São Paulo, 23 de dezembro de 2025
A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) manifesta profunda preocupação e repúdio aos cortes promovidos pelo Congresso Nacional na aprovação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, que atingem diretamente a CAPES, o CNPq e as universidades federais. Em um cenário internacional marcado por disputas tecnológicas, produtivas e geopolíticas, a ciência é elemento central da soberania nacional, e fragilizar seu financiamento significa comprometer o futuro do desenvolvimento econômico, social e estratégico do Brasil.
Apesar de todos os esforços de mobilização presencial e nas redes sociais, pressão das entidades académicas e científicas, o Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) encaminhado pelo Governo Federal sofreu severos cortes nas dotações orçamentárias para as agências que estruturam a ciência no país. No total, o Congresso Nacional apresentou e aprovou cancelamentos que somam R$ 359 milhões na CAPES, sendo R$ 230 milhões apenas em bolsas, e R$ 92 milhões no CNPq, dos quais R$ 86 milhões recaem diretamente sobre a política de bolsas. Com isso, os orçamentos dessas agências estarão menores do que foi em 2025, tornando ainda mais instáveis o financiamento da formação de mestres e doutores.
Os impactos se agravam, pois ocorreram cortes também para o Ensino Superior. Somados, Universidades Federais e Instituto Federais tiveram cortes de quase R$ 1 bilhão, sendo mais de R$ 234 milhões para sua manutenção e quase R$ 140 milhões na assistência estudantil, comprometendo a permanência daqueles em situação de vulnerabilidade e fragilizando a base material que sustenta a pós-graduação e a democratização do ensino superior.
Em contrapartida, enquanto ciência, universidades e políticas de permanência sofrem cortes, o Congresso Nacional ampliou de forma expressiva o volume de emendas parlamentares. Os valores saltaram de R$ 13,5 bilhões em 2019 para R$ 61 bilhões para 2026. O contraste é evidente: segundo estudos do Observatório do Conhecimento, o chamado Orçamento do Conhecimento — que reúne universidades federais, CAPES, CNPq e institutos federais — permanece em patamar historicamente rebaixado, representando pouco mais da metade do que foi investido em 2014, enquanto as emendas parlamentares crescem de forma acelerada. Trata-se de uma distorção de prioridades que compromete políticas estruturantes e de longo prazo.
Esse movimento vai frontalmente na contramão dos próprios documentos estratégicos do Estado brasileiro. O Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) e a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) reconhecem a pós-graduação como eixo estruturante do desenvolvimento nacional, defendem a expansão do sistema, a valorização dos jovens cientistas e a ampliação do número de bolsas. No entanto, os cortes aprovados pelo Congresso inviabilizam essas diretrizes, enfraquecem a capacidade do Estado de planejar e ameaçam a sustentabilidade do Sistema Nacional de Pós-Graduação.
Diante desse cenário, a ANPG reafirma que fortalecer a ciência é fortalecer a soberania nacional. O momento exige que o Estado brasileiro garanta direitos aos pós-graduandos, incluindo um novo reajuste das bolsas, a ampliação do número de bolsas para todos que produzem ciência no país e a construção de uma política de previdência que assegure dignidade e proteção social aos pesquisadores em formação. A pós-graduação é estruturante para o Brasil, e não aceitaremos retrocessos. Seguiremos mobilizados para reverter os cortes, garantir suplementação orçamentária urgente para CAPES e CNPq, especialmente para assegurar o pagamento das bolsas ao longo de 2026, e defender um projeto nacional que tenha a ciência, a educação e os jovens cientistas no centro de seu desenvolvimento.
Tabela 1. Valores da dotação orçamentária para rubricas especificas das universidades, CAPES e CNPQ contidos na PLOA e LOA 2026
| PLOA 2026 | Cortes | LOA 2026 | |
| Funcionamento das Universidades | 5.535.803.186 | 173.194.954,00 | 5.362.608.232,00 |
| Funcionamento Institutos Federais (IFS) | 2.231.849.183 | 61.295.881,00 | 2.170.553.302 |
| Assistência estudantil- Universidades | 1.378.529.696 | 98.892.915,00 | 1.279.636.781 |
| Assistência estudantil – IFS | 547.574.741 | 39.195.024,00 | 508.379.717 |
| CAPES | |||
| Orçamento total | 5.085.585.247 | 359.285.620,00 | 4.726.299.627 |
| Avaliação pós-graduação | 418.654.267 | 26.461.994,00 | 392.192.273 |
| Bolsas de estudos – mestrado e doutorado | 3.146.076.433 | 230.488.182,00 | 2.915.588.251 |
| Fomento às Ações de Pós | 661.275.208 | 833.028.173 | |
| Bolsas Pibid | 1.306.221.583 | 95.696.541,00 | 1.210.525.042 |
| CNPQ | 0,00 | ||
| Orçamento total | 1.831.082.488 | 92.405.481,00 | 1.738.677.007 |
| Bolsas de estudos | 1221010347 | 86.373.787,00 | 1.134.636.560 |
Valores em 1 real
PLOA 2026 – Projeto de Lei Orçamentária 2026 (enviado pelo Governo Federal ao Congresso)
Cortes (Cancelamentos propostos pelo Congresso Nacional em rubricas especificas da ciência.
LOA 2026 – Lei Orçamentária Anual aprovado pelo Congresso Nacional