A Associação Nacional de Pós-Graduandos repudia as intenções do presidente Jair Bolsonaro e seu Ministro da Educação, Abraham Weintraub, em “descentralizar investimentos em faculdades de filosofia e sociologia (humanas)” com a justificativa que essas áreas não dão retorno imediato e melhorias para a sociedade.
Esse posicionamento além de parecer uma tentativa de reviver os anos de banimento dessas ciências do arcabouço educacional brasileiro durante a ditadura militar, demonstra a não compreensão do governo federal sobre a realidade do país e seus desafios assim como desconhecimento sobre os impactos das ciências humanas e suas tecnologias na vida cotidiana da população.
As ciências humanas têm atuado e são responsáveis diretamente pela indução das transformações sociais e econômicas no Brasil ao longo do século passado e do início deste. Não é possível pensar um projeto nacional, com desenvolvimento industrial, tecnológico, geração de emprego e qualidade de políticas pública em qualquer área, sem o arcabouço científico das humanidades. Nada disso é possível, sem conhecimento profundo das origens da nossa formação econômico-social, através da História, dos desafios brasileiros de superação do subdesenvolvimento, da miséria, do analfabetismo, da desnutrição infantil, da carências do envelhecimento num país como o nosso, sem o auxílio das ciências sociais, econômicas, dentre outras.
Muito além disso, é fundamental resgatar que a origem das reflexões sobre relação entre o homem e a natureza, que se traduziram em fórmulas matemáticas e físicas, são antes de tudo, questionamentos filosóficos, sendo a Filosofia a grande estrutura basilar de todas as ciências.
Sendo assim, como seria possível pensar em avanços na medicina sem conhecermos a sociedade em que se manifestam os processos de saúde-doença, tais como no surto do Zika Vírus em 2012? Como enfrentar os desafios da urbanização do país com a engenharia e arquitetura sem conhecer os processos que levaram a formação das cidades brasileiras que estão submersas com problemas de mobilidade, moradia e “desastres naturais”? Como elaborar um projeto nacional de retomada do desenvolvimento brasileiro, com geração de emprego e renda, sem conhecimentos da história de nossas instituições e da industrialização?

Os investimentos na Ciências devem ocorrer de forma equilibrada em todas as suas áreas, já que se trata de conhecimentos complementares, e apenas juntos, são capazes de responder aos desafios brasileiros de superação da recessão econômica, do desemprego, da volta do Brasil ao mapa mundial da fome, do controle de epidemias, da fuga de cérebros e aprofundamento das desigualdades sociais.
O discurso de Bolsonaro e sua equipe da educação é mais uma demonstração do completo despreparo para lidar com toda complexidade de se governar um país com o tamanho e a dimensão do nosso. Mais do que isso, é um projeto que visa colocar o Brasil novamente numa condição subalterna no mundo. Evidencia não apenas sua inépcia em reverter o sucateamento da ciência e da educação, como coloca suas obsessões particulares do “fantasma doutrinador da esquerda” acima dos interesses nacionais.

Neste sentido, a ANPG, entidade representativa dos pós-graduandos no Brasil, se contrapõe com veemência a qualquer medida que vise o desestímulo e a perseguição às Ciências Humanas, e a retomada da Censura no país.

 

São Paulo, 30 de Abril de 2019
Associação Nacional de Pós-graduandos

Write A Comment