O NCN – Núcleo de Consciência Negra da UNICAMP manifesta publicamente seu repúdio à atitude do Departamento de Filosofia da UNICAMP de desrespeitar resolução da Congregação do IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e se negar a adotar cotas étnico-raciais em seu processo seletivo para a pós-graduação. Em 11 de março de 2015 a Congregação do IFCH aprovou a adoção de cotas em todos os programas de pós-graduação do Instituto. A partir de tal aprovação cada um dos programas deveria se organizar para adotar cotas nos editais de mestrado e doutorado que selecionariam alunos para ingresso em 2016. Contrariando o que fora estabelecido, o Departamento de Filosofia decidiu não adotar cotas. Como se o fato em si já não fosse suficientemente descabido, a justificativa apresentada apenas demonstrou o entendimento superficial e distorcido que o Departamento tem acerca da questão racial no Brasil. Ao argumentar que pouco mais de 25% do corpo discente da pós-graduação em Filosofia é composta por pessoas negras ou indígenas e que portanto as cotas são desnecessárias, o Departamento de Filosofia dá uma aula de como conduzir um questão séria de forma medíocre. No Estado de São Paulo, 35% da população se declara negra. Em nível nacional, o percentual ultrapassa 52%. Mesmo diante de tais informações básicas, o Departamento se vê no direito de nivelar por baixo a participação de negras e negros na pós-graduação em Filosofia. A mensagem que o Departamento efetivamente transmite é a seguinte: 25% do espaço para negras e negros já está bom demais! Ora, isso é completamente inaceitável, ainda mais em se tratando de uma Universidade pública, sustentada pelos impostos que, devido ao caráter regressivo de nosso sistema tributário, atingem principalmente a população mais pobre – em sua maioria, negras e negros.

O Departamento perdeu uma chance de demonstrar com medidas práticas seu interesse em promover justiça social. Em vez de ter a chance de se tornar um modelo para outros programas de pós-graduação, o Departamento optou por se juntar ao que há de mais conservador e atrasado na sociedade. Nós, do NCN, lamentamos profundamente a decisão do Departamento, e expressamos nosso repúdio à decisão deste grupo de estudiosos e estudiosas que, do alto de seu conhecimento, parece não ser capaz de enxergar a realidade brasileira, e toma medidas que nada mais fazem senão contribuir para a perpetuação do racismo. Exigimos a imediata revogação do edital de seleção publicado há duas semanas, e a publicação de um novo edital contemplando as cotas. Esperamos que o Departamento de Filosofia entenda que há apenas duas possibilidades: ou a Universidade assume verdadeiramente seu caráter público ou ela seguirá sendo um espaço racista e opressor que não dialoga com a sociedade.

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