Nota Pública da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) Contra a Chacina e o Clima de Terror nas Universidades do Rio de Janeiro

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) manifesta profunda indignação e repúdio diante da megaoperação policial conduzida pelo governo do estado do Rio de Janeiro, sob comando do governador Cláudio Castro, que resultou até o momento em mais de 134 mortes, incluindo vítimas civis ainda não identificadas, configurando um cenário de chacina e violação massiva de direitos humanos. 

A ANPG se solidariza com as famílias das vítimas, com as comunidades atingidas e com toda a população do Rio de Janeiro que vive sob o terror de um Estado que abandona o diálogo e governa pela força. Reafirmamos que nenhuma vida vale menos, nenhuma morte pode ser naturalizada.

As ações policiais, realizadas nos complexos do Alemão e da Penha, transformaram o Rio de Janeiro em um território de exceção, instaurando um clima de medo generalizado que paralisou a cidade e impactou diretamente a vida acadêmica. Universidades públicas e privadas, entre elas UFRJ, UERJ, UFF, UFRRJ e PUC-Rio foram obrigadas a suspender aulas e atividades presenciais para resguardar a integridade de estudantes, professores e trabalhadores, que ficaram impossibilitados de se deslocar diante da violência e do caos urbano provocado pelas operações.

O que se observa é que não há uma política de segurança, mas uma estratégia de extermínio que transforma as favelas em campos de guerra, com o uso desproporcional da força e a ausência completa de políticas sociais, educacionais e de prevenção. A escalada da letalidade policial no estado do Rio de Janeiro revela o fracasso de um modelo que confunde segurança pública com militarização, tratando a população pobre e negra como inimiga.

A ANPG entende que é urgente o encerramento das operações letais nas favelas do Rio de Janeiro, pois elas têm se mostrado ineficazes e profundamente desumanas, ampliando o sofrimento das populações mais vulneráveis. Considera também necessária uma investigação rigorosa e independente sobre os crimes cometidos durante a operação, de modo que o Estado responda pelas vidas ceifadas e pelas violações cometidas. 

O combate ao crime organizado deve se apoiar no conhecimento produzido pela ciência brasileira, que há décadas oferece diagnósticos, dados e soluções sobre segurança pública, desigualdade e políticas sociais. É necessário que o Estado invista na pesquisa científica e tecnológica como instrumento estratégico para compreender e enfrentar o problema de forma inteligente, humana e eficaz, substituindo a lógica da força pela da razão e da vida. A PEC da segurança pública, em tramitação no Congresso Nacional, aponta para um caminho possível, ao propor maior controle civil sobre as forças policiais e mecanismos que limitem o uso da força letal pelo Estado. Ainda que seu conteúdo precise ser amplamente debatido, é fundamental reconhecer a importância de medidas que ajudem a submeter as instituições de segurança ao controle democrático e reafirmem que a política de segurança deve proteger vidas, não as eliminar.

Enquanto escolas e universidades paralisam a vida acadêmica, o governo estadual sustenta um projeto político sustentado pelo medo, pela morte e pela violência de Estado. A ANPG reafirma que não há democracia onde o Estado mata, e que a defesa da vida é um compromisso inegociável da comunidade científica.

Associação Nacional de Pós-Graduandos – ANPG
 Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2025.