Está tão disseminada a noção de que a "saúde" das empresas depende de algo mais do que nossa sexagenária política de ciência e tecnologia que a poucos surpreendeu a adição do "Inovação" ao nome do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Por Renato Dagnino*

Mas o fato de ela integrar o Plano Brasil Maior, cujo slogan, "Inovar para competir e competir para crescer", faz jus ao significativo aumento dos subsídios que oferece às empresas, merece comentários.

O primeiro, uma constatação.

Por ser a inovação um conceito criado para designar a introdução de uma novidade no mercado, por uma empresa que busca lucros superiores aos dos concorrentes, a adição reitera decisões para reorientar o ministério.

Centrada na oferta de conhecimento para a empresa mediante o fomento à formação de pessoal e à pesquisa na universidade, e à relação desta com a empresa por meio de institutos de pesquisa, incubadoras e parques tecnológicos, essa política tem sido mal avaliada.

Os "inovacionistas", com seu estandarte "’papers’ não produzem patentes", desbancaram os "cientificistas", focando-a em atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) na própria empresa.

O papel do BNDES e o "rejuvenescimento" da Finep, previstos no Plano Brasil Maior, se somam ao subsídio direto e às bolsas para pesquisadores que quiserem contribuir para a "saúde" das empresas.

O segundo comentário é de dúvida. Serão eficazes os novos remédios para combater uma endemia que assola o mundo empresarial (a atavicamente baixa propensão à P&D) num país em que a "condição periférica" a potencializa, tornando-a epidêmica e estrutural?

A comparação dos comportamentos das empresas locais e estrangeiras responde que não. Bem mais do que lá, as (poucas) que aqui inovam preferem adquirir tecnologia incorporada em máquinas e equipamentos a realizar P&D; quando o fazem, pouco acorrem a fundos públicos ou demandam pesquisa de universidades e institutos de pesquisa.

O desinteresse pelos mestres e doutores é inacreditável. Dos 90 mil formados entre 2006 e 2008 para fazer P&D em empresas, menos de 70 (!) foram aproveitados.

O terceiro comentário é de provocação. Ele traz à tona o Plano Brasil sem Miséria, divulgado há alguns meses. Ao contrário do outro, ele não parece perceber que gerar trabalho e renda para a maioria que não trabalha em empresas requer complexo conhecimento tecnocientífico, específico para empreendimentos solidários.

Que dirá propor um Ministério da Ciência e "Tecnologia Social", que é como se chama a que completa suas cadeias produtivas. Aquelas que irão produzir bens e serviços para os mais pobres e, também, os de natureza pública, alavancados via poder de compra do Estado.

O ministério não pode abrigar apenas "inovacionistas" e "cientificistas". Os "solidaristas" também querem "agenda" para disseminar sua noção: os arranjos tecnoprodutivos precisam (e merecem), para melhorar sua "saúde", mais que as empresas, de conhecimento novo.

*Renato Dagnino é mestre em economia do desenvolvimento e doutor em ciências humanas, é professor titular de política científica e tecnológica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

OBS.: Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da ANPG. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate.

Publicado originalmente na Folha de são Paulo, em 16 de novembro de 2011

 

 

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