O jornal Diário de Pernambuco publicou no dia 18 de fevereiro uma reportagem completa sobre a vida dos pós-graduandos brasileiros. Com o título O lado B de ser cientista, a matéria discute as dificuldades que os estudantes de pós-graduação encontram nos dias de hoje, entre elas, depressão, assédio e isolamento.
A presidenta da ANPG, Tamara Naiz, participou da reportagem e cedeu uma entrevista exclusiva para o Jornal.
Veja a entrevista abaixo e confira o link da matéria aqui
Como é a realidade do desenvolvimento de transtornos mentais entre estudantes de pós-graduação stricto sensu no Brasil?
É algo comum. Uma realidade não só brasileira, mas que no país têm crescido. Aqui, além de toda a pressão que provoca o adoecimento, temos a falta de direitos trabalhistas, previdenciários e estudantis entre os pós-graduandos. As pessoas colocam a saúde em risco durante viagens de campo, dentro dos laboratórios, e não têm nenhum direito. Se elas se acidentam realizando pesquisa, não têm onde recorrer. Atrasamos cerca de 10 anos a entrada no mercado formal e não temos direito de afastamento por motivo de saúde nem esse tempo contado na aposentadoria. A bolsa não tem reajuste desde 2013. Muitas vezes, você não sabe o que está fazendo. É um profissional formado, tem obrigações, mas nenhum direito.
Por que esse tema é tão pouco debatido dentro da própria academia?
A academia começa a olhar o assunto agora, mas as pessoas ainda pensam: “sempre foi assim. Eu passei por isso, agora meu orientando passará”. É como se fosse uma cultura arraigada e corporativista. As pessoas que são alvo de denúncias de assédio são professores e são julgados pelos pares. É difícil ser imparcial. Sempre quem faz a denúncia de sigilo, aguentar calado, pois fica marcado e não consegue entrar em um concurso, não consegue entrar no doutorado. É gerada uma perseguição acadêmica, as pessoas são mal vistas, retaliadas. Isso enfraquece as denúncias, não há segurança de que o processo é levado a sério. Por isso defendemos ouvidorias e que seja garantido que as comissões de julgamento tenham representantes de diversas categorias e não apenas professores.
Existe alguma perspectiva ou projeto para que o assunto seja incluído em estratégias e políticas públicas no país?
Existem conversas, mas que não estão resolvendo muito. Desde 2015, estamos tentando montar com a Capes e o Ministério da Educação um grupo de trabalho para debater a situação socioeconômica do pós-graduando. Mas isso não sai do papel. Existem hoje alguns estudos que abordam assédio e adoecimento na academia, mas infelizmente poucos de dimensão quantitativa. Acredito que o componente de mudanças políticas atrapalhou, mas faltou vontade também. Iríamos nos reunir uma vez por mês, levantar dados, estudos, para subsidiar a compreensão do tema. É meio absurdo desde 2015 não termos nenhuma resposta.

Machismo acadêmico torna pesquisadoras mais vulneráveis

Quase um terço das pesquisadoras ouvidas em um levantamento de 2015 disse acreditar que foram desqualificadas por serem mulheres. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.
Quase um terço das pesquisadoras ouvidas em um levantamento de 2015 disse acreditar que foram desqualificadas por serem mulheres. Foto: Gabriel MelEsp.DP.


Em agosto de 2017, durante reunião com estudiosos de várias partes do mundo, a vice-diretora de um dos maiores centros de pesquisa de Pernambuco, que prefere não se identificar, explicava um estudo que queria desenvolver sobre a transmissão de determinada doença. Diante de sua explanação, a plateia riu. Foi necessário que um cientista homem, mais velho, interviesse. Ele defendeu a proposta e pediu que ela fosse ouvida. Quem havia menosprezado a fala passou a apoiar.
Levantamento feito em novembro de 2015 pelo Instituto Avon e Data Popular mostrou que 67% das mulheres já relataram que assédio no ambiente acadêmico. Além disso, 28% disseram acreditar que foram desqualificadas por serem mulheres. “Estudo muito desde cedo. Entrei na graduação aos 16 anos e concluí o doutorado aos 27. Com o tempo, percebi que os homens chegavam aos postos de liderança mais rapidamente”, disse a cientista. Apesar de representarem 50% da produção científica brasileira, as mulheres têm dificuldades para alcançar postos mais avançados. “Estou em um cargo de direção e tenho 43 anos, mas sou uma exceção. Os demais diretores são homens ou mulheres mais velhas, todas com idade na casa dos 50 anos”, pontua.
Concilar vida acadêmica e maternidade é o principal desafio das cientistas, dizem as pesquisadoras ouvidas pelo Diario. “Cheguei a pesar 43 kg durante o doutorado porque estava amamentando e não me alimentava direito. Dar conta de casa, bebê e pesquisa é um desafio.” A pesquisadora observa hoje que, entre os estudantes de mestrado e doutorado orientados por ela, as alunas desistem mais facilmente da carreira. “Já cheguei com uma pesquisadora na Inglaterra e ela recebeu uma bolsa de doutorado sem precisar de seleção. Ela deixou de ir porque ia se casar”, conta. “Percebo que as mulheres ainda precisam fazer essas escolhas. Além disso, noto que quando alunas faltam porque o filho está doente, e não os homens.”
A presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Tamara Maiz, enfatiza que, no Brasil, as mulheres realizam metade das pesquisas – um dos maiores índices do mundo. No entanto, o ambiente acadêmico é mais hostil para as pesquisadoras do que para os pesquisadores. “Uma questão fundamental nesse sentido é pensar como esse cenário adverso pode atrapalhar o rendimento acadêmico delas a ponto de desencadear transtornos psicológicos e comprometer suas carreiras”, pontua. Em dezembro de 2017, foi sancionada a Lei Federal 13.536/2017, que dá direito a afastamento por maternidade a bolsistas de pesquisa. Agora, é possível solicitar suspensão das atividades acadêmicas por até 120 dias recebendo bolsa.
De acordo com dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), apesar de as bolsas serem concedidas equitativamente entre homens e mulheres, elas são minoria nos mais altos níveis da hierarquia científica. De um total de 112 cientistas, apenas 27 mulheres chegaram à categoria de Pesquisador Sênior, isto é, a modalidade de pesquisadores que “se destacam entre seus pares como líder e paradigma na sua área de atuação”. 
Discriminada por causa da idade

Conciliar a vida em família com os estudos é um desafio, diz Helena (nome fictício). Foto: Shilton Araújo/Esp.DP.
Conciliar a vida em família com os estudos é um desafio, diz Helena (nome fictício). Foto: Shilton Araújo/Esp.DP.

“Você tem certeza de que vai conseguir fazer o mestrado? Isso é para gente jovem.” Com essa pergunta, a administradora Helena (nome fictício), 53 anos, foi recebida na entrevista da seleção do Programa de Pós-Graduação em Administração da UFPE. Percebeu que as pressões de ingressar em um mestrado já haviam começado. Até então, sabia que sairia menos, encontraria os amigos com menor frequência, mas não tinha consciência de que a idade poderia ser considerada um empecilho para estudar. “Tendo terminado o mestrado, sei que o que ela (a entrevistadora) disse não pode ser levado em conta. Não existe idade para estudar. Ainda sonho em fazer o doutorado”, afirma.
Helena acreditava que tinha a maturidade como vantagem sobre os mais jovens. “Meus filhos já estavam crescidos e eu tinha um emprego estável que me dava condições de estudar. Conciliar estudo e trabalho não é fácil, mas estar em uma empresa que me incentivava foi fundamental”, afirma. Ela conversava com os filhos, na época com 15 e 17 anos, sobre a importância do que estava fazendo. Nem sempre eles entendiam, mas foi possível concluir o curso com o apoio deles. “Meu marido e filhos nem sempre compreendiam minha ausência e cobravam que eu estivesse mais com eles. Em determinada altura do campeonato, decidi mudar o lugar de estudo do quarto, onde eu ficava isolada, para a sala, onde todos ficavam reunidos. Certo dia, minha filha disse que não aguentava mais olhar para as minhas costas, pois eu estava lá, mas sempre de costas e sem interagir. Porém, de maneira geral, me apoiaram muito”, conta.
Além de considerar que é preciso “estar bem da cabeça” para encarar uma pós-graduação, chegou à conclusão de que o projeto de vida do pós-graduando precisa ser um projeto de toda a família. “O apoio de quem está com você, seja filhos, parceiros, pai, mãe, é fundamental, pois todos acabam sendo afetados pela sua nova rotina. Lembro que eu deitava com o meu marido, conversávamos e eu esperava ele dormir para levantar de mansinho e ir estudar. Conciliar a vida em família com os estudos é, sem dúvida, um desafio, mas se você tem vontade, planos e metas, consegue êxito sem maiores prejuízos. Acho que a pessoa se estressa mais se pensar que gostaria de estar fazendo outra coisa. Se você for estudar pensando que queria estar na praia, em uma festa ou em outro lugar, a ansiedade aumenta. Procurei esvaziar minha mente para focar no livros”, diz.

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