4 de agosto de 2017

A família, Deus e “a voz das ruas” foram esquecidos pelos deputados: sim pela corrupção

Voltar para: Artigos

Aos carcarás

Hoje deus foi esquecido
Quando deus será lembrado?
A família abandonada.
Quando então será lembrada?
Contra Marx e pelo partido,
Mostraram onde a família está:
Seus netos se fartam de carne
Fartam-se de carne humana
E agradecem a deus no jantar.

(Luci Nascimento)

Na sessão deliberativa de análise e de votação da Câmara dos Deputados sobre a denúncia contra o presidente ilegítimo Michel Temer, na última quarta-feira (2), o discurso contra a corrupção em nome de Deus e da família foi esquecido pelos deputados que, na deflagração do golpe de Estado de 2016, votaram pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que não era sequer acusada de crime de corrupção. O discurso que predominou foi o da estabilidade e da governabilidade de um presidente com cerca de 90% de reprovação popular.

“A voz das ruas”, mesmo quando não era uníssona, foi evocada pelos deputados golpistas nas sessões que deram andamento ao golpe entre 2015 e 2016, mas agora não foi citada nos discursos proferidos na sessão, que foi assistida pelo povo brasileiro com expressões de repúdio e vergonha nas redes sociais. Inúmeras marchas e manifestações populares pelo impeachment do presidente ilegítimo e impopular Michel Temer – que chegou a ser recebido na China como Mister Fora Temer, dada a notoriedade internacional da voz do povo nas ruas e nas redes exigindo que ele saia do cargo e que sejam convocadas Diretas já – foram ignoradas pelos deputados que votaram sim pelo arquivamento da denúncia, num total descompromisso com o que se entende por representatividade.

A bancada ruralista, a mais beneficiada pelo governo ilegítimo, manteve-se fiel ao seu benfeitor. Os únicos partidos que votaram em peso contra Temer, a favor da sua investigação, foram o PCdoB, a REDE, o PT e o PSOL. Os acordos entre Temer e os deputados que o protegeram de ser investigado, bem como os conchavos, trocas de favores, as barganhas, foram muitos. E foram notórios. As provas contra Temer foram ignoradas em troca de interesses pessoais e convergentes deste consórcio golpista que não tem e nunca teve moral para falar em corrupção, pois estes deputados são investigados e têm provas contra muitos deles sendo ignoradas pelo judiciário conivente, que também efetuou o golpe de Estado de 2016 e que, quando não é partidário de direita, é fascista. A grande maioria dos investigados na Lava Jato votou pelo arquivamento da denúncia contra Temer.

Não se pode esquecer o grande acordão referido em conversa entre o senador Romero Jucá (PMDB) – então ministro do Planejamento do Governo Temer – e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, “para estancar a sangria”. O propósito destes deputados corruptos era se protegerem mutuamente de investigações e, para isso, precisavam tirar Dilma Rousseff, que dava autonomia aos demais poderes e às investigações da Polícia Federal, e colocar Temer em seu lugar. Afinal, diz a sabedoria popular que quem não deve não teme. Mas Temer e estes deputados têm muito a temer, pois não são poucas as provas.

Chegaram a votar pelo arquivamento da denúncia contra Temer alegando estar votando contra o marxismo, deixando evidente que o que está em jogo é uma luta de classes. Trata-se da luta entre patrão e empregado, entre capital privado e serviços públicos básicos. Manter o presidente ilegítimo é objetivo da direita, que representa as elites deste país e que defende o Estado mínimo, que aprovou a PEC da maldade congelando os investimentos básicos por 20 anos, que aprova reforma do Ensino Médio para retirar disciplinas importantes para a construção de um pensamento crítico sobre a sociedade e o espaço habitado, que precariza as condições de trabalho, acabando com direitos trabalhistas historicamente garantidos pela CLT e que está sucateando as universidades públicas, implementando cortes nas bolsas e que tenta matar os sonhos da juventude brasileira que luta por desenvolvimento da ciência e da tecnologia nacional, pelo desenvolvimento social e pelo combate às desigualdades. Uma direita subalterna à geopolítica de Washington (EUA) que representa uma elite subalterna às elites estadunidenses e europeias: este é o consórcio golpista que atende aos interesses do capital financeiro internacional e das grandes corporações estrangeiras em detrimento do desenvolvimento nacional brasileiro e da diminuição das desigualdades. A fome voltou a crescer e se tornar um índice que envergonha o país. As estudantes e os estudantes já estão vendo suas universidades fechando as portas. A pesquisa e a ciência no país, tão importantes para o desenvolvimento, estão sendo pressionadas pelo desinvestimento da política de Temer, que aconselhou em uma de suas falas em reunião com os industriais brasileiros, a darem prioridade, na hora de contratar, a estudantes que tenham estudado no exterior, “para desenvolver a indústria nacional”. Paralelamente a isso, acabou com o Ciência sem Fronteiras e impõe cortes e contensões de gastos às universidades públicas.

Em cumplicidade a todo este cenário de crise e desinvestimento na ciência, de desestruturação do Ensino Médio, precarização do trabalho e risco de uma reforma encaminhada por Temer que põe fim à previdência, os 263 deputados votaram sim pelo arquivamento da denúncia para que ele não seja investigado e se mantenha no poder.

 

Lucivânia Nascimento dos Santos (Luci Nascimento)
 Vice-presidenta regional Nordeste da ANPG

*As opiniões aqui reproduzidas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião da entidade.