O debate “A pós-graduação e o futuro da pesquisa no Brasil”, realizado na manhã deste sábado (16/11), na programação do 42º Conap, teve a participação da professora da Unifesp e vice-presidenta da Academia Brasileira de Ciência, Helena Nader, e do professor do Instituto de Energia da USP, Ildo Sauer, além de Flávia Calé, presidenta da ANPG.

A tônica das intervenções foi a necessidade de defender o sistema nacional de ciência e tecnologia, ora ameaçado pela fusão das agências de fomento Capes e CNPq e desvinculação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) da Finep, propostas articuladas pelo governo e que são rejeitadas pela comunidade acadêmica.

A professora Helena Nader apresentou uma série de dados e gráficos para desmentir argumentos que têm sido usados pelo MEC para legitimar os cortes nas bolsas de estudo e na área de ciência e tecnologia. Em contraposição ao que disse o ministro Weintraub, que o Brasil tem doutores demais, Nader demonstrou que “na área de engenharia a China tem proporcionalmente o dobro”.

Outro ponto desmistificado foi em relação à massa de investimentos que sustenta o desenvolvimento científico em outros países. É uma falácia dizer que o setor privado mantém a maior parte dos recursos nos EUA, país usado como paradigma pelo governo brasileiro. Helena Nader apresentou um gráfico referente a 2014, mostrando que só o Departamento de Defesa investiu 66 bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento naquele ano. “No Brasil, 95% das publicações que são feitas vêm das universidades públicas, embora elas só tenham 25% dos alunos”, completou.

Para dar base ao bordão de que recursos para educação e ciência não são gastos, são investimentos, mas a professora buscou apoio em relatório produzido pelo FMI para mostrar que com apoio adicional de 0,4% do PIB para ciência, tecnologia e inovação, levaria a um crescimento adicional de 5% do PIB.

O professor Ildo Sauer, do Instituto de Energia da USP, contextualizou a criação dos instrumentos Capes, CNPq e Finep como fruto de uma tentativa de inserção soberana do Brasil no mundo. “É um conjunto de ações tomadas neste Brasil, de instituições que foram moldadas por uma nova visão de sociedade que trazem a atuação sobre a natureza, a inserção diferente do Brasil e a área nuclear”, argumentou.

Segundo Sauer, toda essa construção histórica e o sistema de pós-graduação estão ameaçados “pela barbárie que vem de Brasília”. “A pós-graduação é o fio condutor da mudança desse país para melhor. A destruição dela significa a incapacidade do sistema de ensino público de se regenerar e se ampliar, de cumprir seu papel da construção do conhecimento, da tecnologia, o papel da organização social”, concluiu.

Flávia Calé falou sobre o discurso da escassez e da crise induzida que buscam legitimar o desinvestimento e a desarticulação da pós-graduação. “O discurso da escassez quer legitimar a fusão da Capes e CNPq e está por trás do desmonte do sistema nacional de ciência e tecnologia e de fomento à pesquisa”.

A presidenta da ANPG saudou a ampla articulação que vem sendo feita para defender as agências Capes, CNPq e Finep. “A carta assinada pelos líderes de bancadas de quase todos os partidos políticos de defesa do CNPq e da Capes é muito importante. Eles tentaram passar isso agora, ensaiaram uma Medida Provisória. A comunidade reagiu e eles recuaram, mas querem impor pela reforma administrativa, que também vai passar pelo Congresso Nacional. Então, a gente conseguir criar um conjunto de opiniões contrárias a esse tipo de iniciativa é fundamental”.

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