Encerrando os debates do 42º Conselho Nacional de Associações de Pós-Graduandos (Conap), duas mesas abordaram as temáticas de liberdade de cátedra e os desafios dos estudantes da pós-graduação hoje, questões que estão na ordem do dia no país.

Sob o lema “Em defesa do conhecimento e da democracia: liberdade de cátedra e de ensino”, participaram da primeira palestra os professores Angélica Muller, da Universidade Federal Fluminense; Eduardo Serra e Eleonora Ziller, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Angélica Muller, que é estudiosa do regime militar e contribuiu no relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), mostrou-se preocupada com o avanço da extrema-direita, que já se revelava nos debates da CNV e que agora aparece escancarado em parcelas da sociedade, incentivado pelo atual governo. “Começou a crescer exponencialmente um desejo que vinha muito pequeno, muito fragmentário na sociedade, de volta da ditadura, de um revisionismo e negacionismo sobre o período”.

O professor Eduardo Serra denunciou a postura anti-intelectual do governo Bolsonaro e as consequências disso na perseguição a docentes e na ingerência na nomeação de reitores, desrespeitando a lista tríplice e a autonomia universitária para indicar verdadeiros interventores alinhados ideologicamente ao presidente.

Segundo Eduardo, vários fatores concorrem para ameaçar a liberdade de cátedra e de produção do conhecimento. “Estou falando da multiplicação de cursos Ead, que são vendas de diplomas a prazo. Então, é um ataque pela privatização, um ataque pelo estrangulamento financeiro e um ataque ideológico. A Escola Sem Partido não é de graça, tem a ver com o anti-intelectualismo, com o fundamentalismo, que passa a disputar com o pensamento científico”, disse.

Para Eleonora Ziller, do Departamento de Letras da UFRJ e presidenta da Adufrj, o momento exige que se amplie o debate com a sociedade e não “pregar para convertidos”, buscando construir pontes justamente com aqueles que não participam dos movimentos organizados. “É necessário se reeducar para furar as bolhas, é uma questão vital, de sobrevivência. A gente só vai fazer isso escutando quem está fora da militância, aquele que se recusa a ir à assembleia. A gente precisa chegar nele, porque o mundo dele está sendo destruído, principalmente no caso dos pós-graduandos, e ele não pode ficar alheio a esse processo”. “A saída é mergulhar no processo histórico e aprender com ele, caminhar junto, ninguém larga a mão de ninguém”, finalizou.

Os desafios do pós-graduando na atualidade

Finalizando os trabalhos do encontro, os participantes debateram questões que afetam o cotidiano dos estudantes, como os altos índices de adoecimento e as denúncias de assédio moral e sexual. Nessa mesa, colaboraram a jornalista e doutoranda da USP, Juliana Cunha; Dani Balbi, doutoranda em Literatura pela UFRJ; Bruno Barbosa, da Federação Nacional dos Pós-Graduandos em Direito; Lis Volpe, advogada da Ouvidoria da ANPG, e Mariana Rodrigues, diretora da entidade.

Prova das dificuldades concretas enfrentadas pelos pós-graduandos, a ANPG criou uma Ouvidoria para receber denúncias e, de setembro de 2018 até agora, mais de 300 queixas foram reportadas através do canal [email protected] .

Helena Augusta Oliveira, estudante da Universidade de Brasília, fez uma pesquisa com os pós-graduandos da instituição e descobriu que 10% deles pensam em suicídio com alguma frequência.
Segundo Juliana Cunha, o problema de adoecimento entre os pós-graduandos é crônico e mundial. “A revista Nature fez uma pesquisa em 2019 que mostra que 36% dos doutorandos tem algum problema de ansiedade ou depressão”. Para a jornalista, um dos graves problemas é a falta de perspectiva profissional diante do avanço do ensino à distância e da diminuição e fragmentação da carreira de professor.

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