A estudante baiana Ana Gabryele, mestranda em Tecnologia Nuclear pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-USP) foi selecionada no programa de bolsas para mulheres Marie Curie, da Agência Internacional de Energia Atômica, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ela, que faz questão de ressaltar sua condição de mulher preta e periférica, valoriza as políticas públicas que lhe proporcionaram acesso e permanência na universidade como condições para seguir a carreira acadêmica.

A atual pesquisa de Ana Gabryele é um estudo com Análise por Ativação Neutrônica em Coincidência, com amostras irradiadas no primeiro Reator Nuclear do Brasil, IEA – R1. O IPEN, embora sofra com os sucessivos cortes financeiros feitos pelo governo federal, é um instituto de excelência que fabrica 25 medicamentos contra o câncer, cerca de 85% de toda a produção nacional.

“Esse prêmio só é possível porque eu usufruí de políticas públicas tanto para entrar na universidade, como cotista social e racial, [quanto] durante o tempo na universidade eu tive assistência estudantil, auxílio pedagógico, bolsa xerox, auxílio moradia. Então, isso me deu condições para que me mantivesse na universidade”, afirma.

Moradora do Crusp, ela dá destaque especial para a moradia estudantil, sem a qual seria impossível a permanência na universidade. “Eu só mudo para São Paulo a partir dessa possibilidade, porque sem isso não conseguiria estar aqui”.

A pós-graduanda também realizou um estudo sobre gênero no universo do instituto, incluindo estudantes, pesquisadoras e professoras, e identificou que apenas 10% das mulheres vinculadas ao IPEN são negras.

O dado mostra o quanto ainda é necessário avançar para que se tenha uma efetiva democratização da ciência. Evidencia também a capacidade e a superação das cientistas negras brasileiras.

“Eu fiquei muito feliz de ver as pessoas de onde eu moro [que é o bairro Cajazeiras, na periferia da cidade] compartilhando a minha vitória. Isso é muito importante e valioso, saberem que tem uma mulher preta e periférica, que é dali do mesmo bairro, que está na USP, usufruindo de políticas públicas para estudar. Tudo isso foi fruto de muitas lutas”, finaliza Ana Gabryele.

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