22 de novembro de 2016

A cultura da afirmação de ser negro no caso da música

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A música e o futebol foram os meios que propiciaram a maior ascendência de um número muito restrito de pessoas negras no Brasil. As letras das músicas foram espaços para a afirmação do negro, principalmente, a partir da autoria de músicos como Wilson Simonal, Luiz Melodia, Jorge Ben, Sandra de Sá, Jovelina Perola Negra, Leci Brandão, Gilberto Gil e, mais tarde, Mano Brown dos Racionais, Chico César, Negra Lee e Emicida. Nas suas canções observa-se a presença da cultura negra marcada pela oralidade e a expressão corporal.

Esses músicos se empenham em buscar dialogar com o movimento negro e dessa forma quebrar o silenciamento da presença negra na sociedade. O Brasil após o processo de escravidão adotou formas características para tratar das demandas das pessoas negras: o não acesso à educação, a ausência de meios de reparação, marginalização de aspectos culturais, religiosos e sociais. Assim, a memória oral, a religiosidade e a expressão do corpo são negadas em espaços de pessoas brancas.

Para tratar dos elementos que inscrevem a forma brasileira de tratar as questões das pessoas negras é interessante destacar a visão de um estudioso da ilha de Martinica chamado Frantz Fanon (1925-1961). Trata-se de um psiquiatra que estudou na França e escreveu sobre o processo de embranquecimento das pessoas negras. O resultado do trabalho desse estudioso resultou no livro Pele Negra, Máscaras brancas (1952). Na percepção de Fanon, a ideia de humanidade para a Europa, seguida por boa parte dos demais continentes, estava condicionada a cultura e a forma racional das pessoas brancas. A expressão corporal, a ginga e a oralidade, características da cultura negra foram recusadas nos espaços da sociedade dita “humanizada”. Vale trazer a esse contexto o diálogo com a uma mensagem dos Racionais que introduz a música A vida é desafio:

Tem que acreditar! Desde cedo a mãe da gente fala assim: – Filho, por você ser preto você tem que ser duas vezes melhor. Ai, passado alguns anos eu pensei: como fazer duas vezes melhor se você está pelo menos cem vezes atrasado, pela escravidão pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses, por tudo que aconteceu. Duas vezes melhor como? Ou você é o melhor ou é o pior de uma vez! Sempre foi assim! Você vai escolher, o que tiver dentro de sua realidade. Acorda para vida rapaz! É necessário acreditar que um sonho é possível![1]

Deivison Nkosi[2] apresentou essa relação para contextualizar o pensamento de Fanon, que merece ser destacada para ponderar sobre o processo de negação da autoafirmação das pessoas negras. A forma particular do Brasil de camuflar o racismo pela ausência de um processo de segregação legal, como foi o caso dos Estados Unidos, fez com que a sociedade brasileira não cedesse um espaço para autoafirmação do negro brasileiro. O Brasil “é um país de todas as raças, de brancos e negros, e não reconhece essas distinções” esta foi das máximas que ainda hoje repercuti em colocações, principalmente, de algumas pessoas não negras para abrandar os casos de racismo e discriminação que ocorrem diariamente.

Esta forma de atenuar os casos de racismo e de discriminação colaborou para alimentar a dificuldade particular de homens e mulheres em se autoafirmar quanto pessoa negra. Por outro lado, artistas ou esportistas que tocavam muito no assunto, parte de setores da mídia os rotulam ou ignoram suas ponderações sobre essas situações. A forma mais óbvia de neutralizar esta afirmação é fazer com que a pessoa negra se afirme como pardo, moreninho ou mestiço. É um modelo imposto que faz com que as pessoas negras não se autoafirmem por sua cor ou religiosidade, por exemplo. Os movimentos negro reagem e buscam incansavelmente formas para se colocar na sociedade em diferentes espaços.

As ações afirmativas, por exemplo, foi uma dessas formas, que entre seus mecanismos têm as cotas raciais que tem o papel de trazer o reconhecimento das pessoas negras. É uma forma positiva do negro se autoafirmar em um processo de reparação. Como foi dito na introdução da música dos Racionais os mais de cem anos de atraso do negro frente ao branco merecem mecanismos para tentar colocá-lo em outras condições e espaços. Por isto, a afirmação por meio do cabelo afro, do turbante, da música e da literatura são formas de encontro da identificação e da própria composição do negro nos espaços da nossa sociedade.

A música e as artes não têm um fim objetivo ou racionalizado para ter um papel de mudança na síntese destacada até aqui. Essas manifestações têm o poder de trazer para a sociedade a presença de sujeitos, retirá-los do silenciamento e provocar a sensibilidade a partir de suas vivências. Desta forma, auxiliar a percepção da humanização fora de um espaço restrito, por um modelo, a reboque de um quadro fechado. As pessoas negras têm suas expressões e necessitam identificar-se para construir suas referências.

Sidnei Costa Souza, Mestre em Literatura pelo Programa de Pós-graduação em Literatura da UnB e Pos-graduado em Democracia Partipativa pela UFMG.

[2] É Doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFSCAR (2015), defendeu uma tese sobre o pensamento de Franz Fanon. É professor Adjunto da USP. A relação citada foi retirada de um vídeo postado no YouTube intitulado: Introdução ao pensamento de Fanon I, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mVFWJPXscm0 , acessado em: 10/12/2016.

Referências

Araújo. Joel Zito (org.). O negro na TV brasileira. Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2010.

Domingues, Petrônio. Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos. Tempo, 12 (23), 2007. [p. 100-122]. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tem/v12n23/v12n23a07 , acesso em 12/11/2016.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Bahia: Editora Edufba, 2008.

MOURA, Clovis. Dialética radical do Brasil negro. São Paulo: Fundação Maurício Grabois co-edicao Anita Garibaldi, 2014.

Vídeos:

Apresentação dos Racionais no Sesc São Paulo:  https://www.youtube.com/watch?v=52NT9cSWC_8

Introdução ao pensamento de Fantz Fanon por Deivison Nkosi: https://www.youtube.com/watch?v=mVFWJPXscm0