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Tamara Naiz, presidenta da ANPG, na abertura do Seminário “Educação, Saúde e Desenvolvimento: a juventude por mudanças na saúde para cuidar bem das pessoas”

Fotos por Eduardo Paulanti

Na manhã dessa terça-feira (03) teve início o seminário “Educação, saúde e desenvolvimento: a juventude por mudanças na saúde para cuidar bem das pessoas”, organizado pela ANPG e pelo Fórum Nacional de Pós-Graduandos em Saúde durante a 9ª Bienal da UNE. O seminário, seguido de debate com o público, foi realizado na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, e terá continuação hoje (04) a partir das 10 horas.

Com o debate acerca da qualidade do serviço público no Brasil e a reforma sanitária que trouxe o Sistema Único de Saúde (SUS), o evento contou com a presença da Presidenta do Conselho Nacional de Saúde, Maria do Socorro de Souza, a professora da UFRJ e representante da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), Ligia Bahia, e com o Secretário de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Hêider Aurélio Pinto. O seminário foi dirigido por Dalmare Sá, diretor de Saúde da ANPG.

Abrindo as discussões, Maria do Socorro afirmou que o tema da mesa dialoga com o tema da Bienal, ‘Vozes do Brasil’ e evidencia duas políticas públicas fundamentais para o desenvolvimento do país. Reconheceu falhas do movimento de saúde em politizar a sociedade para suas pautas e destacou a necessidade de fazer a disputa simbólica resistindo aos ataques à educação pública e ao SUS. Além disso, a presidenta do CNS defende a ampliação da concepção da saúde, abrangendo discussões sobre drogas, aborto, violência, discriminação, preconceito, sexualidade, reforma agrária, alimentação saudável e passando a enxergar a saúde como promoção da vida. Reforça a importância de realizar esta defesa frente a uma ideologia que vê a saúde como negócio e desestabiliza o papel do estado na garantia desse direito. Ao final, reclamou da ausência da juventude nos espaços de representação do movimento de saúde e convocou os estudantes a estarem dentro destes movimentos para lutar por essas mudanças.

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Da esquerda para a direita: Ligia Bahia, Dalmare Sá e Heider Aurélio Pinto

Continuando o seminário, Hêider Aurélio afirmou que existe um conjunto de questões simbólicas em disputa no momento atual, com o avanço de forças conservadoras. Defendeu reforma política e do fim do financiamento empresarial de campanhas, mudanças no sistema tributário com impostos regressivos e taxação do capital e o fim dos monopólios das comunicações. Destacou os resultados do programa ‘Mais Médicos’, que teria levado a atenção básica a 50 milhões de brasileiros, e afirmou que um de seus legados seria o de mudar a representação social do que é ser médico. “Ser médico não é ser distante das pessoas. Ser médico é construir um cuidado com o outro em função das necessidades do outro”, diz. Adicionalmente, ressaltou que a lei amplia a perspectiva de mudanças na formação dos médicos, orientado-a para a atenção básica. Enfatizou a importância do debate sobre a formação da graduação com a UNE e a dos residentes com a ANPG, principalmente com o início do programa ‘Mais Especialidades’. Sobre este último, afirmou a necessidade de alterar a lógica de pagamento por procedimentos, não respeitando os cidadãos como sujeitos no seu contexto.

Danto sequência às falas, Ligia Bahia convidou os estudantes a participarem do seminário da ABRASCO e fez severas críticas ao governo, que teria aberto o SUS ao capital estrangeiro. Afirmou que não é preciso estar alinhado com o governo para ser a favor do SUS. Falou de pautas ligadas à juventude, defendendo a legalização do uso da maconha, mas criticando o patrocínio de festas estudantis por cervejarias, que estimulariam o alcoolismo. Também enalteceu a luta pela diversidade sexual nas universidades, que hoje tem grupos que discutem a convivência e rituais de passagem. Sobre a formação do profissional em saúde, criticou o programa ‘Mais Médicos’, pois seria insuficiente e não discute a carreira do profissional. “Carreira não é dinheiro, carreira é identidade, é gostar de ser da saúde. Em seguida, teceu críticas à Conferência Nacional de Saúde, que teria membros cooptados pelo governo, que não reconheceria os empresários da saúde como inimigos e sim setores da sociedade. Ressaltou que a energia das pessoas deve ser colocada a favor da transformação da sociedade brasileira, reconhecendo avanços na área da saúde como a liberação da maconha para uso medicinal. Ao final, declara acreditar que a sociedade brasileira não é conservadora e não é inimiga do público.

Após as intervenções dos convidados, Dalmare faz algumas considerações, ressaltando a importância do debate neste ano em que ocorre a Conferência Nacional e que determina o plano de saúde para os próximos quatro anos. Reconhece a precarização do trabalho no SUS, mas acredita no potencial e nos trabalhadores da rede pública, que lutam para elevar a qualidade dos serviços.

Passando ao público, seguiu-se um debate polarizado entre os presentes, com polêmicas acerca da representação estudantil nos conselhos e das políticas do governo federal. Houve consenso no repúdio a entrada do capital estrangeiro no SUS e a falta de estrutura das universidades públicas para o ensino das áreas ligadas à saúde. Também foi discutida a falta de reconhecimento e a falta de direitos dos pós-graduandos das áreas médicas. A falta de comunicação entre profissionais e entre os órgãos do SUS, com setores fragilizados e de excelência, também foi lembrada pelos debatentes.

Por Phillipe Pessoa e Magdalena Bertola, do Rio de Janeiro

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