Manuelle Matias, vice presidenta da ANPG em entrevista para Campus sobre as suspensões nas bolsas de pós-graduação.

 

Um “cenário de terra arrasada na ciência”. A previsão para os estudos científicos no Brasil não é animadora, segundo a vice-presidente da Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG), Manuelle Matias.

Em entrevista exclusiva para o Campus, Manuelle falou sobre os recentes suspensões de bolsas anunciadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Somente na Universidade de Brasília, a previsão de cortes é de 123 bolsas de pós-graduação, segundo a universidade.

Atualmente, o número de bolsas para mestrandos e graduandos é de 200 mil. A CAPES informou que aproximadamente 3,5 mil foram suspensas neste mês. No entanto, a instituição afirma que “todos os estudantes e pesquisadores que têm bolsa da CAPES em vigor terão os seus auxílios financeiros mantidos”.

A vice-presidente da ANPG também falou sobre outros cortes de bolsas, porém na CNPq. O Campus procurou a instituição, mas, até o momento desta reportagem, não obteve resposta.

Confira a entrevista exclusiva:

Campus – Na prática, como acontece às suspensões?

Manuelle Matias – “Na quarta-feira (8), as entidades científicas, estudantis, pesquisadores, docentes, foram surpreendidos com a notícia da suspensão das bolsas CAPES que, segundo o governo, estariam “ociosas”. Na verdade, essas bolsas não estão ociosas, elas estavam sendo utilizadas por estudantes que terminaram suas pós-graduações, mas disponíveis para serem realocadas prontamente a outros estudantes que estavam a espera dessas bolsas. Além disso, segundo o ministro de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, o orçamento destinado ao CNPq só garante o pagamento das bolsas até setembro, depois disso ninguém sabe o que será feito”.

Campus – Qual o papel da associação?

Manuelle Matias – “A ANPG tem o papel de representar os pós-graduandos e pós-graduandas brasileiros nas suas lutas, pela garantia de assistência estudantil, por condições dignas de pesquisa, para a garantia de direitos aos pós-graduandos e pela regulamentação da profissão de pesquisador/cientista, na defesa da educação pública, da universidade pública e da ciência nacional para a garantia da soberania e desenvolvimento do nosso país. Porque a gente entende que mais recurso para a ciência é investimento estratégico e rentável e não gasto. Infelizmente o governo Bolsonaro não tem essa compreensão, a julgar pelas últimas medidas”.

Campus – Qual a posição da associação sobre os recentes cortes tanto nas universidades como nas bolsas da CAPES?

Manuelle Matias – “Somos terminantemente contra os cortes. Sobre os cortes nas universidades, nós sabemos que 95% da produção científica nacional é feita nas universidades, em especial na pós-graduação, com o protagonismo muito forte dos pós-graduandos e pós-graduandas. Os cortes na universidade vão impactar diretamente na manutenção básica, em despesas como água, luz, manutenção básica, pagamento de terceirizados. Isso pode inviabilizar o funcionamento das universidades que não vão ter estrutura para acolher os estudantes de graduação, pós-graduação, docentes, técnicos e toda a comunidade acadêmica. Se a suspensão das bolsas se mantiver, não haverá recursos para que pós-graduandos subsidiem suas pesquisas e dêem conta de sua sobrevivência material. Isso porque hoje a gente tem um cenário de defasagem absurda das bolsas que estão há seis anos sem reajuste. Então é preciso falar também dessa necessidade de correção monetária, porque já é difícil fazer pesquisa nesse cenário de defasagem das bolsas. Com a suspensão de novas bolsas, os jovens cientistas brasileiros deixarão de ver a pós-graduação e a ciência como um caminho com perspectiva de atuação, os cursos de pós-graduação vão fechar, vamos sentir esse impacto negativo na produção científica nacional. Se esses cortes se mantiverem, vamos ter um cenário de terra arrasada no Brasil, caos instalado”.

Campus – Atualmente, a CAPES oferece 200 mil bolsas para pós-graduandos. Existe alguma área de conhecimento que deve ser mais afetada?

Manuelle Matias – “A CAPES ainda não divulgou as áreas afetadas. Mas a julgar pelos recentes posicionamentos do ministro da Educação e do próprio presidente da República, rechaçando as ciências humanas, o que demonstra o fato de desconhecerem o papel e a importância que as ciências humanas exercerem em todas as áreas do conhecimento inclusive na formulação das políticas públicas, acredito que essa área possa sofrer fortemente com essas medidas”.

Campus – Hoje, os estudos na pós-graduação são responsáveis por grande parte do trabalho científico no Brasil. Qual o impacto das suspensões na ciência produzida no Brasil?

Manuelle Matias – “Isso. A maior parte das pesquisas científicas é feita nas universidades com investimento público, na sua maior parte. A gente tem dados que mostram que a maior parte dos estudantes das universidades federais são provenientes de famílias que não atingem uma renda de um salário mínimo per capita. São pessoas que, graças às políticas de democratização e acesso a educação promovidas por exemplo pelo Reuni, conseguiram acessar a universidade e a pós-graduação. Infelizmente, se esses cortes permanecerem, a gente vai ter esvaziamento da universidade e da pós-graduação por falta de condições materiais que garantam a permanência desses jovens pesquisadores. Vai ser um cenário de caos instalado na ciência”.

Campus – O que esperar para o futuro com esses cortes?

Manuelle Matias – “Esses cortes vão ceifar o futuro de jovens pesquisadores e cientistas no Brasil, vamos permanecer à margem, aquém das nossas possibilidades de desenvolvimento nacional – que são infinitas. Vamos perder a oportunidade de agregar valor a nossas mercadorias, vamos estagnar as pesquisas e a possibilidade de desenvolver novas tecnologias. Vai haver uma diminuição abrupta da produção científica nacional, vamos sofrer em todas as áreas”.

Campus – Quais serão as providências que a associação pretende tomar para retroagir esses cortes?

Manuelle Matias – “A ANPG entrou com um mandado de segurança junto às entidades estudantis, UNE e UBES para reverter o corte nas universidades. Além disso, estamos puxando assembléias, atos, reuniões nas universidades mobilizando para o Dia Nacional de Paralisação da Educação que irá confluir para uma Greve Nacional da Educação junto às entidades da área da educação, sindicatos, docentes, pesquisadores. Estamos junto a parlamentares em várias frentes de luta na Frente Parlamentar pela valorização das universidades federais. Nessa quarta-feira (8), inclusive, lançamos no Congresso Nacional a Iniciativa para a C&T no Parlamento (ICTP.br). Estamos em diálogo e buscando linhas de atuação conjunta com as entidades científicas, movimentos sociais e toda a sociedade civil para que possamos defender a ciência e a educação nesse contexto de desmonte e colapso da ciência e da educação no Brasil. Mas a gente aposta sobretudo na mobilização e no protagonismo dos estudantes graduandos e pós-graduandos, professores, pesquisadores e toda a sociedade civil para reverter os cortes e o crime que o governo Bolsonaro tem imposto à ciência, à educação e às políticas públicas no Brasil. Disso a gente não abre mão e não sairemos das ruas até reverter esse cenário devastador”.

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