“Que nada nos defina, que nada nos sujeite.

Que a liberdade seja a nossa substância”.

BEAUVOIR, Simone.

 A declaração “é uma menina” ou “é um menino” estabelece, já no período de gestação, uma série de fronteiras que serão reforçadas ao longo da vida. São fronteiras que atribuem lugares e papéis sociais às mulheres e aos homens desdobrando as desigualdades de gênero. Em diferentes contextos e circunstâncias, no âmbito da família, da escola, do mundo do trabalho, dos espaços institucionais, da religião, da sexualidade, da saúde e das representações estas fronteiras serão reforçadas e meninas e meninos receberão tratamento diferenciado.

Uma mulher recebe, em média, um salário 30% menor que o colegahomem que exerce a mesma função. As mulheres estão em menores números nos cargos de comando. Encontram-se sub-representadas nos espaços de tomada de decisão. No ônibus, precisará se afastar do corpo do outro passageiro para não sofrer abusos. Será julgada pelas roupas que usa e pelos lugares que frequenta. Seu corpo é motivo de regulação e análise, através de um ideal de beleza. Se for negra, se verá sempre em representações negativas. As revistas apresentam os modelos de relacionamento e como as mulheres devem se portar para “fisgar” um homem.

Ao sentir desejo por outra mulher será julgada e estereotipada. Às mulheres trans restam a marginalidade e incompreensão. Se optar por ficar sozinha, será vista como mal amada e infeliz. Caso tenha vida sexual ativa será julgada. Encontrará dificuldades de acesso aos métodos contraceptivos e educação sexual. Se engravidar, poderá correr o risco de enfrentar essa fase da vida sozinha, assumindo a responsabilidade pela vida gerada.

Se optar por um aborto, e não tiver dinheiro, correrá sérios riscos de saúde e poderá até morrer em decorrência de um procedimento malfeito. No ambiente doméstico, gastará nove vezes mais tempo se dedicando aos afazeres do que seu parceiro que se gabará de “ajudar”. Nesse mesmo ambiente, essa mulher poderá sofrer violência emocional, física e/ou sexual. Se decidir se separar, corre o risco do ex-parceiro vir a agredi-la e até matá-la. E a nossa sociedade, se recusando muitas vezes a reconhecer que o machismo mata, justificará com argumentos do tipo “Ele amava demais”, “foi crime passional”, “ela que traiu”. Ela virará estatística.

Todas estas situações traduzem a necessidade de rompermos com o machismo e lutarmospela transformação da vida das mulheres e, em alguma medida, também dos homens. Para isso, precisamos desconstruir a falsa ideia de que machismo e feminismo são inversamente proporcionais. O machismo é essencialmente antimulher, mas o feminismo não é anti-homem. O feminismo não é o combate aos homens de carne e osso. Ao contrário, é o combate a uma estrutura de dominação que reproduz desigualdades entre mulheres e homens. O feminismo tem o desígnio de emancipar as mulheres!

Emancipar as mulheres: um dever de todas e todos!

O dia 08 de março, consagrado como o Dia Internacional da Mulher, foi instituído como uma data para lembrarmos as lutas travadas em busca de vencer as desigualdades de gênero e emancipar as mulheres. Apesar de muitas vezes se imprimir a marca das flores e das “lembrancinhas”, a data resiste e nos indica a necessidade de pensarmos nos desafios a serem enfrentados para uma sociedade mais justa e igualitária para mulheres e homens.

Felizmente o feminismo tem se popularizado, fazendo com que o debate chegue a mais pessoas. As mulheres, por sua vez, tem se envolvido cada vez mais e mais cedo na luta pela transformação. É preciso, entretanto, fazer ainda mais! O feminismo precisa ganhar mais adeptas e adeptos à luta pela superação da opressão feminina. É preciso cada vez mais diálogo. A transformação da vida das mulheres é dever de todos aqueles que acreditam na necessidade de um mundo melhor!

*Alecilda Oliveira é diretora da ANPG, Pós-graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia.

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