Com a mesa de debate “Mulheres cientistas pela democracia: ocupar o poder e tecer um novo Brasil”, teve início, na noite desta sexta-feira (10/06), o III Encontro de Mulheres Estudantes da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG). A abertura do evento contou com as presidentas das entidades co-irmãs, Bruna Brelaz, da União Nacional dos Estudantes, Jade Beatriz, da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, além de Flávia Calé, presidenta da ANPG, Stella Gontijo e Raquel Luxemburgo, vice e secretária-geral, respectivamente.

As debatedoras foram as professoras Ana Lanna, pró-reitora de Inclusão e Pertencimento da Universidade de São Paulo, Denise Ribeiro, reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Sofia Manzano, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, a mestranda em Tecnologia Nuclear (IPEN) Gabryele Moreira, Mariana Moura, fundadora do grupo Cientistas Engajados, e Paula Viera, diretora de Mulheres da ANPG. A professora Ana Estela Haddad (Odontologia-USP) enviou um vídeo em saudação ao encontro.

Na fala inaugural, Flávia Calé apresentou o desafio político que deve unir a todas e todos que defendem a ciência como vértice para construção de um país desenvolvido, soberano e socialmente justo. “A democracia no Brasil está ameaçada. Precisamos nos organizar para enfrentar isso. Nós estamos aqui, estamos de pé e vamos derrotar o Bolsonaro. São as mulheres brasileiras que vamos derrotar o Bolsonaro e reconstruir o Brasil com as nossas mãos. Esse ano é de posicionamento, não há espaço para neutralidade”, disse.

A primeira debatedora, professora Ana Lanna, afirmou que o país vive um momento conturbado e falta de interlocução, mas que é crescente a mobilização da sociedade para participar e debater temáticas historicamente ignoradas. “A criação da pró-reitoria de Inclusão e Pertencimento é uma ação nesse sentido, de reconhecimento da relevância desses temas, entre os quais a questão da mulher na produção de conhecimento em todas as áreas”, considerou.

Na sequência, Denise Carvalho, reitora da UFRJ, salientou que em sua universidade se busca atingir a equidade de gênero, mas não é simples superar a defasagem, particularmente nas posições de direção. “Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre o corpo docente e entre os servidores técnicos, já atingimos a igualdade de gênero, mas não atingimos nos cargos de destaque”. O seu próprio exemplo é eloquente: “eu sou a primeira mulher [reitora] em 100 anos de instituição”, disse.

Sofia Manzano, da UESB, criticou o projeto neoliberal que retira recursos das universidades e da ciência e tecnologia, o que impacta as mulheres particularmente. “Os últimos cortes orçamentários que foram implementados, desde janeiro até agora, dão conta de 3,2 bilhões da Educação, o que vai impactar as universidades federais, nos IFs e nas bolsas”, apontou.

A mestranda Gabryele Moreira falou sobre a importância de políticas públicas que assegurem a democratização do ambiente acadêmico. Citando sua trajetória, demonstrou que sem apoio do Estado, não se pode popularizar a universidade e a ciência. “Eu entrei na universidade pelas cotas, permaneci através de ´políticas públicas de permanência – eu sou baiana, mas fui estudar em Sergipe. Assim como eu, muitas mulheres negras enfrentam dificuldades para permanecer na universidade”.

Mariana Moura, pós-doutoranda e fundadora do Cientistas Engajados, falou sobre conquistas que podem ser obtidas sem depender de alterações legislativas, mas através de alterações nos editais para seleção de projetos que os tornem mais acessíveis às mulheres. “Se você foi mãe nos últimos anos, obviamente você tem uma redução na sua produtividade acadêmica ou na publicação de artigos, e isso precisa ser levado em consideração nesses editais”, disse, lembrando a pesquisa realizada pelo grupo “Parent in Science” e que começa a surtir efeito em alguns certames mais recentes.

Fechando a mesa, a Diretora de Mulheres da ANPG, Paula Vieira, valorizou o III EME como espaço de diálogo e organização das mulheres para a construção de uma sociedade com equidade de gênero, inclusive na ciência. “Nós, mulheres pós-graduandas, precisamos pensar como fazer para construir uma nova ciência e uma nova educação que seja feminista. Para construir esse novo Brasil é fundamental que existam espaços de auto-organização. Esse Encontro de Mulheres é um convite à construção de resistência e de dias melhores”, finalizou.

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