A direção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou, nesta terça-feira (28/5), uma redução de 30% no questionário do Censo 2020, que passou das 112 perguntas planejadas para 78.

Os técnicos do órgão, contudo, discordam da decisão e afirmam que o corte vai acarretar sérios prejuízos para o mapeamento de informações imprescindíveis para a formulação de políticas públicas. O enxugamento impactará tanto o questionário mais extenso, aplicado em 10% das residências, quanto o formulário básico do Censo.

Segundo análise divulgada por um conjunto de técnicos, diversas áreas serão comprometidas. A medição do déficit habitacional, por exemplo, ficará inviabilizada no Censo 2020, uma vez que o item sobre o valor do aluguel foi retirado da pesquisa. “Essa perda não pode ser compensada por pesquisas amostrais, pois só o Censo poderia produzir os resultados para cada município e por cada bairro das grandes cidades, informações fundamentais para as políticas habitacionais”, diz a nota.

Outros quesitos cortados afetam os dados sobre a migração interna do país e a emigração – o que preocupa particularmente num momento em que os fluxos migratórios são um debate mundial -, renda domiciliar e mercado de trabalho, entre outros. “Coletar a renda apenas do trabalho impede saber se a renda vem de aposentadoria, benefícios. Isso é um grande prejuízo para entender a renda para grupos populacionais invisibilizados, como pessoas com deficiência”, acredita Dalea Antunes, dirigente da Associação dos Servidores do IBGE (ASSIBGE).

Técnicos não foram ouvidos sobre as mudanças

Causou revolta nos funcionários a medida ter sido tomada sem a devida participação do corpo técnico. É o que aponta Luanda Botelho, coordenadora da ASSIBGE-Núcleo Av. Chile. “As decisões sobre os cortes foram tomadas à revelia dos técnicos e dos grupos temáticos responsáveis pela construção do questionário ao longo dos anos. É um total desrespeito a todos os usuários, entidades e fóruns que foram ouvidos nesse processo”.

Também preocupa os envolvidos que o novo questionário, com mudanças importantes, precisaria passar por testes antes de ser aplicado, o que não deve ocorrer. “Esse questionário não foi testado em campo. Trata-se de outro questionário, que demandaria testes pilotos e novo desenho”, diz Dalea. Esse raciocínio também é partilhado por Luanda, que considera “temerário levar um questionário tão alterado diretamente para o censo experimental”.

IBGE nega que redução seja devido à falta de recursos; servidores questionam critérios

Desde o início do governo, o brutal contingenciamento de recursos ordenado pela equipe econômica colocou a pesquisa, realizada a cada dez anos, na berlinda. Paulo Guedes, ministro da Economia, já em abril havia dado a senha para a diminuição das perguntas: “tem muita coisa que não é importante”, desdenhou.

A presidente do instituto, Susana Cordeiro Guerra, admite que há restrições orçamentárias, mas nega que a redução no questionário tenha relação com o aperto financeiro – de R$3,1 bilhões estimados, os recursos destinados devem ser de R$2,3 bi. “Nunca houve ordem para diminuir o número de perguntas do questionário, a única coisa que há é um quadro de restrição orçamentária”, argumentou, salientando que o IBGE tem autonomia.

Os servidores questionam as mudanças, já que a própria direção afasta o problema financeiro. Afirmam que não existe evidência de que a redução do questionário melhoraria a qualidade do censo e que informações essenciais serão perdidas com base em justificativas falaciosas.

O corte no Censo é mais um episódio de uma longa lista de contenciosos do atual governo envolvendo instituições educacionais, técnicas e científicas.

O auge foram os cortes em bolsas da CAPES e de 30% nos orçamentos das universidades e institutos federais, que motivaram grandes mobilizações em 15 de Maio e têm novos atos convocados para o dia 30. Nesta semana, o ministro Osmar Terra disse “duvidar” de uma pesquisa envolvendo 500 cientistas realizada pela Fiocruz.

Para Flávia Calé, presidenta da ANPG, “o governo flerta abertamente com o obscurantismo, dilapidando o que o país tem de melhor nas áreas de produção do conhecimento e de planejamento estratégico”.

De São Paulo, Fernando Borgonovi

 

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