Por Marcelo Arias*

É preciso ter olhar atento para estabelecer relação entre a crise financeira mundial e a pós-graduação no Brasil. Aparentemente, pouca relação pode ser feita mas é só buscar compreender melhor a distribuição geoespacial das cadeias produtivas para construir essa relação que não é aparente.

O processo de globalização, para além da derrubada de barreiras à flutuação dos capitais financeiros e da transmissão de dados, promoveu uma forte redistribuição das tarefas nas cadeias produtivas complexas, típicas dos produtos de alto valor agregado. Nesse sentido, a participação industrial – e os empregos gerados pelo setor – deslocaram-se, em busca de leis trabalhistas mais flexíveis e de benesses fiscais, a partir do final dos anos 80, dos países do centro do sistema capitalista (EUA e Europa Ocidental) para se materializar em territórios da periferia do sistema, especialmente na América Latina e no Sudeste Asiático.

Nessa nova (re)distribuição geográfica do trabalho, também chamada de reestruturação produtiva, o centro capitalista concentrou-se na área de desenvolvimento de tecnologia de ponta. As indústrias transnacionais mantiveram suas matrizes nos seus países de origem e passaram a controlar a cadeia produtiva através de parâmetros estipulados nos projetos elaborados a partir da matriz. Competia às filiais, agora estacionadas na periferia, o trabalho grosso da linha de produção, a distribuição para os mercados emergentes e remessa de lucros para a matriz.

Ora, é sabido – ou ao menos imaginável! – que o setor de tecnologia no controle de produção exige recursos humanos altamente especializados. E isso significa Pós-Graduação. Ou seja, para que uma economia nacional possa transnacionalizar suas empresas, demanda investimento em pós-graduação, com o objetivo de desenvolver técnicas produtivas que agreguem valor aos produtos exportados. O processo de industrialização brasileira é tardio e inacabado, com poucas indústrias de alta e média intensidade tecnológica. Da mesma forma é tardio o seu investimento em Pós-Graduação. Apenas no Governo Lula foram criados Mestrados Profissionais voltados para a Indústria com alguma escala. E é a partir de 2002 que sobem, expressivamente, os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento no setor de Ciência e Tecnologia.

Também é possível imaginarmos que para sair da crise financeira na qual foi mergulhada, o centro capitalista precisa reabsorver parte dos parques industriais “exportados”. E qual é o parque industrial em disputa neste momento? A China é que não é!

É claro que Aécio tem contas a pagar com o capital financeiro e seu gerente regional, Armínio Fraga, nos alerta disso. Para atrasar o processo de transnacionalização do parque industrial brasileiro – que vai na contramão dos interesses do capital do centro capitalista – a primeira vítima é a pós-graduação. Para um projeto de diminuição do setor industrial e de tecnologia, a formação de recursos humanos especializados é um ‘gasto’ desnecessário. E esse raciocínio preside as gestões tucanas por onde elas passam, com o sucateamento da Universidade Pública e com o esgarçamento da diversidade produtiva.

É com vistas nesse cenário que entendemos ser importante a reeleição de Dilma Roussef. A contribuição de seu governo para o desenvolvimento da pós-graduação, apesar dos limites, se reflete no forte crescimento da concessão de bolsas, no programa de mobilidade científica (CsF), no crescimento das Universidades Federais, no Plano Nacional de Pós Graduação.

Marcelo Arias é diretor de juventude da ANPG e Mestrando na USP.

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

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