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“Os trabalhos científicos produzidos por mulheres são acolhidos pela comunidade acadêmica? Quantas mulheres negras, índias e trans estão realmente inseridas no mercado de trabalho? Como combater a violência contra a mulher dentro da acadêmia?”.
Essas são algumas das perguntas e inquietações que nesta sexta-feira (29) motivaram o início do 26° Congresso Nacional de Pós-Graduandos da ANPG –  Associação Nacional de Pós-Graduandos, na Universidade de Brasília (UnB).
A primeira mesa de debate “Ser Mulher na Acadêmia: Realidade e Desafios” contou com a presença de Luyanne Azevedo, Diretora de mulheres da ANPG, Thandara Santos, militante da Marcha Mundial das Mulheres, Beatriz Gregory, Coordenadora da União Brasileira de Mulheres (UBM), Sonia Guimarães, primeira negra brasileira doutora em Física com PhD pela University of Manchester Institute of Science and Technology, na Inglaterra, Vanessa Clemente Cardoso, doutoranda em  História pela Universidade Federal de Goiás e organizadora do grupo “Mamães na Pós-Graduação”, Sonia da Costa, Diretora de Políticas e Programas para Inclusão Social (DEPIS),  Ana Clara Franco, diretora de mulheres da UNE – União Nacional dos Estudantes e Tamara Naiz, presidenta da ANPG.
A seguir, destacamos alguns dos temas e falas tratados no encontro pelos palestrantes.
Mãe e cientista
Vanessa Clemente Cardoso: “Eu engravidei durante o doutorado. Escutei que não precisava mais concluir meu estudo porque o mesmo estava nos meus braços, ou seja, a minha criança. Após ouvir essa violência, decidi organizar o grupo ‘Mamães na Pós-Graduação’ para fortalecer as mulheres na mesma situação que eu vivia. No grupo, percebemos que a rede de apoio nessa sociedade patriarcal e misógina é uma necessidade para prosseguirmos. Nós, mães e cientistas, começamos a postar relatos de como conciliar estudos e maternidade.
Na prática, nossas lutas estão em questões que estamos avançando. Por exemplo, as creches funcionam em grande parte no período matutino e vespertino. Como uma ‘mãe solo’ que estuda a noite consegue manter os estudos, se as creches têm esse horários? Uma rede de apoio ajuda bastante. Por que os homens não são cobrados na questão de disponibilidade de tempo para a criação das crianças? Na página, a gente conseguiu debater esses assuntos. As pessoas apontam o dedo quando veem uma mulher como uma criança em sala de aula, mas nem sempre sabem que aquela mãe estudante não tem opção. A sociedade nos impõe uma escolha: “Ou você é mãe ou cientista”. Nosso grupo busca soluções para que essa realidade mude”.
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Violência contra a mulher
Thandara Santos: “As mulheres estão na pós-graduação, até mais do que os homens. Mudamos o patamar, mas precisamos garantir que elas sobrevivam nesse espaço de silenciamento, assédio e violência. A universidade pública está sendo desconstruída e sucateada. Há relatos de violência e assedio nas universidades e qual é o posicionamento da acadêmia quanto a isso? O debate que estamos promovendo é importante também para colocar essas questões em pauta”.
Incentivo e Inspiração
Beatriz Gregory: “Nós  precisamos criar mecanismos de inspiração para as meninas porque as mulheres são desencorajadas para prosseguir com as suas pesquisas.  As mulheres entram na acadêmia, mas entram majoritamente em áreas ligadas aos cuidados como medicina e enfermagem. Os homens entram mais nas áreas exatas, de engenharia.  Há um machismo nessa divisão. Precisamos sim valorizar as áreas que as mulheres já atuam, mas trazer mais mulheres para os setores que elas ainda não atuam é fundamental. Não podemos ser belas, recatadas e do lar porque isso é um imposição da sociedade. Somos 57% de estudantes na pós graduação, mas não chegamos aos postos de poder”.
Sônia Costa: “Estamos trabalhando nas Feiras de Ciências no incentivo à presença das mulheres. Em algumas destas feiras chegamos ao número de 40% de presença feminina”.
Mulheres negras
Sonia Guimarães: “Precisamos levar em consideração a dificuldade que passa a mulher negra por conta do preconceito. Há uma premissa da incapacidade intelectual de mulheres negras. Há várias coisas a se fazer para mudar o quadro. Na hora do voto precisamos pensar na representatividade e elegermos mulheres, negras, LGBT e que trate com seriedade a questão do aborto”, disse. Sonia destacou também vários nomes de mulheres da Ciência brasileira que estão alcançando reconhecimento e destaque. No entanto, ela ressalta a importância da valorização dessas mulheres já que mulheres negras com doutorado são apenas 0,24% da população brasileira.
Carreira
Tamara Naiz “Apesar das muitas dificuldades presentes no nosso cotidiano, o Brasil está em primeiro lugar no ranking de pesquisadoras em nível mundial. Somos a maioria na universidade, sim, mas não conseguimos ficar em evidência durante a carreira. A questão é profunda. Para valorizarmos a carreira científica das mulheres, precisamos tratar da desigualdade de salário, deixar público os casos de assédio e lutarmos para que acabem as nossas dificuldade e diferenciação na hora do financiamento.
A mesa foi encerrada com diversos relatos emocionantes dos presentes no auditório. As atividades das mulheres seguem durante o dia com os GTs  “Desafio das mulheres na Pós-Graduação: maternidade, machismo, racismo, assédio e outros” e “Lugar de Mulher é na Ciência”. Acompanhe as atividades do Congresso da ANPG no Facebook e Instagram @ANPGoficial.
 
 
 
 

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