A ANPG finalizou seu 23º Congresso neste mês, elegendo a estudante Luana Bonone, “capixaba de Minas Gerais e mineira do Espírito Santo”, como costuma brincar,  sua nova presidenta.

Delegados na Plenária Final do 23º CNPG

O encontro marcou um importante momento de participação dos jovens neste que é o maior e mais importante fórum de deliberação do Movimento Nacional de Pós-Graduandos. Mais de 3 mil estudantes e 45 instituições de ensino, de 18 estados brasileiros, participaram do processo congressual, indicando a nova gestão que estará à frente da entidade pelos próximos dois anos.


A partir de agora, Bonone ocupará o mesmo cargo que já foi de importantes nomes da vida pública brasileira e terá o desafio de representar os mais de 200 mil pós-graduandos, conhecendo a realidade de cada Associação de Pós-Graduandos (APGs) e debatendo soluções para a pesquisa de excelência.


Pertencem à história da entidade campanhas memoráveis como a da discussão do papel dos mestrados profissionalizantes, da valorização do mestrado acadêmico, das bolsas de formação e da universidade pública de qualidade. Vale ressaltar também que a ANPG é única entidade de pós-graduandos a compor a direção da Organização Continental Latino Americana e Caribenha dos Estudantes, a OCLAE. A ANPG compõe ainda o Conselho Superior e o Conselho Técnico- Científico da CAPES e o Conselho Deliberativo do CNPq.

 

Doutorado, militância, crise econômica, Guimarães Rosa e PIBIC, o cachorro

 

Com o presidente Lula, na UFMG, quando era Diretora da UNE
Em Cuba, com a ex-presidenta da ANPG, Elisangela Lizardo, Luiza Lafetá, diretora da UNE e Manuela Braga, presidenta da UBES. Abaixo, o cachorro PIBIC

Quem se depara com a nova presidenta da ANPG em uma roda informal de bate papo ou na tranquilidade mineira do chopp após um dia corrido, não encontra ali discursos insuflados nem pose blasé. Com sorriso leve, a pós-graduanda Luana Bonone, de 30 anos, é do tipo que prefere sempre ouvir antes de falar, e faz questão de que todos falem.

 

Pós-graduanda em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), foi estudante de jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e encerrou seu bacharelado já com gosto pela pesquisa. Nascida em Vitória, no Espírito Santo, costuma brincar que é também mineira pela forma calorosa com que o estado a acolheu durante a universidade. Lembra com carinho da época em começou um novo ciclo de vida, ao sair da casa dos pais e enfrentar um mundo desconhecido pela frente. Um mundo de luta e de sonhos.


Esse jeito sonhador, afável e manso, contudo, não é o mesmo quando Luana pega no microfone. A habilidade em discursar objetivamente em público, sem pestanejar, vem de longos anos de militância. Quando ingressou na universidade, Luana logo tomou conhecimento das instâncias do movimento estudantil. Foi do Centro Acadêmico (CA) de Comunicação Social e do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG. Depois, assumiu a diretoria regional da UNE no estado e, logo em seguida, assumiu a presidência da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE-MG).


E não para por aí. Acabada a gestão da UEE, veio para São Paulo assumir a diretoria de Comunicação da UNE, que faz parte da executiva da entidade. Depois, começou a trabalhar como jornalista e deu início à especialização na área. Neste momento, foi chamada a desenvolver algumas atividades na ANPG e, assim, descobriu um movimento com um potencial de intervenção muito interessante. Não tardou para entrar no mestrado e na própria diretoria da entidade, novamente como diretora de comunicação, na gestão 2010-2012.


Toda essa energia também é muito bem gasta com os estudos. Bonone esse ano também tem a tarefa de defender sua dissertação de mestrado e já pensa no projeto de doutorado, que quer dar início no ano que vem. Além disso tudo, sobra um tempinho para ler um bom romance brasileiro, curtir uma cerveja com amigos, viajar, ver a família e – fôlego – brincar com o PIBIC, o cachorro que ganhou carinhosamente o nome do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica.


Defensora do projeto de transformação social iniciado pelo governo Lula, Bonone une o lado jornalista ao lado militante ao teorizar sobre a atual conjuntura econômica: “Estou convencida que o modelo de produção e circulação de mercadorias e valores vigente no mundo é extremamente excludente e opressor. As crises são intrínsecas a este sistema e apenas agudizam suas características. Ao mesmo tempo, gosto da perspectiva oriental que enxerga a crise como possibilidade, acho que o ambiente é propício para debater alternativas”.

 

Sobre o papel da ciência e a tecnologia para os avanços do país, é incisiva: “Penso que o papel, por um lado, deve ser o de procurar dar resposta às grandes questões concernentes ao desenvolvimento nacional, como o combate à ainda abissal desigualdade social que existe no país, a erradicação de doenças que já não existem em outros países, para citar apenas dois exemplos. Por outro lado, a ciência deve ser livre, deve haver estímulo à ciência de base sobre os mais variados temas, pois se pretendêssemos dar exclusividade à ciência aplicada ou à ciência “pragmática", que buscasse resolver apenas problemas específicos, concretos e imediatos, estaríamos defendendo um empobrecimento absurdo da pesquisa nacional.”


Luana Bonone se diz satisfeita com a crescente atuação da ANPG, que tem ocupado, inclusive, as ruas de todo país. Espera, em sua gestão, ampliar e consolidar a rede do movimento, com a construção de APGs em instituições de todas as unidades da federação, além de melhorar a participação qualificada nos espaços institucionais e garantir  pautas fundamentais como eixos da gestão.


“Neste sentido, creio que a ANPG precisa eleger algumas políticas centrais, que definiremos no planejamento de gestão. Mas, pelo congresso, é claro que ficam alguns indícios: uma política permanente de valorização das bolsas de pesquisa é um desses pontos; outro é o debate sobre o modelo e avaliação da pós-graduação brasileira e a discussão sobre internacionalização também ganha relevância, além, é claro, de bandeiras mais gerais como 10% do PIB e garantia de 50% de investimento do Fundo Social do Pré-Sal para as áreas de educação e ciência e tecnologia, bandeira que encampamos ao lado de entidades como SBPC, ABC, UNE, UBES”, explica.

 

Durante os próximos dois anos, Luana Bonone será a representante dos pós-graduandos brasileiros, sustentando seus direitos e amplificando seus anseios. Sabe que a agenda é grande e os compromissos são muitos. Por isso, como uma boa jornalista, sintetiza a nova fase com uma frase de seu conterrâneo de coração, Guimarães Rosa: “O senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão".

 

Patricia Blumberg.


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