (USP), docente da Universidade Federal do Pará (UFPA) e presidente da Fundação Amazônia Paraense de Amparo à Pesquisa (Fapespa). Artigo enviado ao JC Email pelo autor e publicado em 28/05/2012.

O mundo contemporâneo vive um momento de inflexão: o velho ainda não morreu e o novo ainda não nasceu. Diversas mudanças estão ocorrendo de forma súbita e provocando grandes impactos socioeconômicos em uma sociedade que já não consegue dimensionar os seus desafios.

 

Falta senso de perspectiva, inexiste definição de prioridades. Sem investimento no conhecimento – o ativo econômico cujo retorno é o mais duradouro -, estaremos sempre caminhando às apalpadelas, sujeitos a supetões e todo tipo de paralisia. A economia da Amazônia rasteja por mais de três décadas com uma taxa de crescimento anual do seu Produto Interno Bruto (PIB) que não consegue ultrapassar o limite de 8% do PIB brasileiro.

 

A atividade econômica na Amazônia Legal vem sendo "puxada" pelo agronegócio. Cresce em ritmo duas vezes mais acelerado do que a média nacional. Nos primeiros três anos do primeiro mandato de Lula, a região cresceu 22,4%, enquanto o PIB brasileiro acumulava crescimento de 10%, segundo cálculo feito pelo IBGE.

 

Os dados oficiais mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para estados e municípios são de 2005. Apesar do crescimento acelerado, a riqueza gerada na região contribuiu com menos de 8% no PIB nacional, de acordo com os últimos dados disponíveis.

 

É preciso sair da mesmice. É urgente um "choque de conhecimento" na região amazônica capaz de fazer explodir a produtividade do trabalho e assim fazer o nosso PIB dar um "salto" para, digamos, 15% do PIB nacional. Quanto maior a inércia e o apego ao lugar comum, maior a intensidade do choque. Não é uma tarefa para ações ordinárias. Requer paciência, tenacidade e temperança.

 

Este dramático "choque de conhecimento" exige parcerias entre o setor público e a iniciativa privada na busca da ampliação da "base de financiamento". Demanda ações concertadas e bem calibradas entre o empresário, o pesquisador, as instituições de pesquisa e ensino, as agências de fomento e de apoio e as instituições financeiras federais, de modo a dar um começo rumo à prosperidade sustentada.

 

Isto exige uma breve introspecção, um olhar para dentro, de modo a aumentar a eficiência dos diversos "modos de produção" que convivem de forma desarticulada nas "diversas amazônias".

 

A grande questão: por que um choque de conhecimento? E por que ele se faz tão necessário? Por algumas razões: a) O ativo conhecimento (um ativo intangível) tem – diferentemente dos demais ativos econômicos – a propriedade de gerar "rendimentos crescentes". Em português: quanto mais se investe em conhecimento em uma determinada economia, maior a renda social que ela gera. Os demais ativos (máquinas, trabalho, terra etc.) apresentam "rendimentos decrescentes".

 

Para estes, quanto mais se investe, menor o retorno – podendo até se tornarem negativos. Ou seja, o crescimento se expande a taxas decrescentes. O que não ocorre com o conhecimento.

 

b) O ativo conhecimento aumenta sobremaneira a produtividade de todos os demais ativos (a chamada "produtividade total" do empreendimento). Quanto mais conhecemos, melhor utilizamos o capital físico, melhor planejamos o processo produtivo, melhor trabalhamos a terra etc.;

 

c) O ativo conhecimento acumula com maior velocidade e menor custo do que os outros ativos, pois os rendimentos crescentes que gera são acompanhados de inovação. Só o conhecimento pode inovar, e somente a inovação pode fazer "saltar" a fronteira de produção. Ademais, apenas o conhecimento tem o atributo da "disseminação", o que acelera ainda mais a taxa de crescimento econômico;

 

d) O famoso "triângulo do desenvolvimento sustentável" – inclusão social, crescimento econômico e preservação do meio ambiente – depende da expansão da fronteira de conhecimento, que por sua vez depende quase que unicamente da disseminação do conhecimento;

 

e) De todos os ativos de produção, o que tem maior importância para a inclusão social é o conhecimento.

 

A Rio+20 pode ser uma janela de oportunidades para novos "negócios verdes" – e consequentemente um "salto" do PIB da Amazônia para 15% do PIB nacional – se levar a sério a necessidade urgente de se investir em Pesquisa & Desenvolvimento na Amazônia. Qualquer coisa diferente de um choque de conhecimento que saia daquela Conferência servirá apenas à manutenção e reprodução do que aí está. E só!


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