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Isis Ferreira

A visibilidade alcançada até aqui deve ser reconhecida como conquista e orgulho para pessoas transexuais e para as travestis que sofrem tanto com o preconceito, porém a carência de medidas públicas e sua aplicabilidade compõem o cenário que de atual não tem nada, se fizermos uma reflexão mais profunda ao analisar as travestis e pessoas transexuais por classe social verificamos que em sua maioria são pobres e em condições de vulnerabilidade, expropriadas suas capacidades cognitivas, imagéticas e reduzidos a objetivo pelo simples fato de ser diferente.
Preconceito, exclusão, dificuldade no acesso educacional, indisponibilidade de vagas no mercado de trabalho, violação de direitos. Esses são alguns dos desafios diários enfrentados por travestis e transexuais no Brasil. O país lidera os rankings de violência segundo levantamento da ONG Transgender Europe. Em um período de sete anos, de 2008 a 2015, 802 corações trans e travestis deixaram de pulsar no país, o que evidencia uma realidade de severa intolerância.
Devido ao preconceito e a baixa escolaridade, grande parte dessas pessoas não conseguem uma oportunidade no mercado de trabalho e mesmo as graduadas e aptas a exercerem uma profissão de alto desempenho, por vezes são recusadas por sua identidade de gênero, o que não deixa outra opção: muitas acabam na prostituição ou tendo suas competências profissionais questionadas a todo o momento. Temos mais de 90%, isso é um dado da ANTRA [Associação Nacional de Travestis e Transexuais], travestis e transexuais vivendo unicamente da prostituição. Estamos falando de aprisionamento social, onde corações diferentes não possuem o direito de pulsar.
A sociedade designou que esses seres humanos não possuem potencialidades para exercer outra função que não seja o trabalho sexual, e para viver em sociedade, neste atual cenário que o coração de Quelly da Silva parou de bater em razão da intolerância e cegueira social.
A incompreensão sobre identidade de gênero e a real significação vivencial da travestilidade e transexualidade sempre ocasionou um violento processo de exclusão social: problemática relacional familiar; evasão escolar e baixa escolaridade; discriminação no mercado de trabalho; vulnerabilização e violência, tanto social e institucional, fomentada pelo princípio de que Deus está acima de tudo e de todos.
O combate à discriminação e a defesa de direitos devem ser compreendidos não sob o equivocado prisma da criação de novos direitos, mas sim sob a correta ótica da aplicação dos direitos humanos a todos, indiscriminadamente. Trata-se da aceitação dos princípios fundamentais sobre os quais todos os direitos humanos estão assentados: a igualdade de valores e a dignidade de todos.
Reconhecimento é o poder para nós pessoas transexuais. Somente quando a visibilidade é legitimada podemos levantar nossas forças e com sonoridade defender nossos direitos enquanto cidadãos.
Quando a mulher a transexual ou travesti nasci para si mesma ela morre para o mundo, um mundo totalmente excludente, e isso têm que mudar!
A visibilidade trans precisa ser todos os dias para que vidas possam ser preservadas e vividas em sua plenitude. Que um dia possamos alcançar um mundo onde manteremos corações pulsantes, pelo complexo fato de serem corações independentemente da diversidade que nele habita.

Isis Ferreira
Mestra em Ciência da Informação
Docente da Fatec- Garça

*As opiniões aqui reproduzidas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião da entidade.

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