Assim como na sociedade em geral, as mulheres são maioria entre estudantes matriculados em cursos de pós-graduação, cerca de 54%, segundo dados da Capes. Não deixa de ser um dado formidável, já que o machismo impõe barreiras à afirmação feminina.

No entanto, os números não escondem as dificuldades históricas a serem superadas. Desde o assédio no ambiente acadêmico até a compatibilização entre as exigências da maternidade e a pesada rotina da pesquisa científica, são muitos fatores que concorrem para a maioria verificada entre discentes não se refletir na carreira acadêmica.

Entre quase 70 mil docentes universitários atuando na pós que o país tinha em 2019, apenas 42,9% eram mulheres. Embora esse número venha crescendo, tendo passado de 37,6% para o patamar atual, desde 2004, o déficit ainda é grande.

O movimento de pós-graduandos não está alheio a tal realidade e tem apresentado pautas para assegurar a permanência feminina na carreira acadêmica e na pesquisa científica. Uma dessas propostas é a licença-maternidade para as pós-graduandas gestantes, reivindicação apresentada pela ANPG que foi absorvida pela Capes e virou lei aprovada pelo Congresso Nacional.

Outra demanda é a possibilidade de inclusão da maternidade no Currículo Lattes, forma de demonstrar que a produtividade acadêmica cobrada pelas agências não pode ficar alheia à condição da mãe cientista. A ideia surgiu do estudo “Parent in Science”, que ouviu 1.182 pesquisadoras, sendo 921 mães, e concluiu que a maternidade impactou negativamente a vida profissional de 81% delas.

Para Flávia Calé, presidenta da ANPG, há um problema estrutural na forma como as carreiras científicas se desenvolvem que dificulta a inserção feminina. “A lógica produtivista dos padrões atuais não leva em conta a dinâmica da vida das mulheres, em especial das mães, mas também das mulheres em geral. Os cuidados na sociedade, sobre idosos, doentes e crianças, recaem sobre as mulheres. A academia e a pesquisa científica precisam se adaptar a essa realidade. Isso significa um plano de carreira que valorize essas atividades”.

Na mesma linha, Stella Gontijo, vice-presidenta da ANPG, aponta que é preciso investir em mais políticas públicas que garantam a permanência das mulheres na pós-graduação, a começar do reajuste das bolsas de estudos. “É fundamental conseguir auxílios parentais para essas mulheres, como auxílio-creche ou o direito à creche da universidade. É fundamental o acesso a uma política de permanência que garanta que essas mulheres possam estar e avançar na sua carreira dentro da pesquisa e da produção de ciência”, afirma.

Flávia aponta ainda que é necessário apresentar a perspectiva científica desde a infância para as garotas, para quebrar o estigma de que certas profissões são masculinas e outras femininas. “É muito importante o estímulo ao conhecimento desde o início da vida, o ensino das chamadas ciências duras. Isso implica mudar a estrutura educacional para que a ciência esteja perto das meninas desde a infância e durante a fase escolar”, afirma.

Igualdade de renda não acompanha inserção no mercado

Desde a década de 1970, aumentou vertiginosamente a participação feminina no mercado de trabalho, o que não foi se materializou com a mesma intensidade na relação salarial. É o que indica a pesquisa da economista Laísa Rachter, da Fundação Getúlio Vargas, que comparou os dados dos censos desde 1970 até 2010 e a PNAD-Contínua de 2020 – o Censo 2020 foi adiado por falta de alocação de recursos pelo atual governo.

Se as mulheres passaram de 20% para 42% da força de trabalho no mercado nesse intervalo de 50 anos, a média da desigualdade salarial ainda é de 19% em desfavor delas. A disparidade se agrava nas profissões de maior renda: ainda hoje, as mulheres recebem, em média, 33% a menos que os homens em carreiras consideradas bem remuneradas, como medicina e engenharia, por exemplo. E, pior, o abismo se aprofunda com o aumento da idade.

Tal como nas carreiras ligadas à academia e à pesquisa científica, a explicação para a persistência da desigualdade de salários no mercado de trabalho em geral, recai sobre as atividades relacionadas aos cuidados. “A maternidade, os filhos e os afazeres domésticos ainda pesam mais sobre as mulheres, e demandam mais flexibilidade. A cultura organizacional ainda promove os profissionais baseada em critérios masculinos, como estar totalmente disponível ao trabalho ou trabalhar várias horas”, apontou Laísa, em entrevista à CNN.

Em uma sociedade em que o machismo ainda é uma dura realidade, o Dia Internacional das Mulheres continua sendo momento de reafirmar: “lugar de mulher é onde ela quiser”.

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