Gastos pessoais do Cartão Corporativo de Bolsonaro pagariam até 22.750 bolsas de iniciação científica um ano inteiro de 1.895 pesquisas científicas.

Por Ergon Cugler é pesquisador da USP (Universidade de São Paulo), associado ao OIPP (Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas) e ao Getip (Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública) da Each (Escola de Artes, Ciências e Humanidades).

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No Brasil, um pesquisador universitário recebe uma bolsa de R$ 400,00 mensais; valor que há anos não tem reajuste, que não conta com décimo terceiro, licença, seguro de vida, férias ou quaisquer direitos trabalhistas. Ainda assim, esse pesquisador precisa se resolver com seus horários, passando até 12 horas no laboratório por dia, ou mais tempo diante do computador para organizar seus dados.

Mesmo com tamanho empenho, nos últimos anos tivemos que lidar com cortes e contingenciamentos de bolsas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), interrompendo projetos de pesquisa e deixando cientistas vulneráveis, por terem dedicação exclusiva a seus projetos e, consequentemente, as bolsas como única fonte de renda.

Observando o macro, em 2019, o orçamento executado pelo MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações) foi de apenas 0,36% do orçamento total do país. Mais grave, entre janeiro e abril de 2020, esse valor caiu para 0,153%. Somente dois terçosMenos da metade dos recursos do MCTIC, porém, são diretamente destinados para bolsas da Capes e do CNPq, resultando em apenas 0,106% do orçamento da União para os cientistas brasileiros que estão envolvidos, dentre outras pesquisas, no combate aos efeitos da pandemia da covid-19.

Ainda no cenário de incertezas, com a publicação da portaria que estabelece “Áreas de Tecnologias Prioritárias” como exclusivas para recursos, as bolsas de iniciação científica para humanidades passam a ser excluídas do financiamento da CNPq até 2023. Ocorre que, para além da linha de frente dos cursos da área da saúde e biológicas, as ciências humanas também se somam no combate direto aos diversos efeitos da pandemia.

Segundo mapeamento do OIPP (Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas) da USP, centenas de cursos da área de humanidades desempenham iniciativas como acompanhamento psicológico, atividades de lazer, cultura e entretenimento a distância para promoção da saúde física e mental. Ainda, estrategicamente, as ciências sociais aplicadas elaboram mapeamentos técnicos para auxiliar governos, redes logísticas para distribuição de insumos médicos ou alimentos, análises de projeções da propagação da pandemia e orientações sociais e econômicas durante o isolamento social.

Em meio à rede de solidariedade que se constitui entre as universidades, com milhares de estudantes e pesquisadores se dispondo a colaborar, a transversalidade das áreas de ensino, pesquisa e extensão se mostra cada vez mais necessária para a superação da pandemia. Pois é evidente que a guerra contra o vírus demanda expertise médica e técnicas diversas do campo da saúde, mas a superação de uma crise multidimensional demanda respostas multidimensionais.

No entanto, enquanto a ciência é subfinanciada e desmoralizada em meio a uma crise sem precedentes, vale recordar que com o valor dos gastos pessoais do cartão corporativo de Jair Bolsonaro em seu primeiro ano como presidente, seria possível pagar até 22.750 bolsas de iniciação científica ou um ano inteiro de 1.895 pesquisas científicas, demonstrando que o problema não é tão somente falta de recursos, mas decisão política.

Para além das ameaças mais explícitas dos cortes de bolsas, a disputa que o atual governo trava contra a ciência tem dificultado cada vez mais a implementação de políticas sérias e comprometidas com a melhoria da vida do povo. Exemplo é a demissão de Ricardo Galvão da presidência do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em que a penalidade não cai sobre quem pratica o desmatamento e estimula queimadas, mas sobre o cientista que denuncia tais crimes.

Ao redor do mundo, vemos a imobilidade negacionista causada por teorias conspiratórias no núcleo de governos ser varrida pelo avanço explícito do vírus. No Brasil, porém, seguimos lidando com a negação científica por parte do Estado, fazendo do combate à pandemia um desafio ainda maior para a nossa comunidade científica. Ocorre que, se em meio à rotina, o país governado pelo obscurantismo já colhe tragédia, durante uma pandemia, a letalidade passa a ser potencializada pela irresponsabilidade e ingerência daqueles que nos governam.

Evidência disso é um estudo realizado por economistas da FGV (Fundação Getulio Vargas) e da Universidade de Cambridge, que aponta relação direta de causa e efeito entre as declarações do presidente contrariando recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e o não cumprimento do isolamento social pela população.

O que alguns chamam de balbúrdia, na realidade, significa a sobrevivência de pesquisas para combater a pandemia e diversas outras doenças ou demandas do país, pois sem operação logística, planejamento estratégico, projeção demográfica e conhecimentos sociais diversos não existe técnica ou medicamento que possa ser implementado em larga escala — mais ainda diante das complexidades regionais e desigualdades existentes no Brasil.

Diante da crise que enfrentamos, fica a certeza de que apenas com a valorização, articulação e o financiamento programático das diversas áreas das ciências poderemos traçar a superação dos efeitos a médio e longo prazos, para além da urgência sanitária. Por enquanto, com o chefe de Estado na contramão do enfrentamento real da pandemia, sobrecarga, angústia, vulnerabilidade e muita coragem se tornam mais que palavras na rotina de nossos cientistas.

 

 

 

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