4 de setembro de 2015

Assédio moral na pós-graduação: uma situação corriqueira a ser combatida

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Por Iolanda Araújo* e Janaína Betto**

O assédio moral se configura através da exposição a situações humilhantes, degradantes e constrangedoras, podendo se dar através de atitudes, gestos, palavras faladas ou escritas. Sua prática é mais comum quando envolve relações hierárquicas, autoritárias ou assimétricas. Essas situações podem ser consideradas frequentes em instituições de ensino, tendo como principal característica a desqualificação pessoal da vítima.

Ações que desvalorizam, humilham e isolam a vítima também se caracterizam o assédio moral. Essas ações podem ser isoladas (direcionadas a uma pessoa) ou repetidas e coletivas (com toda uma turma de estudantes, por exemplo). A consequência do assédio é o dano moral, sentido das mais variadas formas pela vítima.

Talvez um dos principais problemas a ser enfrentado é a naturalização do assédio moral, muitas vezes encarado como um comportamento normal. Outra dificuldade está em identificar os casos de assédio pelos quais passamos. Confira o quadro abaixo dos principais tipos de assédio:

assedio-moral

É provável que você tenha lido isso e identificado que já passou por alguma – ou algumas – das situações citadas no quadro ao lado. Infelizmente, os casos de assédio são mais comuns do que pensamos. As categorias de assédio moral no ensino superior parecem se acentuar no ambiente acadêmico da pós-graduação, pois muitas vezes esse espaço se constitui através de relações hierárquicas e de dependência, onde professores/orientadores que se sentem no direito de subjugar alunos/ orientados por ter uma titulação e um cargo “superior”, e os estudantes, na maioria das vezes, se mantém ou são colocados na condição de submissos devido as inúmeras consequências que um desentendimento nessa relação pode gerar.

Sabemos dos inúmeros efeitos psicológicos e até mesmo físicos que podem vir a se desenvolver devido à prática de assédio moral, levando inclusive a afetar a saúde mental dos pós-graduandos. Nos encontramos em um ambiente onde trabalhamos a construção do conhecimento e relações saudáveis são essenciais para o pleno desenvolvimento dos trabalhos realizados pelos pós-graduandos, tão importantes para a sociedade.

Entendemos que as relações no âmbito acadêmico devem ser pautadas por respeito mútuo entre estudantes e professores, bem como entre técnicos e demais servidores.

Foi neste sentido que disponibilizamos desde fevereiro deste ano uma Ouvidoria própria da APG-UFSM para garantir um canal direto de denúncia e combate ao assédio moral na pós-graduação. Por último, ressaltamos que, se você é estudante e está passando por algum tipo de assédio, NÃO SE CALE! Denuncie as situações ocorridas no âmbito de sua universidade e vamos garantir relações dignas de trabalho e convivência na pós-graduação.

Referência:
COLETA, José Augusto Dela; MIRANDA, Henrique Carivaldo Neto de. O rebaixamento cognitivo, a agressão verbal e outros constrangimentos e humilhações : o assédio moral na educação superior. 2011.

*Iolanda Araujo é doutoranda em Extensão Rural na UFSM e da Coordenação de Assistência Estudantil da APG-UFSM.

**Janaína Betto é mestranda em Extensão Rural na UFSM e da Coordenação Geral da APG-UFSM.

Arte: Marcelo Rauber

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Uma ideia sobre “Assédio moral na pós-graduação: uma situação corriqueira a ser combatida

  1. Thiago Pereira Henriques

    Olá,
    Este é um assunto de extrema importância mas que nunca teve a devida atenção. Infelizmente, assédio moral no meio acadêmico é uma prática muito comum e que pode sim levar a efeitos devastadores nos alunos. Conforme mencionado no texto, isso ocorre não apenas na relação entre professor e aluno, como também na pós-graduação, na relação orientador-aluno.
    Tive uns dos piores anos da minha vida durante meu doutorado em Fisiologia na UFRGS graças ao meu ex-orientador (que chamarei de “A.L.”). Além de ser um orientador ausente, A.L. costuma eleger alguns orientados para maltratar. Suas vítimas são tratadas com arrogância, desprezo, grosseria e indiferença. Esses alunos acabam ficando até doentes: eu e outros entraram em depressão, um colega desenvolveu gastrite. Essas vítimas concluíram o curso com a autoestima destruída – com sentimento de que eram inferiores, incompetentes e incapazes graças aos maus tratos a que eram submetidos de A.L.
    Uma vez fui agredido fisicamente por um dos seus alunos favoritos, no entanto, A.L. foi totalmente omisso e até justificou a agressão do meu colega mau caráter. Seus alunos preferidos aqueles que o bajulam, são protegidos e recebem um tratamento diferenciado. Além de eu ser constantemente humilhado e tratado como incompetente, passei a ter meu trabalho boicotado pelo meu próprio (ex) orientador! O eminente Sr. A.L., professor e pesquisador que estima muito seu precioso “nome”, queria impedir que eu continuasse meus experimentos, que eu publicasse e que eu concluísse meu doutorado!
    Tive que recorrer aos professores responsáveis pelo acompanhamento discente no PPG. Relatei os problemas e, não surpreendentemente, eles disseram que nunca nenhum aluno havia reclamado de A.L. Apesar de muitos orientados já terem sofrido nas mãos do meu ex-orientador, obviamente todos tinham medo de reclamar, temendo retaliação de A.L. Foi o que aconteceu comigo: apesar de A.L. ter assinado no início do meu doutorado um termo de compromisso que o tornava responsável pela minha formação, ele resolveu abandonar a orientação no final do doutorado.
    Contudo, felizmente minha história terminou bem. No fim das contas, perder a péssima orientação de A.L. foi a melhor coisa que aconteceu no meu doutorado! Graças aos queridos professores do PPG, os quais sempre foram muito atenciosos, ganhei duas novas orientadoras maravilhosas! Assim, meu doutorado finalmente começou a andar, a ser bem encaminhado. Isso sem falar que minhas orientadoras me tratavam com respeito e dignidade, eram humanas. E apesar de A.L. ter se esforçado para me destruir, consegui concluir meu doutorado e tive meu trabalho bem elogiado pela banca.
    Todas Universidades deveriam ter ações que coibissem o assédio moral praticado pelos seus professores para que os alunos não fossem mais submetidos ao sofrimento que eu e muitos outros alunos passaram (e continuam passando). Esse tipo de crueldade é bastante prejudicial ao desempenho acadêmico e à saúde do aluno. Esse tipo de “orientador” não deveria ter alunos para dar essa péssima “orientação”.
    Abs,
    Thiago

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