3 de abril de 2017

Estresse e depressão na pós-graduação: uma realidade que a academia insiste em não ver

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Todas as pesquisas disponíveis sobre o assunto indicam claramente que os índices de depressão e outros distúrbios psíquicos são assustadoramente altos na pós-graduação. O problema se torna ainda mais grave com a insistência da academia em não o enfrentar. Veja nesse artigo uma discussão detalhada sobre os dados disponíveis e uma tentativa de descobrir a origem desse grave problema.

Uma pesquisa na UFRGS

Em outubro de 2013 eu e os queridos amigos Gabriela Blanco e Glauco Araújo – na época pós-graduandos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – realizamos uma pesquisa pela Associação de Pós-Graduandos da UFRGS (da qual éramos os três diretores) sobre as condições socioeconômicas dos estudantes de pós-graduação desta universidade.

Nosso objetivo era levantar dados que nos permitisse comprovar para a Reitoria da UFRGS que os pós-graduandos tem sim demanda por assistência estudantil. Na época a UFRGS se negava a conceder vagas na moradia estudantil da universidade para pós-graduandos.

Como não havia qualquer dado sobre isso decidimos nós mesmo (pela APG-UFRGS) conduzir uma pesquisa. Utilizamos como base para o questionário socioeconômico uma pesquisa realizada pelo departamento de sociologia da própria universidade com os estudantes há uns 10 anos antes. Entretanto, por essa época eu tinha lido uma pesquisa inglesa “Under a cloud: Depression is rife among graduate students and postdocs” publicada na Revista Nature em outubro de 2012 (confira aqui: http://www.nature.com/naturejobs/science/articles/10.1038/nj7419-299a) que afirmava que os índices de depressão entre pós-graduandos na Inglaterra eram altíssimos. Eu propus inserirmos algumas questões relativas à saúde mental no questionário. Uma delas era a seguinte:

“Você já sentiu ou sente alguns desses problemas em algum momento após ter entrado em um curso de pós-graduação?” (a mesma pergunta feita na pesquisa inglesa) Eram dadas algumas opções, eis o resultado:

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A pesquisa foi conduzida simultaneamente entre estudantes do Lato Sensu (cursos de especialização) e Stricto Sensu (mestrado e doutorado) da universidade. Os números apontam claramente a deterioração das condições de vida dos estudantes do mestrado e doutorado.

Em todos as alternativas mestrandos e doutorandos apresentaram uma frequência maior de problemas. Os mestrando e doutorandos da UFRGS em 2013 estavam aproximadamente 3 vezes menos sociáveis, 2 vezes mais irritados, 1 vezes e meia com mais problemas de apetite e menos motivados, e quase 1 vezes mais com problemas para dormir do que os estudantes dos cursos Lato Sensu, de acordo com as respostas.

Outros estudos sobre depressão e estresse na pós-graduação: UFRJ e UNESP.

Coincidência? Uma particularidade da UFRGS? A comparação com outros estudos conduzidos no Brasil indica que não. Pesquisa publicada em 2009 na Psicologia em Revista mostra dados em que 58,6% dos estudantes de pós-graduação da UFRJ (que foram entrevistados) estavam com algum nível de estresse.

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Em outro estudo, dessa vez de 2005 com estudantes de pós-graduação do curso de Medicina Veterinária da UNESP Botucatu e Jaboticabal afirma-se:

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Este estudo aponta que 89% dos estudantes apresentavam sintomas de ansiedade, 64% de angústia, 63% de desânimo e 61% com dificuldades de concentração. Veja parte dos dados publicados no estudo abaixo:

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Processo de avaliação e o adoecimento dos estudantes.

Infelizmente, a regra atualmente nos programas de pós-graduação é punir os estudantes que, em virtude da deterioração das condições da qualidade de vida, tem seu desempenho acadêmico prejudicado.

Não é incomum que a Associação Nacional de Pós-Graduandos receba reclamações de pós-graduandos com dificuldades para pedir, ou renovar, prazos de titulação e qualificação em virtude de afastamentos comprovadamente causados por doença no período de realização do mestrado e doutorado.

Infelizmente os dirigentes acadêmicos (não todos, mas em grande proporção) continuam insensíveis para o problema. Por quê? Em primeiro lugar, há uma certa cultura na academia do “no pain, no gain”. O “sacrifício” da vida pessoal é exaltado como meio para alcançar a excelência acadêmica. Isto se combina com um ambiente que incentiva uma competição sem limites, ora por prestígio, ora pelos próprios recursos financeiros – cada vez mais minguados nos últimos 2 anos – para se realizar as pesquisas acadêmicas. Parte do problema, eu avalio, se deve a combinação em larga medida do modo como é organizado o sistema de avaliação acadêmica da pós-graduação e a essa ideologia do “sacrifício individual”.

Nesse quesito ocupa um lugar proeminente a própria política de avaliação dos Programas de Pós-Graduação da CAPES. Ela incentiva um ritmo de produção acadêmica desmesurada. Os programas são avaliados levando-se em conta fatores como número de publicações e tempo de titulação dos discentes. A regra básica, que todo estudante de pós-graduação sabe por experiência própria é: quanto mais publicações, quanto mais participação em eventos, quanto menor tempo de titulação: melhor a nota do programa e sua própria posição pessoal dentro do sistema de avaliação de seu programa. E consequentemente mais recursos para as pesquisas e reputação entre os seus pares.

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Porém, não há um limite para o quanto essa fórmula (mais produção no menor tempo) pode ser estendida. Isto provoca uma aberração no sistema de avaliação. Me lembro perfeitamente quando um professor da Universidade Federal de Santa Maria contou em uma atividade que pude participar lá representando a ANPG que havia colegas dele, professores da UFSM, que tinha uma média de 1 publicação de artigo a cada 10 dias registrado no Currículo Lattes no último ano. Com razão este professor perguntou: isso é factível?

Obviamente não. Inexiste pesquisa científica no mundo atual capaz de render – por um ano todo – uma publicação de artigo a cada (em média) 10 dias. O xis da questão é que as notas da CAPES em relação aos programas funcionam de acordo com uma escala móvel. Não há um padrão pré-definido de desempenho (atualmente), se um programa puxa o quociente de artigos publicados em um ano para cima, o sistema de avaliação é projeto de maneira que os demais programas – para manter suas notas atuais – tenham que produzir mais. Há uma espécie de escala móvel de desempenho para se manter dentro dos critérios de avaliação de uma nota determinada, em um sistema onde apenas o céu (ou o inferno) é o limite.

Em breve publicaremos um artigo explicando detalhadamente como funciona o sistema de avaliação trienal da CAPES sobre os programas de pós-graduação. No momento, basta explicar isso: uma das deficiências do atual sistema é que ele funciona como um torniquete apertando cada vez mais os programas para produzir mais em menos tempo. Aumentando a pressão a cada triênio. Estes, por sua vez, transferem uma parte dessa pressão aos estudantes de pós-graduação (e outra aos próprios professores).

Um dos resultados maléficos disso tudo está aí, para quem quiser ver, a disseminação da deterioração das condições de vida dos pós-graduados e seu consequente adoecimento psíquico. As pesquisas que existem sobre o assunto ainda são muito restritas, pontuais em uma universidade ou mesmo em apenas um programa, mas elas apontam que o problema é bem mais profundo do que a maioria dos dirigentes acadêmicos gostaria de admitir.

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Não sabemos a extensão completa desse problema. Não há qualquer pesquisa em âmbito nacional sobre o perfil socioeconômico dos pós-graduandos e suas condições de vida. A ANPG logo percebeu essa deficiência e abriu negociações com a CAPES no ano passado para conduzir a primeira pesquisa desse tipo em âmbito nacional na história da pós-graduação do país, instalou-se um grupo de trabalho com representantes da CAPES, da ANPG e do Fórum de Pró-Reitores de Pós-Graduação.

Tínhamos a perspectiva de poder convencer a CAPES e o próprio MEC a adotar políticas para combater a deterioração das condições de vida dos pós-graduandos, baseando em dados concretos sobre suas condições de vida e estudo. Uma pesquisa como essa poderia fundamentar empiricamente a necessidade de uma série de medidas como: a regulamentação do direito a licença saúde, maternidade, uma política de reajuste anual das bolsas, a instituição de um programa nacional de apoio aos pós-graduandos e – inclusive – a flexibilização dos prazos estabelecidos pela CAPES para titulações. Porém, após o golpe contra o governo Dilma e a ascensão de Michel Temer à presidência e Mendonça Filho ao Ministério da Educação o grupo foi paralisado e posteriormente desfeito unilateralmente pelo MEC.

Essa foi, apenas, mais uma das consequências nefastas para os pós-graduandos nesses tempos sombrios que adentramos.

Cristiano Junta
Vice-presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos