Sob coordenação de Amanda Mendes, vice-presidenta da ANPG, ocorreu a mesa sobre Ciência, Raça e Gênero para debater os desafios para a efetiva inclusão de negros e mulheres na pós-graduação. Participaram da discussão a dra. Laisa Liane, professora da UFBA e líder do grupo de pesquisas “Saúde da População Negra e doenças crônicas”, Dani Costa, Chefe de Gabinete da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Bahia, e Natália Trindade, pós-graduanda da APG da UFRJ.
A professora Laisa criticou o que chamou de “pacto da branquitude”, que, mesmo após quase 400 anos de escravidão, resiste a cumprir políticas afirmativas e inclusão para manter privilégios historicamente constituídos. “Isso não é rivalidade entre pessoas pretas e brancas, mas de entender que, estruturalmente, viemos em uma sociedade que privilegia uma determinada classe sobre a outra”, afirmou.
Para garantir que as políticas de cotas sejam de fato implementadas, defendeu a atuação das comissões de heteroidentificação nas universidades. “Eu não gostaria de colocar 10 pessoas negras e ter que confirmar que a pessoa é mesmo negra. Mas diante de uma sociedade racista que ainda quer perpetuar o pacto da branquitude, a comissão de heteroidentificação vai existir, vai resistir, vai ter preto na universidade, sim!”
Dani Costa Costa contou sua experiência como estudante da UFBA antes da lei de cotas na universidade e, hoje, como pós-graduanda na mesma instituição: “Sou de uma geração anterior à política de cotas na UFBA e, na época, eram pouquíssimas estudantes negras. Agora, estando na pós, apesar de negros agora serem maioria nos estudantes, não tive ainda nenhum professor negro ou mulher. Ou seja, os espaços de poder e direção continuam majoritariamente brancos”, relatou.
Falando sobre a necessidade de reparação histórica para a população negra, Dani Costa lembrou que a abolição foi incompleta e relegou os escravos libertos à marginalidade, negando-lhes direitos e incentivando a imigração europeia. “Após o fim da escravização, os negros foram jogados na marginalidade. O emprego assalariado foi incentivado para os imigrantes brancos europeus”.
Também criticou o mito da democracia racial brasileira como uma forma de maquiar o racismo e protelar políticas afirmativas. Disse que a miscigenação no Brasil, em sua maioria, foi produzida por homens brancos e mulheres negras e indígenas, muitas vezes de maneira forçada. “O processo de colonização no Brasil utilizou sim o estupro como forma de dominação de corpos negros”.
Amanda concluiu o debate afirmando que o Brasil é marcado por um processo escravagista que não acabou e continua vitimando corpos negros, fazendo alusão à chacina ocorrida no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
Mas a vice-presidenta comemorou a vitória obtida com a aprovação das cotas na pós-graduação. “O aumento da população negra na graduação acontece graças à lei de cotas. A lei de cotas proporcionou que nós estivéssemos nesse espaço e nós, como entidade, tivemos uma grande conquista que foi a inclusão da pós-graduação na revisão da lei de cotas”, finalizou.