Em entrevista para o Globo Universidade, presidente da SBPC reforça importância de investimentos em educação
 

Quando o assunto envolve o crescimento econômico brasileiro, Helena Nader é categórica: "Se o Brasil quer entrar para o grupo dos grandes tem que investir em ciência, tecnologia de ponta e inovação". Em entrevista exclusiva ao Globo Universidade, a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) reflete sobre os entraves do desenvolvimento científico no país e conta como a SBPC tem militado por mais investimentos na área. "O que a SBPC sempre pautou, desde o início das discussões sobre o pré-sal, foi que os recursos obtidos a partir deste bem finito, que só foi descoberto porque o Brasil investiu em educação e em ciência, deveria ser revertido em mais educação e ciência", ressalta a professora. Helena destacou, ainda, que um dos principais desafios do Brasil é a garantia da educação de qualidade. "A faculdade brasileira é terminal. O nosso estudante universitário não entra na faculdade para ganhar conhecimentos, ele entra para conquistar uma profissão, para ser biólogo, médico, engenheiro".
 
Helena Bonciani Nader é Bacharel em Ciências Biológicas – modalidade médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Bióloga pela Universidade de São Paulo (USP). Possui doutorado em Biologia Molecular pela Unifesp e pós-doutorado na University of Southern Califórnia. Atualmente é professora titular da Unifesp e membro da Academia de Ciências de São Paulo e Academia Brasileira de Ciências.
 
Globo Universidade – Como presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), você poderia comentar quais os principais temas da agenda brasileira em relação às ciências para os próximos anos? Qual a contribuição da SBPC para a concretização desses projetos?
Helena Nader – Como a maioria dos temas da agenda ainda estão em discussão, eu vou dar alguns exemplos de projetos recentes que estão em processo de implementação e que contaram com a participação efetiva da SBPC tanto na proposta e execução do plano, como na implementação.
 
O mais expressivo deles é voltado para o mar brasileiro e envolve o Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas e Hidroviárias (Inpoh). Este projeto busca discutir o mar sob diferentes ângulos: desde a biodiversidade, passando pelas populações que dependem dos insumos que vêm do mar, até o petróleo e o pré-sal. Foi quando nós começamos a discutir sobre isso que percebemos que conhecíamos muito pouco do mar brasileiro, sendo que se você considerar a nossa costa, ela dá uma Amazônia, é um pouquinho maior até. Então, para suprir as necessidades do mar brasileiro, serão implantados institutos com focos específicos do sul ao norte da nossa costa. E para gerenciar esses institutos haverá uma organização social, que funcionará como uma instituição virtual. Dessa forma, aos poucos vamos compreender como o Brasil deverá agir em relação à biodiversidade, ao petróleo e até em relação à defesa, porque o pré-sal, por exemplo, não está colado na costa brasileira, está bem mais distante. Então o tipo de ciência desenvolvido neste projeto vai envolver todas as áreas do conhecimento. Esse é um grande desafio da ciência brasileira para os próximos anos.
 
Outro tema que também foi discutido sobre o Brasil no âmbito da SBPC e que está tendo um grande impacto é a linha de luz síncrotron. O que é essa luz? Esse tipo de luz possui um comprimento de onda variável, além de ter grande intensidade e alto brilho, o que é fundamental para a obtenção de imagens em alta resolução. Atualmente, nós temos uma linha que fica localizada em Campinas (SP), no antigo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron. Essa linha foi, durante muitos anos, pioneira no hemisfério sul do planeta. Hoje já existem no hemisfério sul linhas muito melhores e mais modernas do que a nossa, que está superlotada. Além disso, a faixa de energia na qual ela trabalha está ultrapassada. Junto com outras sociedades, a SBPC já conseguiu aprovar os recursos para a construção de uma nova linha, que também ficará em Campinas, e que nós esperamos que esteja pronta entre quatro e cinco anos. O Centro Diamond, na Inglaterra, possui uma linha excepcional, muito parecida com a que nós vamos construir aqui no Brasil. Foi o Comitê Nacional que analisou o projeto brasileiro e pediu para fazer algumas mudanças de forma que a nossa linha ficasse com um diferencial ainda superior ao da Inglaterra. A linha do Brasil vai se chamar Sibius, assim como a constelação, como uma analogia ao brilho intenso que ela vai ter. A construção dessa linha, portanto, vai envolver muita inovação que será criada pelo Brasil. Então esse projeto vai gerar um grande impacto na ciência brasileira.
 
GU – Em entrevista, você já afirmou que para o Brasil ter inovação é preciso investir simultaneamente em toda uma cadeia de processos que envolve educação, ciência e tecnologia. Como esta cadeia deve funcionar? Quem é o responsável por viabilizar esta cadeia?
HN – O que a SBPC sempre pautou, desde o início das discussões sobre o pré-sal, foi que os recursos obtidos a partir deste bem finito, que só foi descoberto porque o Brasil investiu em educação e em ciência, deveria ser revertido em mais educação e ciência. A decisão ainda vai ser votada, mas, infelizmente, parece que os recursos serão totalmente destinados à educação e saúde. Saúde é importante, não estou dizendo que não seja, mas o Brasil precisa investir naquilo que dará retorno em vários campos, tanto na saúde, como na agricultura, indústria, tudo. A proposta da SBPC era destinar 70% para o ensino básico, 20% em ensino superior e 10% para ciência e tecnologia, mas isso não aconteceu. Como é que alguém legisla contra aquilo que gerou o recurso? Daqui a 20 anos as pessoas vão se arrepender dessa decisão, porque vão ver que acabou o fundo do petróleo. Hoje as pessoas estão se matando pelo recurso e se esqueceram que isso só foi possível porque anteriormente existiu uma política de investimento na ciência. A Petrobras, por exemplo, teve um papel fundamental. Investiu na ciência com a criação do Cenpes e, mais importante, estabeleceu um diálogo com a universidade. A Petrobras tem convênio com todas as grandes universidades que realizam pesquisas na área do petróleo. E aí você se pergunta por que isso não é feito com mais frequência?
 
É importante que se diga que um bem que é finito, como o petróleo, precisa ser investido em algo que vai dar frutos, que vai gerar novos recursos, inclusive para a saúde. O Brasil tem que fazer uma opção: quer ou não entrar para o grupo dos grandes? Se ele realmente quer entrar para o grupo dos grandes, vai ter que investir em ciência de ponta, tecnologia e inovação. Hoje nós temos uma economia ótima, mas é toda com baixo valor agregado, ou seja, nós exportamos todo o nosso minério e compramos da China ou dos Estados Unidos todos os insumos, que têm grande valor agregado. Agora, eu insisto, o petróleo e o minério são bem finitos. Todo mundo tem orgulho, por exemplo, da nossa agricultura. Eu preciso reforçar que a nossa agricultura foi feita por ciência. O Brasil apostou na criação da Embrapa que, para dar certo, precisou investir em ciência. E mais importante, nós tínhamos excelentes escolas de agronomia espalhadas por diferentes universidades brasileiras. Foi o conjunto Embrapa/universidade que gerou o que nós temos hoje.
 
Então o que falta é as pessoas entenderem que a ciência está no dia a dia delas. Quando o indivíduo está fazendo compras, usando um celular, sendo atendido por um medico, usando uma geladeira que consome menos energia, tudo isso é fruto de uma ciência. Então toda tecnologia foi gerada a partir da ciência.
 
GU – Em relação à SBPC, sabemos que sua fundação foi um importante passo para que houvesse a institucionalização de um sistema de ciência e tecnologia no país. Sabemos, ainda, que a SBPC nunca se restringiu às questões da ciência, mas sempre voltou seu olhar para a vida do país e suas questões sociais e políticas. Por isso, gostaria que você comentasse quais os principais desafios da SBPC na atualidade?
HN – Nós temos vários desafios. A luta por uma legislação para a biodiversidade é uma delas, mas nós ainda estamos limitados. Precisamos de uma legislação que permita que se tenha, realmente, a flexibilização. Aqui no Brasil, quando se fala em flexibilização as pessoas logo pensam que significa "dar um jeitinho", mas não é isso. Atualmente, existem orientações técnicas que possibilitam a investigação e o acesso à biodiversidade brasileira sem qualquer tipo de penalização, mas não são leis, então é sempre algo condicionado. Infelizmente nós estamos ficando para trás. Em relação à Amazônia, por exemplo, nós não somos o único país que está olhando para este bioma, ele não é exclusivamente nacional. Então vários países da América do Sul e a Europa (através da Guiana Francesa) também estão de olho na Amazônia. Aqui no Brasil nós não temos as condições ideais para a ciência, em relação a como as pesquisas podem ser efetuadas. Então nós precisamos de uma legislação moderna, não restritiva e que realmente impulsione a ciência, não só da Amazônia, mas de toda a biodiversidade brasileira. A biodiversidade da Caatinga, por exemplo, também é impressionante. Podemos aprender muitas coisas lá. Ou seja, o Brasil é um país com uma mega biodiversidade e, infelizmente, quando você olha, por exemplo, para a Amazônia, a maioria das publicações sobre ela não saem com o endereço do Brasil. E isso é muito ruim para o país.
 
Mas, sem dúvida, o nosso principal desafio é pela educação de qualidade. E é um desafio em todos os níveis, desde a pré-escola, do ensino fundamental até o nível universitário. Não adianta eu dizer que a universidade brasileira é de excelência. Ela é, se comparada com as que estão abaixo da gente, mas nós temos que olhar para quem está acima de nós. O modelo de graduação brasileira é pouco atual, precisa ser modernizado. Aquilo que era bom no início do século passado não pode ser bom neste século. Hoje, existem muitas tecnologias que podem ser aproveitadas, mas que são pouco utilizadas no atual modelo educacional brasileiro.
 
GU – Na sua opinião, qual seria o modelo ideal?
HN- Pensando no caso da graduação, o estudante de graduação deveria poder fazer um currículo mais flexível. Os alunos que vão estudar fora pelo Ciência Sem Fronteiras, por exemplo, têm uma grande oportunidade de obter conhecimento diversificado. Eles precisam adquirir olhares diferentes. A faculdade brasileira é terminal. O nosso estudante universitário não entra na faculdade para ganhar conhecimentos, ele entra para conquistar uma profissão, para ser biólogo, médico, engenheiro. Com isso, a flexibilização é muito restritiva. Então nós temos que acompanhar as mudanças e ver o que podemos fazer para melhorar.
 
Temos, ainda, outra questão preocupante: Nós colocamos todas as crianças dentro da escola, mas que escola é essa? Possibilitar o acesso à escola para todos foi um passo fundamental, porque antes as crianças não estavam dentro das escolas. Hoje, porém, as crianças estão nas escolas, mas nós não as estamos mantendo. O número de adolescentes que abandona os estudos é muito alto. Nós não podemos permitir que isso aconteça em um país que é a 7ª economia do mundo. Não existe uma unanimidade sobre o tipo de ensino ideal, nem dentro da SBPC, nem na academia.
 
GU – Como você avalia a participação dos jovens na comunidade científica atualmente? Qual o seu papel em lutar por mais investimentos em ciência, tecnologia e inovação?
HN – O papel do jovem é fundamental sempre, porque o país precisa se renovar a todo o momento. Temos que ter a consciência de que os cientistas do futuro são os pós-graduandos de agora. Eles serão os docentes que vão lutar no futuro pelas mesmas coisas que nós estamos lutando hoje. Na minha opinião, o envolvimento dos jovens é muito bom, mas ainda tem que ser maior. Esse isolacionismo que está acontecendo com os professores e pesquisadores não é nada bom. Tomando como base a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) consigo observar que os jovens que estão à frente da associação e da sociedade são muito envolvidos, mas os demais ficam muito à parte. Não adianta você ter sucesso sozinho. O seu sucesso individual desaparecerá se o seu país, ou pelo menos a sua instituição, não tiver sucesso também.
 


(Jornal da Ciência)

 

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