Por Gabriel Nascimento*

Ao ser eleita em 2010 como chefe máxima do executivo federal, Dilma Vana Rousseff quis ser chamada de “presidentA”, com morfema de gênero feminino ao final. No entanto, a grande imprensa, sempre arraigada de preconceitos sociais historicamente fundados, nunca engoliu a presidenta e sua presença no Palácio do Planalto, um lugar historicamente ocupado por homens brancos e filhos da elite.

A partir daquele momento não só a grande imprensa, de maneira preconceituosa e obsoleta, mas diversos outros canais de comunicação passaram a criticar o termo “presidenta”. Em primeiro lugar, o termo é usado convencionalmente no Brasil desde o século XIX. Foi ainda nesse século que um primeiro dicionário registrou a presença do verbete ‘presidenta’ no repertório do vernáculo falado no Brasil. Em segundo lugar, a Lei 2.749 de 1956, de autoria do senador Mozart Lago, determina o uso oficial da forma feminina para designar cargos públicos. Como nenhuma mulher tinha chegado ainda até o Palácio do Planalto, é normal que nunca tenhamos ouvido alguma mulher ser chamada de “presidenta” no país. Porém, em 2010, a história foi escrita e a língua acompanha a história.

Entre os críticos do termo “presidenta” estão aqueles que, impelidos por uma norma gramatical tradicional que nem eles respeitam, nem na escrita e muito menos na fala, advogam que substantivos e adjetivos de dois gêneros terminados em ENTE, como “presidente”, “gerente”, “contente”, “valente” não apresentam flexão de gênero em A. Para esses supostos gramáticos (na realidade são gramatiqueiros tradicionais sem nenhum embasamento científico), se nós usamos “presidenta” teremos que falar que ela está “contenta”. Esse é o maior besteirol que alguém pode usar para justificar o seu desconhecimento sobre a língua e sobre o que é uma língua. Para começar, as línguas mudam. O que valia há mais de mil anos na Roma Antiga, onde era falado o latim, sofreu mudanças quando da mudança na história após a queda do Império Romano e na mudança do Latim para o Galego e do Galego para o Português. O Português falado na Galícia (hoje Portugal) em 1200 da nossa era não é o mesmo Português falado em Portugal atualmente e nem o Português falado no Brasil em 1530 é o mesmo falado atualmente. Aliás, a língua que se fala no Brasil não é o mesmo Português falado em Portugal, país de onde vêm as famosas regras da Gramática Tradicional. Isso quer dizer que houve variação e, consequentemente, mudança social na língua portuguesa durante séculos, aqui e em toda parte onde essa língua é falada, inclusive levando linguistas a desconstruir a noção de que falamos mesmo Português. Essa já é outra discussão. Esse fato explica a razão para a variação na flexão de gênero em substantivos como “presidenta”. Embora não seja tão comum (por enquanto) a flexão em adjetivos como nos substantivos, houve variação e isso precisa ser entendido para não reproduzirmos séculos de preconceito e violência contra as mulheres.

Sim, se negar chamar Dilma de “presidenta” é reproduzir séculos de preconceito e violência contra as mulheres. Além de linguisticamente embasado, o termo “presidenta” é discursivo.

Nele, a primeira mulher a ocupar o cargo quer destacar o papel que a mulher precisa ocupar na sociedade. Sair do aprisionamento secular da vida doméstica, sempre cheio de limitações cívicas (até o século XX a mulher não era considerada cidadã brasileira, com todos os direitos, inclusive ao voto), e alcançar o cargo de chefa máxima do executivo federal é algo que precisa ser destacado discursivamente. Se a grande imprensa não o faz é porque, também discursivamente, opta por seu papel de grupo declarado de oposição ao governo Dilma, carregando um preconceito secular de violência contra as mulheres. O reconhecimento é essencial para entendermos que as mulheres precisam ocupar cada vez mais a vida pública brasileira. Chamar Dilma de “presidenta”, como uso legítimo, legal, discursiva e linguisticamente embasado do morfema feminino ao final, é parte desse reconhecimento. O contrário é obscurantismo. Dilma é presidenta sim, queiram os críticos do seu governo ou não.

*Gabriel Nascimento é mestrando em Linguística Aplicada pela UnB, diretor da Associação Nacional de Pós-graduandos e presidente da Associação de Pós-graduandos da UnB

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Author

1 Comment

Write A Comment