Resposta a José Goldemberg – Por Leandro Peña-Salvatico

carteira de estudante

 
Por Leandro Peña-Salvático

 
Guardado o devido respeito aos trabalhos publicados por José Goldemberg na área de energia, as recentes publicações dele no Jornal “O Estado de São Paulo” ("Universidade e Meritocracia" e "Cotas – Todos perdem, ninguém ganha") merecem uma análise cuidadosa para descontruir argumentos erroneamente apresentados e informações manipuladas ou inventadas pelo autor.
 
É alarmante ver um Ex-Reitor da maior Universidade do Brasil defender ideias extremamente atrasadas e criticar todas as pautas de todos os movimentos sociais que lutam pela democratização da USP e do Brasil, ao posicionar-se contra:  as Cotas e as Eleições Diretas para Reitor na USP;  a vindo de médicos estrangeiros para suprir a demanda e até o voto universal na forma de Plebiscito para decidir os rumos do país.
 
Ele só não é contra a corrupção recentemente desmascarada no Governo Paulista, governo este que ele fez parte em cargo comissionado (como Secretário) e que o indicou para o cargo de Reitor na USP que ocupou. Talvez ele tenha apenas "esquecido de falar disso". Não julguemos-o! 
 
Passada a fase de “apresentação”,vou desconstruir seu argumento Anti-Cotas.
 
Não bastasse o artigo “Cotas – Todos perdem, ninguém ganha”, escrito pelo autor há alguns meses no mesmo Jornal, ele volta no assunto neste artigo com argumentos falaciosos e, se eu não soubesse que ele é um leigo no tema “Inclusão Social” (baseado no fato que ele nada fez com o tema enquanto ocupou o cargo de Reitor e tampouco artigo na área) eu pensaria que ele usou de má-fé ao dizer que “no curto e no médio prazos [as Cotas] tendem a baixar o nível das universidades”, pois existem diversos estudos apontando exatamente o contrário.
 
Os cotistas, para quem não sabe, têm desempenho igual e às vezes até superior aos não-cotistas e ainda possuem uma menor taxa de evasão, o que diminui o “investimento-por-aluno-formado” do sistema educacional, afinal, quando um aluno deixa a Universidade, todos perdemos, e é (também) por isso que aos cotistas melhor se aplicaria a frase “Cotas – Ninguém perde, todos ganham”. 
 
O bom desempenho dos cotistas no decorrer do seu curso universitário desmascara um conceito defasado e que o autor usa de forma errônea e com exemplos frustrantes(ou hilários – avalie você mesmo), com o de Napoleão Bonaparte, homem-branco-europeu que tornou-se um Grande Ditador, com Mérito. Talvez, o meio de medir o “mérito de Napoleão” (não citado pelo autor) tenha sido o número de cabeças cortadas pelo Ditador Merecedor, cujo maior mérito na vida, na minha sincera opinião, foi ser expulso derrotado da pequena ilha do Haiti, na 1ª Revolução Escrava da história da humanidade. Napoleão, sim, mereceu aquela derrota!
 
Para piorar a estratégia argumentativa, o autor erra ao afirmar que as Cotas Sociais e Raciais implementadas pelo Governo Federal, pela Leinº 12.711/2012 “estabelecem um novo tipo de discriminação: contra o branco pobre (em relação ao negro pobre) e contra o pobre (branco ou negro)”, mas não fala o modelo aprovado. Este absurdo jamais passaria num peer-review.
 
Trata-se de manipulação de informação, pois as Cotas aprovadas incidem 50% das vagas de cada curso, turno e sala de aula oferecidos, que passam a ser destinadas a estudantes oriundos de escolas públicas ou que estudaram com bolsa em escola privada, com renda per capta familiar inferior a 2,5 salários mínimos e respeitando o percentual de negros e indígenas no Estado onde a Universidade está instalada. 
 
Hoje na USP,apenas 25% das vagas são ocupadas por alunos oriundos de escola pública e não há recorte de renda nem tampouco divulgação desta informação e apenas 12% dos alunos são negros (pretos ou pardos), sendo que esse número cai a níveis inferiores a 1% na Engenharia, Medicina e outros “cursos de elite”. O cenário atual é a ocupação das vagas na USP por pessoas brancas de alto poder aquisitivo.
 
Para mudar a realidade atual e futura, as Cotas beneficiam negros E brancos, para que TODOS pobres possam ter acesso à Educação que eles pagam por ela, uma vez que as classes dominantes pagam menos impostos em termos absolutos. Defender a manutenção do status-quo de acesso é defender a concentração do conhecimento e,em última instância, a concentração do poder nas mãos da classe dominante. 
 
Pela manutenção do poder, ao longo da história, já se mentiu muito! Ainda se mente bastante.
 
Perguntemos ao autor, quantos PROF.s NEGROS/AS têm no Instituto de Energia e Ambiente da USP? 
A resposta é ZERO, não há… mas tudo bem, não é? Afinal, quem tem mérito de verdade é o Napoleão Bonaparte e não os filhos da classe trabalhadora que sustentam este país.  Berço-de-ouro é “mérito”, bom desempenho não!
 
Enegrecendo o conceito de mérito, como declarou o Ministro do STF Ricardo Lewandówisk no seu voto pela Constitucionalidade das Cotas, ele só pode ser medido quando se oferece condições iguais de preparação aos envolvidos, o que não é o caso da preparação para vestibulares, onde as populações envolvidas não possuem condições matérias nem sociais de competirem pé de igualdade e no Brasil ainda têm o agravante da herança histórica da escravidão, que trouxe com ela a exclusão e, até o momento, um racismo cruel e desmotivador.
 
Ao se apropriar da frase de Karl Marx, intencionalmente ou não, o autor manipula o sentido desta para fazer-nos crer que a frase "cada um daria de acordo com suas habilidades e cada um receberia de acordo com suas necessidades" justifica manter ou até aumentar a exclusão racial da Academia brasileira, onde menos de 10% dos professores são negros e o percentual de alunos nunca se iguala ao percentual da composição desta raça no Estado.
 
Ou será que o que ele queria dizer era que “pretos e pobres não necessitam e/ou não tem habilidades para estudar”, e se tiver (mesmo que muitas), que paguem por isso! Afinal, o governo tucano que ele fez parte quintuplicou as vagas no ensino superior privado, enquanto sucateava sistematicamente as Universidades e empresas públicas, pré-privatização.
 
Aristocracia, diferente do que supõe o autor que seja, se assemelha ao que temos na USP hoje, onde 100% dos Professores membros do Conselho que gere a Universidade (Diretores de Deptos) é formado por pessoas brancas, majoritariamente homens e que se acham tão “merecedores de estarem ali” que se fazem de cegos frente à dados científicos que mostram que os cotistas têm mérito, pois têm um melhor aproveitamento do curso, e pensam que sabem votar melhor que o povo (que é burro e sem mérito). 
 
O deslize conceitual do autor caracteriza-se como um des-serviço à academia e, principalmente, à população brasileira, mas a luta do povo negro não cessará nem pelo Direito à Educação e nem pelo Direito à Vida, em meio ao genocídio que nos assola.
 
Por democracia no acesso à Universidade e na escolha do próximo Reitor… lutaremos!
 
#COTAS RACIAIS NA USP JÁ!
 
#DIRETAS PARA REITOR DA USP JÁ!