Pesquisadores brasileiros selecionados para o Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), da CAPES, encaminharam uma carta aberta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros, parlamentares e dirigentes de órgãos ligados à educação e ciência solicitando a revisão urgente dos valores das bolsas e auxílios oferecidos pelo programa. O documento, assinado por representantes de bolsistas aprovados na segunda chamada do Edital CAPES nº 17/2025, destaca que os recursos destinados à manutenção dos estudantes no exterior estão defasados e não acompanham a realidade econômica dos países de destino.
A mobilização conta com o apoio da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), que tem acompanhado as reivindicações dos estudantes e participado das articulações junto ao governo federal e aos órgãos responsáveis pela política de pós-graduação. A entidade defende que a internacionalização da pesquisa brasileira precisa ser acompanhada de condições adequadas para garantir a permanência dos pesquisadores no exterior sem comprometer sua estabilidade financeira.
Como demonstração da relevância e da urgência das reivindicações apresentadas, os organizadores da carta encaminharam um documento complementar contendo 541 assinaturas de apoio e 189 relatos de bolsistas coletados entre os dias 4 e 8 de junho de 2026. Os depoimentos reforçam as dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores para custear moradia, alimentação, transporte, seguros obrigatórios, taxas universitárias e exigências migratórias, mesmo após serem aprovados em um dos principais programas de internacionalização da pós-graduação brasileira.
Segundo os doutorandos, a bolsa mensal de US$ 1.300, valor que permanece sem reajuste desde 2013, tornou-se insuficiente para cobrir despesas básicas como moradia, alimentação, transporte, seguros e taxas obrigatórias em universidades estrangeiras. A carta afirma que a defasagem tem obrigado muitos pesquisadores a recorrerem a economias pessoais, ajuda familiar, empréstimos e outras formas de financiamento para conseguir realizar o período de estudos fora do Brasil.
O grupo também chama atenção para o valor do auxílio deslocamento, destinado à compra de passagens aéreas internacionais. De acordo com os estudantes, os recursos atualmente disponibilizados estão abaixo dos custos reais das viagens, especialmente em um cenário de aumento das tarifas aéreas e restrições de rotas provocadas por conflitos internacionais. Além disso, os bolsistas relatam que despesas relacionadas à obtenção de vistos, traduções juramentadas, autenticações de documentos e deslocamentos para consulados não recebem cobertura específica, aumentando ainda mais os custos da experiência acadêmica.
Um dos pontos mais críticos apontados pelos doutorandos diz respeito às exigências de comprovação financeira impostas por universidades e autoridades migratórias dos países de destino. Nos Estados Unidos, por exemplo, diversas instituições só emitem documentos essenciais para obtenção do visto, como o formulário DS-2019, após a apresentação de garantias financeiras mínimas. O problema é que, em muitos casos, o valor da bolsa concedida pela CAPES fica abaixo do montante exigido pelas próprias universidades. Na prática, a Carta de Concessão da agência, embora seja o principal documento de financiamento do estudante, não é suficiente para comprovar a capacidade financeira necessária para a permanência acadêmica no exterior. Como consequência, pesquisadores brasileiros têm sido obrigados a recorrer a recursos próprios, apoio familiar ou garantias de terceiros para conseguir viabilizar a emissão dos documentos migratórios. Relatos semelhantes foram registrados por bolsistas com destino à Austrália, França e Holanda, evidenciando que a insuficiência dos valores oferecidos pelo programa afeta não apenas o cotidiano dos estudantes, mas também o próprio acesso às oportunidades de internacionalização da pesquisa brasileira.
Para o presidente da ANPG, Rogean Vinicius Soares, a situação exige uma resposta urgente do poder público. “O Brasil tem avançado na valorização da ciência e da pós-graduação, mas é preciso garantir que os estudantes tenham condições reais de realizar sua formação internacional. Não faz sentido que pesquisadores aprovados em programas estratégicos precisem se endividar ou depender de recursos próprios para representar o país em centros de excelência no exterior. Estamos apoiando essa mobilização para que a CAPES atualize os valores das bolsas e fortaleça uma política fundamental para o desenvolvimento científico nacional”, afirma.
Na carta, os pós-graduandos propõem uma série de medidas para fortalecer o programa, entre elas o reajuste das bolsas com base na inflação acumulada e no custo de vida dos países de destino, a ampliação do adicional de localidade, a adoção do reembolso integral de passagens aéreas, a criação de uma reserva técnica para despesas obrigatórias de mobilidade internacional e a implementação de um mecanismo permanente de atualização dos valores. Os estudantes também defendem a abertura de um canal institucional de diálogo entre a CAPES, entidades científicas e representantes dos bolsistas para discutir soluções que garantam condições adequadas para a internacionalização da pós-graduação brasileira e para a formação de pesquisadores considerados estratégicos para o desenvolvimento científico do país.